Crachá para quê?

As fotografias da reunião de João Pessoa tinham um quê de perturbador. Alguém que esteve lá em julho passado as havia enviado pela rede. Dos participantes, cerca de quinze, só reconhecemos três. Posteriormente, um de nós, num esforço de reportagem, identificou-os no pé da foto. Aí ficou um pouco mais fácil. Assim mesmo, havia o risco de passarmos por um deles e sequer cumprimentá-lo.

Agora chegara a nossa vez. Ficamos radiantes quando a turma, com quem nos formamos há quase quatro décadas, escolheu Curitiba para outro reencontro. Nosso pequeno grupo começou a se reunir. Assim que enviamos as primeiras propostas da programação, algum espirituoso apressou-se em nos intitular Comissão de Organização do Encontro de Curitiba, que logo virou COEC. De tão pomposa, a denominação chegou a subentender que seríamos remunerados. Pensamos em sugerir. Quem sabe não colava?

Certos pontos nortearam a valorosa COEC. O programa teria que ser agradável e pouco estressante, haja vista a alvura revelada nas cabeças das fotos de João Pessoa. Elas, as mesmas e perturbadoras fotos, fizeram com que decidíssemos confeccionar crachás, vacina contra possíveis constrangimentos. Nada poderia ser muito dispendioso, pois não estaríamos acolhendo membros do judiciário nem do legislativo. Jamais seríamos perdoados se insistíssemos na formalidade. De formal, somente um momento, mínimo, porém comovente, para homenagear aos mais de trinta amigos que já partiram.

As discussões da voluntariosa COEC se sucediam, e nada. Só tomávamos uma decisão importante: a data da reunião seguinte. Enquanto isso, as sugestões não paravam de chegar pela rede. Na véspera, finalmente, a programação ficou pronta.

A operação de maior risco seria a de receber o pessoal no aeroporto. Era grande a possibilidade de não reconhecermos os companheiros que, naquele momento, ainda não portavam o seu crachá. Sugeriu-se levar um cartaz com o nome do visitante. Boa ideia, que ninguém aplicou. Resolvemos arriscar. Acabou dando certo. Todos foram acolhidos com um abraço tão forte quanto um tapete vermelho.

Havia, ainda, outro perigo. O Afonso Pena é o campeão das neblinas. Volta e meia, os passageiros vão parar em Floripa. Se isso ocorresse, alguns companheiros, seduzidos pelas belezas da Ilha Encantada, poderiam decidir ficar por lá. Aí, não haveria plano B que resolvesse. Por sorte, o Afonso Pena não fechou.

Logo entregamos os crachás a serem usados em todos os eventos: no city tour; no almoço em Santa Felicidade; na descida da serra da Graciosa (de ônibus, pois o preço do trem era exorbitante), a fim de degustar o tradicional barreado de Morretes; nas reuniões no Círculo Militar; na Boca Maldita, para assistir ao belo espetáculo de Natal no Palácio Avenida; e, por fim, na fazenda onde seria servido porco no rolete, outro prato típico regional.

Tudo transcorria mais ou menos bem, como era de esperar. No segundo dia, como também seria de esperar, o pessoal voltou a ser Cadete. Trocaram os crachás. Sabemos de quem partiu a ideia, mas não vamos dedurar. João passou a ser Manoel; o Manoel, Francisco; e por aí afora. Tudo aconteceu sob o olhar desapontado da intrépida COEC. Chegamos à conclusão de que amigos de verdade, mesmo com idade para terem assistido o Vigilante Rodoviário, a Vila Sésamo e a Copa de 70, dispensam identificações. A julgar por tal constatação, o encontro foi válido. Ele reuniu velhos guerreiros, na acepção pura e verdadeira do termo. Guerreiros que um dia sonharam juntos o mesmo sonho, não para si mesmos, mas para a extraordinária Nação de todos os brasileiros. Infelizmente, parece que só os soldados pensaram assim. Por isso, hoje dispensam crachás.

PS: Não esquecemos das esposas, que, mais uma vez, emprestaram seu encanto e inteligência para abrilhantar nosso encontro. Desculpem-nos, mas quando nos revemos, falamos mais do que vocês. E vocês sabem como isso é difícil. Um fraterno abraço da esforçada COEC.

23 Respostas para “Crachá para quê?”

  1. Albérico Diz:

    O amigo Bonat como sempre foi muito feliz no seu artigo.
    Como participante do encontro só posso dizer que rejuvenescemos vários anos. Segundo a esposa de um companheiro que lá estava, o que foi gasto no encontro reverterá em economia de medicamentos.
    Abçs

  2. Robson Diz:

    Bonat, a graça está justamente no jogo da advinhação e o crachá estraga tudo. Já imaginou se o Chiquita estivesse de crachá? Como teria sido possivel o trote no Kokó? Além disso, aqueles foram dias para esquecer o lado triste da vida e relembrar dos bons momentos, mesmo daqueles que maldissemos quando os vivíamos. De resto, parabéns pela organização, pela dedicação e pela crônica. Abs

  3. Figueiredo Diz:

    Distinto amigo e irmão,
    Como fico sensibilizado quando falto a esses encontros… é, realmente, a volta “aos velhos tempos”. Você e todos que se esforçaram para o brilho do evento, nossos cumprimentos. Pelas fotos nota-se a alegria e a felicidade de todos pelo ReEncontro. Na próxima, vamos implantar “chips” ligados direto às memorias dos velhinhos…

  4. Kourrouski Diz:

    Bonat, como é agradável ler uma crônica de fácil compreensão e que sintetiza perfeitamente parte do que aconteceu em Curitiba. A todos vocês que nos acolheram o meu muito obrigado, pois fez um quase ancião rejuvenescer e voltar aos velhos tempos de tenente. Quanto a organização do evento, impecável. Nassif, Saldanha, etc. perderam uma festança sensacional. Abs.

  5. Paulo Cesar Diz:

    Excelente, como sempre.
    Nossa turma(Nações Unidas-64) se reuniu em Manaus entre 8 e 12Out10.
    O encontro chamou-se RETUMAN-Reunião da Turma em Manaus e conseguimos reunir 25 pessoas sendo que só 3 foram sem as esposas.
    Foi MB como acredito tenha acontecido aí em Curitiba.
    Fizemos a anterior em Floripa e ano que vem ou será um cruzeiro ou na Serra Gaúcha.
    Abração

  6. Joaquim rocha Diz:

    Amigo Bonat. Imagino a alegria do reencontro, dos papos informais e descontraídos, em volta de um aperitivo,uma refeição ou um passeio com as esposas. Espero que tenha tido um bom churrasco para selar o encontro.
    Mes passado fizemos o nosso, para reunir a turma de Aspirantes 1969, da Brigada Militar do RS, que fazemos todos os anos, onde também reverenciamos os colegas falecidos. Parabéns pelo encontro, serve para esquecer um pouco dos graves problemas que afligem a situação nacional.

  7. Antonio Ferreira Sobrinho Diz:

    Bonat,
    Belas reportagens(a das fotos de Morretes e esta do crachà).Não fui porque me “enrolei”.Fiquei com inveja de quem foi.O teu texto,me deixou com àgua na boca(imagina a “cana” para acompanhar o porco no rolete e o tal de barreado).
    Abrçs nos integrantes da COEC.

    Arataca Ferreira

  8. Jacornélio M Gonzaga Diz:

    Sr General Bonat
    Tendo tomado conhecimento da Reunião da “última turma rústica” formada na AMAN ocorrida em Curitiba, fiz alguns contatos com amigos militares e soube que, dos residentes curitibanos, somente os coronéis Santamaria, Saldanha e Ivanei deixaram de ir ao evento. Qual não é minha surpresa, tomo conhecimento que o Cel Nacif não compareceu. Ainda bem que a Int 71 lá estava representada pelo Sr Cel Dahur. Parabéns pelo evento. Saudações jacornelianas do seu admirador,
    Jacô

  9. Cosendey Diz:

    Amigo Bonat,
    Não pude comparecer a este encontro, conforme os motivos já expostos em outra oportunidade. Mas meu pensamento esteve sempre junto a vcs a cada dia, imaginando os momentos de alegria e satizfação de todos. Parabéns à COEC e a vc por tão bem revelar o espírito reinante da festa. Forte abraço.

  10. Brugalli Diz:

    Amigo Bonat.
    Abstenho-me. Afinal, como se diz pelas canhadas e coxilhas deste amado Rio Grande, “até aí meus bois não puxam”. Fico na minha, imazginando as sadias malandragens da juventude relembradas com saudades. Quantos ex-segredos, heim!?

  11. Francisco Lombardi Diz:

    Mais uma oportunidade perdida por mim, mas folgo em saber que tudo correu bem com nossa eterna alegria…Fraternal abraço.’.

  12. bruno perin Diz:

    Caro Amigo Gal. Bonat,
    Como civil, eu naõ podia imaginar a alegria de um reencontro
    de estudantes Militares.Pelos comentarios dos presentes, dos ausentes, e especialmente pela crônica (crachá para que)
    eu me senti um participante do COEC.
    Abraço
    Bruno

  13. Dirceu Rigoni Diz:

    Caro Hamilton,

    O seu artigo/relato é de causar inveja [não a dos sete pecados capitais], a qualquer pessoa que sabe e pode ter o privilégio de ter “AMIGOS/COMPANHEIROS”, porque o espírito condena tudo o que não inveja.
    Estou torcendo por vocês, que a próxima Reunião da Turma da AMAN/71 tenha, no mínimo, o mesmo êxito com ou sem “CRACHÁ” elaborado pela COEC.

    Forte abraço,

    Zé Dirceu.

  14. alfredo arruda camara Diz:

    Caro Bonat: não poderia deixar passar esta oportunidade para registrar pontos relevantes sobre o evento e a sua feliz crônica.Para não me estender,tomo a liberdade de fazê-lo em 02 Comentários.
    O primeiro ponto a esclarecer é o porquê da troca dos “crachás”.Seria o teste da “falsidade”…Ao abraçar alguém em um coquetel ou um Congresso,é instintivo que se olhe ANTES o “crachá’e se exclame com entusiasmo: “Fulano!quanto tempo!!!muita saudade…precisamos nos ver mais!!!”.Parece que no nosso encontro do Barreado/Morretes pelo menos 01Hum) dos colegas entrou nessa…Abração.Alfredo.

  15. alfredo arruda camara Diz:

    Bonat: 1) reinvindico o “direito autoral” sobre o nome COEC.Criei-o para dar maior “estatura’ ao evento.Se não,iria parecer um “encontrozinho” de amigos e não um Evento Oficial da Turma,como de fato foi;porém,com essa denominação,corríamos um grave perigo: a de ter institucionalizado Funções,cargos,Diárias,etc para os integrantes.Ainda bem que os sucessivos almoços e jantares durante a etapa de planejamento não foram “pendurados” para rateio na Turma…
    2)Conforme idéia atribuida ao Sr.Jacornélio Gonzaga,os “nativos’ de Curitiba deveriam ratear entre si as despesas de quem veiu de muito longe…exemplo: Natal,Recife e Salvador.”quem convida,dá banquete…”.Mas,como não foi combinado antes,fica pro próximo… Abraço fraterno.Alfredo

  16. Mario Gardano Diz:

    Bonat, tua cronica é de uma singeleza a toda prova,lendo me senti no meio de vcs imaginando as lembranças que tomam contam da cabeça de cada um, as reuniões na juventude, os sonhos vividos e muitas vezes frustrados, o suor dispendido em vão,mas acima de tudo uma turma de bravos que se reencontram e que a cumplicidade dos olhares transmite a vontade de servir acima de qualquer coisa.
    Parabens

  17. Juliana Bonat Diz:

    Quer dizer que vocês falaram mais que as esposas? Coitadas, devem ter ficado muito desapontadas. Bom ter amigos para compartilhar nossas ideias e nem precisar de crachá para lembrar do nome deles. Abração.

  18. João Allemand Diz:

    Traduzir sentimentos e sensações em letras, palavras e frases é um dom concedido a poucos. Captar as transformações de senhores vividos e experientes em atrevidos e intrépidos jovens foi o ponto alto. Nessa simples e despretenciosa crônica você conseguiu isso com rara precisão e beleza. Acho que é porque transformou-se também! Parabéns!

  19. Jorge Colpo Diz:

    Não fui, mas parece-me que estive aí com vocês, principalmente depois de acompanhar as mensagens diárias daqueles que compartilharam desses momentos.
    Depois de ler sua crônica, aí sim eu tive a certeza de que estive neese encontro.
    Abraço fraterno.

  20. durval santos Diz:

    Meu Caro General Bonat

    Muito interessante, me fez lembrar a minha festa de 40 anos de formatura.

    parabens durval santos

  21. Roberto Barbosa Diz:

    Amigo Bonat… Lendo sua crônica e os comentários, não há como ficar sem um nó de emoção preso na garganta…

  22. Cazarim Diz:

    Amigo Bonat
    Parabens pelo seu artigo sobre o encontro da turma /71 em Curitiba.
    Agradeço a você e os companheiros curitibanos pela atençao como eu e minha esposa fomos recebidos nessa cidade. Foi uma excelente oportunidade para revermos velhos cadetes, hoje jovens e orgulhosos avós , a maioria deles.
    Forte abraço a todos e Feliz Natal
    Cazarim e Carmen

  23. Santa Maria Diz:

    Gostaria de me desculpar com os amigos que estiveram na reunião de Curitiba, por eu não estar presente. No dia em que o Bonat esteve no aeroporto, nos encontramos e ficamos juntos para receber o Albérico. Eu estava de partida, naquele dia para a casa de meu filho.

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