Artigos de 2010

Um Papai Noel de Gauche

09/12/2010 por bonat

A confusão na Sierra Maestra custara a vida de um garçom. A viúva estava desesperada, pois o patrão não pagara os encargos sociais do falecido. Petrolino dobrou o jornal e, pela janela, viu ônibus passarem lotados. No seu, climatizado, ninguém ia em pé, exceto em dia de protestos como aquele. Circulando pelo corredor, o representante do sindicato dava instruções de como proceder quando parassem na entrada da refinaria.

Petrolino era extremamente dedicado à empresa. Ganhava muito bem. Numa época de dólar supervalorizado, os reajustes acompanhavam as variações da moeda americana. Quem pagava era o consumidor. O combustível mais caro elevava a inflação às alturas. Por ter consciência disso, Petrolino considerava exageradas certas reivindicações. Se pudesse, não desembarcaria. Mas não tinha opção. Um carro de som bloqueava a passagem do ônibus, enquanto piqueteiros ameaçavam quem tentasse prosseguir à pé.

Entusiasmado com a presença maciça da imprensa, o presidente do sindicato deitou falação por mais de hora. Lá do alto, bradou por outro reajuste. Exigiu ônibus novos para transpotar o pessoal (Petrolino lembrou-se do povão no busão), mais direitos sociais (aqueles negados à pobre viúva do garçom), adicional de periculosidade, inclusive para os dirigentes do sindicato (o mesmo dos colegas que se arriscavam nas plataformas em alto-mar) e outras tantas benesses. Ao encerrar, a voz irada, ampliada pela aparelhagem de som, ameaçou com greve.

De volta ao ônibus, Petrolino foi questionado pelo vizinho de poltrona se ouvira falar na boate Sierra Maestra. “Li algo a respeito”. “Sabe quem é o dono? O moço que acaba de discursar”. No dia seguinte, o líder petroleiro foi primeira página dos jornais. Do proprietário da Sierra Maestra, embora fosse a mesma pessoa, não mais se falou.

Atualmente, os ex-chefões do sindicato, que pouco sofreram com o ar pesado da refinaria, ocupam altos cargos em estatais, enquanto o quase setentão Petrolino é apenas o aposentado do quinto andar. Amargurado, percebe que ninguém se lembra de sua dedicação à empresa. Sente-se um morto-vivo. Decide reagir e mergulha nas obras de Jean-Paul Sartre e Rimbaud. Descobre que sua vocação era ser de “gauche”, não um esquerdista qualquer. Nem por isso deixa de criticar a França por nunca ter aplicado as teorias dos seus brilhantes filósofos, preferindo exportá-las. Se não deram certo na União Soviética, é porque foram mal interpretadas.

Passa a saudar a todos com um “bon jour” e a tratar de modo raivoso aquele burguês, dono da mercearia, que o explora. Precisa mudar o visual, pois imagem é tudo. Deixa crescer barba e cabelo. São brancos, mas pouco importa. Inspirado em Chávez, compra um par de botas, boina e camisa vermelhas. Mas, para impactar, providencia uma calça também vermelha, ou “rouge”, como diz quando quer impressionar os vizinhos. Com a nova vestimenta, perambula ruidosamente pelo bairro, espalhando sua revolução.

Em dezembro, a filha chega para passar o Natal. Ele quer mostrar-lhe como tinha evoluído. Aguarda-a vestido à caráter. Quando a porta se abre, os netos correm para abraçá-lo: “Papai Noel, nós te amamos”!

Rendido à pureza das crianças, o radical Petrolino espera só o Natal passar para voltar a ser o velho Petrolino, orgulhoso por ter ajudado, honestamente, o país a alcançar a autossuficiência. Raspa a barba e rasga a fantasia, que tacha de “ridicule”. Por sorte, os netos ainda lhe perdoam certos galicismos.

Publicado em Datas marcantes

A mensagem das montanhas

05/12/2010 por bonat

As FARC não perderam tempo. Já em 01 de novembro, mãos que sequestram e matam largaram por alguns minutos o fuzil para saudar nossa primeira Presidente. Com uma coerência bolivariana, chamaram-na de compatriota. Calçaram luva branca de diplomata para falar de paz e de uma saída política para a crise da Colômbia. Em seguida, com as mãos já desnudas, empunharam novamente as armas, argumento não tão pacífico com que buscam pôr fim à democracia em seu país.

Não sei se a candidata vitoriosa tomou conhecimento. Acredito que não, caso contrário já teria manifestado seu repúdio aos fornecedores das drogas que vêm sepultando o futuro da nossa juventude. Mas o texto está no site da ANNCOL, Agência de Notícias Nova Colômbia, para quem quiser ler. Eles buscam com o site conquistar simpatizantes. Penso que, em breve, postarão mensagem autoenaltecendo o caráter social do seu movimento. Dirão que, ao passarem a produzir crack, democratizaram o uso da droga, tornando-a acessível a todas as classes, e não só aos garotos de Ipanema e do Leblon.

Não me preocupo com o que é divulgado por milhares de páginas que circulam pela internet. Essas, ao menos, são visíveis. Você acredita se quiser. Preocupam-me, isto sim, as redes invisíveis, usadas pelos chefões para se comunicar. Elas não chegam aos morros. Aqueles traficantes que assistimos fugindo do Complexo do Alemão não têm acesso a elas. Eles, de certa forma, são vítimas, que fazem outras vítimas com requintes de crueldade. Mas ninguém deve se iludir. Os barões da droga não estão nos morros. Estão nas montanhas.

“Não deixem atrapalhar nosso negócio”, deve ter sido a ordem transmitida em código, nos últimos dias, das montanhas colombianas para as brasileiras.

Portanto, a ação policial, até agora aplaudida, corre sério perigo. Risco ainda maior será do Exército, o mais recente convocado para a batalha. Quando surgir a primeira vítima, já antevejo as manchetes: “suposto traficante é assassinado por militares”. Apesar de armado até os dentes, o falecido passará a ser um “suposto”, e alguém de farda responderá longo e desgastante processo na justiça. Nem quero pensar na repercussão que terão as baixas de inocentes, um dos indesejáveis efeitos colaterais de qualquer guerra.

Tem-se notícia de que soldados que vivem na favela vêm sendo ameaçados por alguns “supostos”. Também pudera! Pelo que ganham, já deveriam ter mudado para o desconforto dos quartéis. É o que alguns estão fazendo. Mas quem protegerá suas famílias?

Crachá para quê?

01/12/2010 por bonat

As fotografias da reunião de João Pessoa tinham um quê de perturbador. Alguém que esteve lá em julho passado as havia enviado pela rede. Dos participantes, cerca de quinze, só reconhecemos três. Posteriormente, um de nós, num esforço de reportagem, identificou-os no pé da foto. Aí ficou um pouco mais fácil. Assim mesmo, havia o risco de passarmos por um deles e sequer cumprimentá-lo.

Agora chegara a nossa vez. Ficamos radiantes quando a turma, com quem nos formamos há quase quatro décadas, escolheu Curitiba para outro reencontro. Nosso pequeno grupo começou a se reunir. Assim que enviamos as primeiras propostas da programação, algum espirituoso apressou-se em nos intitular Comissão de Organização do Encontro de Curitiba, que logo virou COEC. De tão pomposa, a denominação chegou a subentender que seríamos remunerados. Pensamos em sugerir. Quem sabe não colava?

Certos pontos nortearam a valorosa COEC. O programa teria que ser agradável e pouco estressante, haja vista a alvura revelada nas cabeças das fotos de João Pessoa. Elas, as mesmas e perturbadoras fotos, fizeram com que decidíssemos confeccionar crachás, vacina contra possíveis constrangimentos. Nada poderia ser muito dispendioso, pois não estaríamos acolhendo membros do judiciário nem do legislativo. Jamais seríamos perdoados se insistíssemos na formalidade. De formal, somente um momento, mínimo, porém comovente, para homenagear aos mais de trinta amigos que já partiram.

As discussões da voluntariosa COEC se sucediam, e nada. Só tomávamos uma decisão importante: a data da reunião seguinte. Enquanto isso, as sugestões não paravam de chegar pela rede. Na véspera, finalmente, a programação ficou pronta.

A operação de maior risco seria a de receber o pessoal no aeroporto. Era grande a possibilidade de não reconhecermos os companheiros que, naquele momento, ainda não portavam o seu crachá. Sugeriu-se levar um cartaz com o nome do visitante. Boa ideia, que ninguém aplicou. Resolvemos arriscar. Acabou dando certo. Todos foram acolhidos com um abraço tão forte quanto um tapete vermelho.

Havia, ainda, outro perigo. O Afonso Pena é o campeão das neblinas. Volta e meia, os passageiros vão parar em Floripa. Se isso ocorresse, alguns companheiros, seduzidos pelas belezas da Ilha Encantada, poderiam decidir ficar por lá. Aí, não haveria plano B que resolvesse. Por sorte, o Afonso Pena não fechou.

Logo entregamos os crachás a serem usados em todos os eventos: no city tour; no almoço em Santa Felicidade; na descida da serra da Graciosa (de ônibus, pois o preço do trem era exorbitante), a fim de degustar o tradicional barreado de Morretes; nas reuniões no Círculo Militar; na Boca Maldita, para assistir ao belo espetáculo de Natal no Palácio Avenida; e, por fim, na fazenda onde seria servido porco no rolete, outro prato típico regional.

Tudo transcorria mais ou menos bem, como era de esperar. No segundo dia, como também seria de esperar, o pessoal voltou a ser Cadete. Trocaram os crachás. Sabemos de quem partiu a ideia, mas não vamos dedurar. João passou a ser Manoel; o Manoel, Francisco; e por aí afora. Tudo aconteceu sob o olhar desapontado da intrépida COEC. Chegamos à conclusão de que amigos de verdade, mesmo com idade para terem assistido o Vigilante Rodoviário, a Vila Sésamo e a Copa de 70, dispensam identificações. A julgar por tal constatação, o encontro foi válido. Ele reuniu velhos guerreiros, na acepção pura e verdadeira do termo. Guerreiros que um dia sonharam juntos o mesmo sonho, não para si mesmos, mas para a extraordinária Nação de todos os brasileiros. Infelizmente, parece que só os soldados pensaram assim. Por isso, hoje dispensam crachás.

PS: Não esquecemos das esposas, que, mais uma vez, emprestaram seu encanto e inteligência para abrilhantar nosso encontro. Desculpem-nos, mas quando nos revemos, falamos mais do que vocês. E vocês sabem como isso é difícil. Um fraterno abraço da esforçada COEC.

Publicado em Turismo

Dia da música e do arrastão

22/11/2010 por bonat

Final de semana com nova onda de arrastões – cinco ao todo – no Rio de Janeiro. O primeiro ocorreu na noite de sábado, na BR-116, altura de Duque de Caxias. Os bandidos mataram um eletricista em frente à família com um tiro de fuzil.

Um sargento da Aeronáutica estava com um carro oficial enguiçado na lateral da via. Foi ameaçado. Quando apontaram para ele, conseguiu fugir pelo lado do carona.

Na Via Dutra, no domingo, uma quadrilha fortemente armada bloqueou um trecho da estrada. Roubaram um Kia Cerato e um Prisma. Na ação, um jovem de 26 anos foi baleado na cabeça. Levado para o hospital, seu estado é grave.

Como hoje – 22 de novembro – é o Dia da Música no Brasil – não pude deixar de ligar os fatos. Encontrei o responsável, graças a alguém indignado com a onda do politicamente correto. Segundo mensagem que me enviou, nas escolas, alteraram a letra do Samba Lelê. A versão original – “Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas” – virou “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar”. Logo, está proibida a palmada na bunda. Ela incita a violência. Se eu fosse a Lelê, torcia para a febre nunca passar. Sabe de quem é Samba Lelê? Simplesmente de um tal de Villa Lobos. A professora podia até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Correta, do Jardim Escola Criança Feliz.

Do mesmo autor, “O cravo brigou com a rosa” também teve a letra adulterada, pois a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre casais. O que vale agora é “O cravo encontrou a rosa/ Debaixo de uma sacada/O cravo ficou feliz /E a rosa ficou encantada”. O próximo passo será enquadrar o Cravo na Lei Maria da Penha. Será que as pessoas sabem que essa obra faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

Assim sendo, não resta a menor dúvida quanto à culpabilidade de Heitor. Graças ao seu incentivo, os bandidões levaram umas palmadas no bum-bum. Agora roubam e matam. Basta o Ministério Público apresentar denúncia.

Aliás, é preciso ficar de olho nas bandas militares. Semanas atrás, a da 5ª Região Militar foi animar a festa de uma escola infantil aqui de Curitiba. Sabe o que tocou? “Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso pro quartel”. Sentiram quanto estímulo à violência? Primeiro, subentende a volta à ditadura. Segundo, ao ameaçar com prisão alguém que simplesmente esteja de passo errado, incentiva a tortura.

Estava à toa na vida. Assim começa a canção que tirou Chico Buarque do anonimato. Pode não ter sido inspirada numa banda militar. Mas que parece, parece. Quem diria. Um dia, até o Chico não foi politicamente correto!

Por isso, os autores brasileiros precisam ter mais cuidado. Estão dizendo por aí que encorajam a bandidagem carioca. Mas não podemos deixar de cumprimentá-los. Eles são notáveis.

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Eleições: atendendo a milhares de pedidos

05/11/2010 por bonat

Um amigo metido a cantor foi quem inspirou o título desta crônica. Quando animava nossas reuniões com seu violão, antes de terminar, ele empostava a voz para anunciar la grande finale: “atendendo a milhares de pedidos, vou apresentar uma canção de minha autoria”. Aí, recebia vaias, pelas quais já aguardava com um sorriso maroto.

Agora chegou a minha vez de receber apupos, nem sempre bem-humorados como os que dirigíamos ao nosso amigo. Tratarei das eleições do último dia 31. Faço-o a contragosto, não por temer vaias, e sim por entender que o tema esteja praticamente esgotado. Mas, “atendendo a milhares de pedidos”, aí está.

Não irei direto ao assunto. Antes, preciso aconselhar aos que pretendam se candidatar no futuro, a não pedir o meu voto. O razão é óbvia: não acerto uma, ou quase nenhuma. Usando de metáfora futebolística, tão em voga, confesso que sempre torço pelo time mais fraco. Se o Arranca Toco Futebol Clube jogar contra qualquer desses times badalados em todas as mídias, meu coração será arrancatoquense desde criancinha. O motivo é simples: o menor salário do time famoso corresponde a toda a folha do Arranca Toco.

Nas eleições ocorre algo semelhante. Tendo a escolher pessoas desconhecidas, cujos currículos e propostas me convençam de que são, e continuarão sendo, “fichas limpas”. O resultado tem-se revelado frustrante. No primeiro turno, dos seis que escolhi, só um levou.

Se você conseguiu ler até aqui, deve estar com suas baterias apontadas na minha direção, prontas para bombardear-me: “afinal, em quem você votou no segundo turno?” Antes que dispare seus canhões, antecipo-me e lanço meus fogos de contrabateria, também na forma de pergunta: “havia algum candidato do Arranca Toco?” Certamente não.

A percepção era de que ambos pertenciam ao mesmo time, a um clube milionário. Declararam-se contra o aborto e a privatização, a favor da distribuição e ampliação de bolsas e de outras benesses recomendadas pelos marqueteiros.

Temas complexos e importantes para a nação receberam tratamento superficial. A necessidade de uma revolução na educação; os escorchantes impostos; a enorme dívida pública (interna e externa); a alarmante invasão das drogas; e a política externa, que contempla ditaduras com generosos recursos do contribuinte, enquanto nossa economia se encontra sufocada por uma infraestrutura caótica.

Caberia ao candidato da oposição ter levantado essas questões. Como não o fez, deu a entender que concordava com o status quo e não pretendia alterá-lo. Sua omissão tornou suave o caminho da candidata situacionista, montada em milionária campanha publicitária iniciada dois anos antes e amparada, em grande parte, por recursos oficiais.

Como trataram pontualmente de temas profundos e, profundamente, de assuntos pontuais, ficou difícil escolher. Mesmo assim, teria o azar de contar com o meu voto quem tivesse prometido uma bolsa para os valorosos atletas do Arranca Toco FC. Mas, como nem isso fizeram…

Pronto, estimado(a) leitor(a). Pode vaiar, mas queira-me bem. Só não queira o meu voto.

Publicado em Nacional, Política

Chi-Chi-Chi, Lê-Lê-Lê

15/10/2010 por bonat

Países em forma de salsicha, especialmente se alinhados aos Meridianos, tendem a se dividir. É o que dizem os geopolíticos. Além de estreitos, portanto facilmente seccionáveis, a disparidade climática, fruto de diferentes latitudes, afeta a personalidade das pessoas que povoam seu espichado espaço. A metafórica salsicha é apropriada para sintetizar o mapa chileno. De norte a sul, são 4.270 quilômetros, contra apenas 170 de leste a oeste. No sul predominam geladas florestas úmidas. No centro, região mais habitada, o clima é mediterrâneo. Ao norte, o deserto de Atacama é caracterizado pela ausência de chuva.

Entretanto, no Chile, fatores geográficos atuaram contra a cabalística previsão dos teóricos. A cordilheira dos Andes, barreira quase inexpugnável, o isolou da influência nem sempre desejável de vizinhos, enquanto a placa tectônica de Nazca, muito ativa, gerou violentos sismos, cujas consequências solidificaram a nação.

No início do século 20, o país foi atingido por dois grandes terremotos (1906 e 1939) que o empobreceram e quase o destruíram. Desde então, os chilenos decidiram se preparar. Por isso, os tremores de fevereiro último, dos maiores da história, não tiveram resultados ainda mais catastróficos. Embutida no planejamento para enfrentar esse tipo de situação sempre esteve a ideia de trabalho voluntário, que levou à solidariedade. A solidariedade conduziu a um sentimento de união, a um forte espírito comunitário.

É sabido que das profundezas o deserto de Atacama o Chile extrai sua maior riqueza, o cobre. De lá, em agosto, notícias rapidamente se espalharam. Dessa vez, a catástrofe estava longe das dimensões de um terremoto. De qualquer forma, eram preocupantes, pois estavam em risco 33 vidas: as dos trabalhadores da mina San José, isolados 700 metros debaixo da terra. Seu drama foi acompanhado com apreensão mundo afora. A exitosa operação de resgate, que envolveu técnicos, engenheiros, militares, psicólogos e médicos, foi comandada pessoalmente, desde o início, pelo presidente Sebastián Piñera. Dizem que ele se aproveitou politicamente. Mas poderia ter fracassado.

O fato é que, de norte a sul, as comemorações populares de alegria pela saída do último mineiro demonstraram que o Chile, desdizendo os geopolíticos, tornou-se uma grande família, cujo pai é simbolizado pela figura do presidente, seja de que partido for. Afinal, lá ainda se observa uma saudável alternância no poder.

Resta-nos aguardar pelo filme. Se pudesse, eu o intitularia “Chi-Chi-Chi, Lê-Lê-Lê”. Claro que terá um final feliz. Agora, se o fato tivesse ocorrido na China, onde não existe alternância, talvez nem notícias tivéssemos. Filme, só se fosse produzido por algum burocrata do governo.

Publicado em Internacional, Política

Corto cabelo e pinto

07/10/2010 por bonat

Ele não gostava nem um pouco quando os irmãos o chamavam de Quinzinho. Aos dezoito anos, voluntário, foi servir. Durante um ano, ficaria livre do apelido que detestava. Era agora o soldado número 512, Joaquim, da 2ª Bateria. Torcia para que os irmãos não fossem visitá-lo e revelassem aos seus companheiros aquela detestável alcunha.

Gostava de algumas coisas no quartel. De outras, nem tanto. Cortar o cabelo toda semana era uma delas. A cada sete dias, sentava na cadeira do Valdevino. Em menos de cinco minutos, ele fazia o serviço. Tinha que ser rápido para dar conta da fila. Mas, o que tinha de ligeiro, ele tinha de ruim. Era barato. Por isso poucos reclamavam.

Valdevino adoeceu. Era preciso substituí-lo. Consultaram a soldadesca para saber se havia alguém com prática no ofício. Como não apareceu ninguém, Joaquim resolveu arriscar. Levantou o braço.

Na manhã seguinte já estava empunhando uma tesoura e a navalha. Entrou a primeira vítima. Precisava caprichar. Levou vinte minutos, mas saiu-se melhor que Valdevino, o que não era difícil. Na terceira semana, Joaquim já era craque. Para azar, seu e dos demais recrutas, Valdevino ficou bom e voltou.

Quando deu baixa, Joaquim, que nunca fora muito chegado às letras (Português não era seu forte), desistiu de estudar. Resolveu seguir a vocação: abriu uma barbearia. E não é que tinha mesmo jeito para a coisa? Além do mais, era bom de prosa, qualidade indispensável a um bom “fígaro”.

Os irmãos resolveram ajudá-lo. Mandaram fazer uma placa e a fixaram na porta do estabelecimento: “Quinzinho’s Barber Shop”. Ficou tão bonita (e ainda por cima em inglês), que ele nem ligou para o apelido. A clientela aumentou. Não cabia mais no salão.

Tudo ia bem, até que decidiu ampliar o negócio. Além de cortar, iria agora pintar cabelos. Para sua decepção, mais nenhum freguês entrou na barbearia. Não conseguia entender por quê.

Caro leitor: você entraria no “Quinzinho’s Barber Shop” ao ler este anúncio: “Corto cabelo e pinto”? Certamente não.

Moral da história: analfabetos funcionais, mesmo sendo profissionais sérios e competentes, acabam falindo. Mas, se forem famosos, serão eleitos deputados federais. Tiririca é apenas um exemplo. Existem muitos outros.

Pai Eterno

03/10/2010 por bonat

Não se preocupe. Aleluias, tampouco. Mesmo crendo na existência do Pai Eterno, não tratarei de religião. Quanto mais os anos passam, leitores compulsivos tendem a duvidar dos intermediários da fé. É o meu caso. Por isso, estabeleci um contato direto com Ele. Veja o e-mail que Lhe enviei.

“De: um filho eterno. Para: Pai Eterno. Pessoas que se intitulam Seus representantes aqui na Terra têm usado o seu Santo Nome para cometer atos que me deixaram perplexo. Dirijo-me ao Senhor, o Todo-Poderoso, para saber se são verdadeiras duas histórias que contaram. Primeira: foi o Senhor que, durante a Santa Inquisição, determinou que humanos fossem jogados na fogueira? Segunda: foi o Senhor quem mandou que fiéis assumissem o comando de aviões repletos de passageiros e se lançassem sobre as torres gêmeas? Aguardo a resposta, com fé inabalável em sua infinita bondade, orando para que ela seja negativa”.

Ele ainda não se pronunciou. Certamente, por absoluta falta de tempo. É compreensível, tendo em vista que incontáveis filhos eternos como eu devem lotar Sua caixa de entrada.

A propósito de filhos eternos, num país de poucos leitores, é impossível deixar de comemorar a premiadíssima obra de Cristovão Tezza. Passear pelas páginas de seu romance autobiográfico nos leva a questionar sobre padrões de normalidade fortemente enraizados, que nos impedem de enxergar humanidade naqueles que não se encaixam em seus modelos. Isso nos tira do sério.

Algo mais nos tira do sério: constatar que o governo não tem dado aos “filhos eternos” a mesma atenção que dedica a outros filhos, estes sem nenhuma necessidade especial. São os que sofrem de “autismo de conveniência”, julgam-se merecedores das benesses governamentais, incapazes de sair da sombra do Estado, pai eterno para quem vive num confortável mundo à parte.

Temendo não ter sido entendido, citarei apenas um exemplo: os sindicalistas, cujas centrais, mesmo nadando em dinheiro, recebem o agrado de polpudos recursos oficiais. Por isso, decidi enviar outra mensagem ao (verdadeiro) Pai Eterno. Aí está.

“De: um filho eterno. Para: Pai Eterno. Tomo a liberdade de dirigir-me novamente ao Senhor, Todo-Poderoso. Quero fazer uma denúncia. Mais uma vez (o Senhor, claro, vai lembrar-se de Stalin, Hitler, Mussolini, Mao e outros tantos que hoje vivem com o Demo), humanos poderosos tentam substituí-Lo aqui na Terra. Com o dinheiro arrancado de seus semelhantes, dominam a quem a eles se submete. O Senhor sabe, claro que sabe, da desgraça que seres desse naipe já causaram. Agora mesmo, querem obrigar os habitantes de certa ilha, há cinqüenta anos acostumados às sombras dos coqueiros, a trabalhar, a ter iniciativa empresarial. Claro que, se Deus (rsss, o Senhor) quiser, será possível. Mas vai demorar. Por aqui, na América do Sul, promete-se um coqueiro por cidadão. Na Venezuela já é realidade. O Brasil ainda resiste, graças à parte da imprensa que ainda não aceitou receber seu coqueiro. Estou confuso, inseguro. O que devo fazer? Concordar? Por quantos coqueiros? Com fé, aguardo a orientação de sua infinita bondade.”

Caro leitor: você conhece uma praia com belos coqueiros? Onde?

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Mãe de Candidato

29/09/2010 por bonat

Ela amava o filho. Por isso, andava inquieta. Desde que ele resolvera entrar para a política, começara a preocupar-se. Agora, na antevéspera das eleições, não conseguia pegar no sono. Vestiu uma roupa qualquer, passou um pente no cabelo, pegou a bolsa e saiu.

Fazia noite escura, muito escura. Não havia lua. Quando deu por si, estava no canteiro que separa as pistas da avenida que margeia o cemitério.Vagou durante algum tempo entre as centenas de cartazes espalhados pelo gramado. Com eles, os candidatos visavam atrair os olhares embarcados nos milhares de automóveis que trafegam diariamente por ali. Àquela hora, porém, tudo estava deserto.

Sentou-se num banco, de costas para o portão do cemitério e de frente para um cartaz do filho: nome, número e foto, com um sorriso que o deixava ainda mais bonito. Encimando tudo, lia-se: “100% Ficha Limpa”. Que bom se fosse verdade. Por amá-lo tanto, conhecia suas fraquezas.

Súbito, um alarido de vozes femininas atrás de si causou-lhe medo. Não se virou. Tirou da bolsa o espelho de maquiagem. Nele, viu refletida a imagem de dezenas de caveiras. Após ouvir o ranger do pesado portão de ferro, assistiu-as vindo em sua direção. Ficou apavorada. Quis levantar, mas não conseguiu.

Petrificada, testemunhou uma cena tétrica. Com a ponta do osso que um dia fora seu indicador, as corcundas figuras esqueléticas escreviam sobre alguns cartazes: “Não Eleja”. Em seguida, cada uma procurava outros cartazes, sempre do mesmo candidato, para repetir aquele ato de crime eleitoral.

Quando completaram a obra, elas novamente se reuniram em alarido, passaram pelo portão de ferro e o fecharam. Voltou o silêncio.

Vagarosamente, a mãe que amava o filho-candidato foi-se recuperando do susto. Faltava pouco para o sol nascer, quando tomou uma decisão radical. Olhou à volta. Não havia ninguém por perto. Da mesma bolsa, sacou o batom e, um a um, traçou enorme “X” sobre o “100% Ficha Limpa” dos cartazes do filho.

Na manhã seguinte, os candidatos que se sentiram prejudicados apelaram para a justiça eleitoral. Aqueles que tiveram suas propagandas mantidas intactas eram os principais suspeitos. De nada adiantou. Não havia tempo hábil para investigar, nem era possível adiar a eleição.

Terminada a apuração, constatou-se vexatório erro nas pesquisas. Mais tarde, aprofundando os estudos, os afamados institutos chegaram à conclusão de que todos os candidatos órfãos de mãe haviam perdido. Outro derrotado foi o candidato que tivera seus cartazes manchados de batom. Mas, para surpresa dos analistas, a mãe deste último ainda era viva. Muito viva por sinal.

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Ventos de esquerda movem moinho

11/09/2010 por bonat

Pequeno, menor do que qualquer anão, compulsoriamente eu acompanhava meu pai e seus amigos em suas pescarias. Era no Miringuava, um riacho próximo de Curitiba. Ficava com pena ao ver centenas de lambaris serem retirados do seu habitat. Empregando “tecnologia de ponta” – anzóis e iscas – os pescadores atraíam seres minúsculos e indefesos. Essa desproporção tecnológica me fazia mal. Questão de princípios… Aí, eu me afastava do pesqueiro. Preferia fugir, seguindo as margens do rio.

Numa das fugas, deparei-me com uma roda d’água. Curioso, resolvi conferir como funcionava aquela traquitana que girava teimosamente lenta. Minhas pernas curtas de piá escalaram alguns degraus e me levaram a uma grande descoberta. Os polacos que viviam por ali usavam a força das águas suaves do Miringuava para transformar em farinha o milho que tinham cultivado com seu suor.

Já faz muito tempo que isso aconteceu. Tanto, que fomos induzidos a crer que princípios são dispensáveis aos humanos. Os poloneses do Miringuava já morreram. Seus lambaris estão desaparecendo. E as obsoletas rodas d’água perderam o encanto. São moinhos de vento que agora atraem as atenções.

Mas por quê, se, como as rodas-d’água, baseiam-se em mesmos e antigos princípios? Porque, para sua sorte, os moinhos de vento viraram nome de um hospital voltado para a classe “A” de Porto Alegre. Foi lá que nasceu o neto de uma das candidatas de esquerda (ser de esquerda é a nova mania nacional, tão chique quanto a clientela do Moinhos de Vento) à presidência da república.

Para a felicidade de todos, ele chegou a este mundo numa maternidade de primeira linha. Inteligente, de muito bom-gosto, a família contrariou os princípios que a avó-candidata apregoa abertamente. Mostrou possuir, acima de tudo, juízo.

Se eu fosse da direção do Moinhos de Vento, mandava um cartão para a suíte do pimpolho. Escreveria de próprio punho, com a melhor das minhas letras: “Seja bem-vindo, Gabriel. Hasta la vitória! Mas, cuidado, nunca pelo SUS”.

Publicado em Nacional, Política