O urubu bebum

Apesar do título, esta crônica não falará do Mengão, hexacampeão para sua torcida e penta para os fanáticos pelo Sport. Se as sedes da CBF e da Rede Globo fossem no Recife, muita gente daria razão aos pernambucanos. Mas não são.

Trata-se de uma discussão interminável que, desde a tragédia de 6 de dezembro no Alto da Glória, tornou-se banal para mim. Tragédia anunciada, diga-se de passagem, pois a Globo já convencera o Brasil inteiro que o Flu não merecia cair.

Mesmo assim, não há como perdoar a incompetência Coxa-Branca, que deixou para definir sua vida na última rodada, e logo contra um carioca. A sensação de cartas marcadas levou à revolta. Todos sabiam o que iria acontecer. Todos, menos os responsáveis pela segurança. Ao posicionarem quase todo o seu efetivo do lado externo do estádio, deixando pouco mais de uma dezena de policiais dentro do campo, eles desprezaram uma ameaça que era gritante. Bastariam seis PMs com meia dúzia de cães junto ao fosso, e nenhum marginal que se escondia no anonimato das torcidas organizadas se atreveria a atravessá-lo. Em consequência, hoje (e por enquanto), futebol é para mim coisa fútil de um passado tristonho.

Quero mesmo é falar do urubu bebum. Parece história de pescador, mas me garantiram que é verdadeira. Quem quiser conferir, basta visitar Antonina, cidade litorânea do Paraná que já teve importante porto, mas hoje se limita a nos oferecer boas pousadas, pratos típicos e acolhedores habitantes que vivem do artesanato e da pesca. Diversão mesmo, eles só têm por ocasião do Carnaval (tido como o mais animado do Estado), das festas folclóricas, como a de Nossa Senhora do Pilar, ou quando, em julho, a Universidade Federal do Paraná promove o festival de inverno de arte e cultura.

Fora isso, os moradores têm que inventar algo para se entreter. Dizem que foi o que alguns fizeram. Num momento de ócio, enquanto bebiam sua cachacinha, decidiram que um urubu deveria se juntar a eles. Não sei como conseguiram mas, se você for lá, é provável que encontre a pobre ave, com ares de pescador, passeando bêbada próximo ao mercado municipal.

Essa desumana agressão faz-me recordar de algo que pagaria para esquecer: uma ave agourenta levou a desgraça ao Alto da Glória. Certamente não foi o urubu antoninense. Este, desde que passou a beber, deixou de voar e, logicamente, de pousar na sorte alheia.

5 Respostas para “O urubu bebum”

  1. Luiz Cláudio Diz:

    Meu caro e estimado Hamilton,
    Como coxa,é difícil mas necessário ler a verdade dos fatos; parabéns.
    Permita-me palpitar que a referência indireta ao último personagem, embora procedente, pode conduzir a dúbias interpretações das quais você não é merecedor.
    Desculpe a impertinência.
    abraço
    LC

  2. Carlos Alberto Peron Ramos Diz:

    Caro Hamilton,
    Como está? Estivemos em Curitiba no final de 2009 e não pude conversar contigo. Esperava poder fazê-lo e ganhar aquele autógrafo no seu livro. Paciência, fica para a próxima. Quanto às sempre tão bem escritas crônicas, nesta duas histórias se juntaram para contar um fato. Bem, da primeira nem faço muito voto, sempre fui avesso ao futebol. Talvez porquê tenha nascido um pouco depois do futebol arte, do esporte arte. Hoje o que vejo é o esporte “primeiro eu”, financista, empresarial, sem graça. O que me chamou a atenção foi sim a história do pobre “abutre” de Antonina, refém de uma atrocidade cruel e desnecessária. O homem se degradou demais e está desprezando o seu habitat de uma forma impressionante. A crueldade aos animais está em níveis alarmantes e esta mesma crueldade, de uma forma ou de outra atinge ao próprio homem. Abraço.

  3. Carlos Gama Diz:

    Meu caro Bonat, bebida em excesso pode realmente provocar hipertensão e, pior, quando bêbado é que o urubu voa sem destino e acaba pousando na sorte alheia.

  4. joão carlos aranha Diz:

    É bom esse urubu andar tomando suas cachacinhas e bamboleando com seu passinho, sempre com bastante humildade, porque, se
    for ambicioso, prosperar e virar magestade, será
    engaiolado no jardim zoológico com a etiqueta

    URUBU REI.

  5. NIna Marach Carpentieri Diz:

    Como sempre, fez nossa alegria, Hamilton. Hilária, bem alinhavada a crônica, sobre dois assuntos tão diferentes: futebol x folclore de Antonina! Leitura gostosa e agradável,
    muito divertida e inspirada!
    Ótimo fim de semana!
    Beijos em toda esta familia que tanto amamos!

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