Artigos de 2009

Cazuza, um baita chão!

11/07/2009 por bonat

“Ao sair da minha Cazuza, como despedida, visualizei meu horizonte. Mal e mal ultrapassava a altura da cerca da mangueira. Era pequeno o meu mundo”. Com essa frase, Luiz Carlos de Lucena iniciou o agradecimento ao receber o título de Cidadão Caxiense. Cazuza Ferreira, onde nasceu, é o 3º Distrito de São Francisco de Paula, um amontoado de casas, onde, segundo o próprio homenageado, no cemitério “mora” mais gente do que na própria vila. E acrescenta: ele é tão bem cuidado que virou atração turística. Lucena sempre foi um homem da comunicação – de jornal, rádio e televisão. Dizem que, quando está inspirado (e está sempre), discorre sobre qualquer assunto, com seu linguajar gaúcho marcante. Na verdade, trata-se de um vitorioso.
Ele tem consciência de que seu êxito não se deve tão-somente à sua vocação, inteligência, esforço e à ajuda de amigos. Sabe que a origem de tudo foi a pequena Cazuza. Veja o que escreveu no livro de causos (Onde amarrei o meu peixe) com que me presenteou: “O Brasil é uma ponchada de terra que cerca Cazuza Ferreira”. E, ainda: “Transporto-me para os Campos de Cima da Serra. Vislumbro os corredores que serpenteiam as coxilhas com suas laterais emolduradas pelos verdes claros campos, tendo como acompanhantes os verdes exclusivos das araucárias”. Nas entrelinhas dos divertidos causos, que narra com a mesma verve e bom-humor com que fala, consegue-se sentir o reconhecimento pelos exemplos recebidos da família, da professorinha, do pároco e, até, do dono do bolicho do pago onde viveu parte da infância.
Passei um bom tempo da minha existência em Caxias do Sul. Fiz amizades. Sempre que posso, vou revê-las. Além de matar a saudade, uns poucos dias no Sul têm o poder de revigorar meu espírito de brasilidade. Desculpem-me os conterrâneos paranaenses e os brasileiros de outros rincões, mas nenhum de nós possui, mais do que o gaúcho, um apego tão forte e sincero a esta grande extensão de terra chamada Brasil. No máximo, ele poderá ser igual.
Em minha última viagem à Serra Gaúcha, reencontrei alguns amigos, uns “pelo duro”, outros “cola fina”. O Lucena se auto-classifica como pertencente ao primeiro grupo, mas nem sempre ele está falando sério. Existem milhares de “Lucenas” espalhados pelo Brasil afora. Ainda bem, pois, saídos de suas diminutas “Cazuzas”, levam na guaiaca um tesouro: o sentimento nativista que receberam quando guri. Carregam, por toda a vida, lições de brasilidade daqueles que, possivelmente, façam o cemitério de sua querência ser hoje mais habitado do que a própria vila. Mais habitado e, em sinal de gratidão, muito bem cuidado.

Publicado em Literatura

Uma tal Capitão Carla

30/06/2009 por bonat

Por que não “Uma certa Capitão Carla”? Porque Fernando M. Lopes – a quem, infelizmente, não conheço – assim já intitulara um artigo seu, parte do qual transcrevo: “Num País onde faltam heróis e sobram cafajestes, teimamos em ignorar os bons exemplos. Como sou mais teimoso ainda, vou falar de dois desconhecidos: a capitão médica Carla Maria Clausi e o cabo Ricardo. Sabem quem são eles? Certamente não, mas devem ter visto algo sobre o desabamento de uma escola de Porto Príncipe, em novembro, no qual mais de 90 pessoas perderam a vida. Foi um horror; sobreviventes estavam sob toneladas de escombros, sem muita chance de salvamento. O que fazer? Em desespero, os haitianos se lembraram dos brasileiros; chamados, eles enviaram uma equipe médica composta por soldados e fuzileiros navais. Foi a salvação de 4 crianças, de 6 a 7 anos de idade. A capitão médica Carla e o cabo enfermeiro Ricardo se esgueiraram pelos escombros, ignorando o perigo e, a muito custo, conseguiram salvar as crianças. As fotos são impressionantes. Mostram o grau de coragem de dois heróis que arriscaram a vida por pobres crianças. Desafiaram a morte não por glória, dinheiro, fama ou medalhas. O agradecimento das famílias levou os bravos soldados às lágrimas”.
Por que transcrevo isso? Primeiro, por tomar conhecimento, pelos médicos do Hospital Militar de Curitiba, de quem atualmente sou um paciente assíduo e onde a capitão Carla serviu, que ela é um ser humano extraordinário. Segundo, pelas também impressionantes fotos que recebi dos estafados integrantes do Para-Sar logo após terem concluído a delicada missão de resgatar, em plena floresta, 154 corpos de vítimas do acidente entre o Boeing da Gol (todo certinho) e o Legacy (fora da altitude programada) pilotado por americanos. Nenhum deles, nem a capitão, nem o cabo, muito menos o pessoal do Para-Sar, foi notícia. Segundo as más línguas, apenas cumpriram seu dever. Por isso, devem estar em paz consigo mesmo.
Agora, após o acidente do Air-Bus da Air France no meio do Atlântico, as equipes da Marinha e da Força Aérea tiveram mais visibilidade. Apareceram até no Fantástico. Ainda bem, pois foi um trabalho árduo. Apesar de todo o corte em seu orçamento, Marinha e Força Aérea, rapidamente, fizeram o que parecia impossível: deslocaram uma força-tarefa para Fernando de Noronha a fim de participar das operações de resgate. Mesmo sabendo que ganham menos do que um ascensorista do Congresso, comandantes e tripulações conduziram seus navios e aeronaves para a área da tragédia a fim de cumprir mais uma delicada missão. Tarefa com risco muito maior do que ser mordomo, a quem pagamos 12 mil reais por mês, da governadora filha do presidente do senado.

Publicado em Segurança Nacional

Bingo!

20/06/2009 por bonat

Apesar de já ter idade para tal, não gosto de dar conselho a ninguém. Sou da teoria do tal do Murici – que cada um cuide de si. Porém, como tudo na vida, há exceções. Quando algum amigo diz que vai a Paris, recomendo o Moulin Rouge. Não é apenas para deliciar a vista com dezenas de jovens peitos nus. Durante duas horas se assiste a um rico espetáculo, que vai desde o can-can até a mímica, passando por trapezistas, cantores, domadores, mágicos, humoristas e outros mais. Lógico que, como bom conselheiro, informo que o show é caro, muito caro. Mas Moulin Rouge é Paris. Ir a Paris e não ir ao Moulin Rouge é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.
Agora, quando sei que alguém vai aos Estados Unidos, digo-lhe rapidinho: não deixe de ir a Las Vegas. O mundo está lá. Nem precisa jogar. Em Vegas, tudo é mais barato: hotéis temáticos, restaurantes de todos os sabores, transporte, shows da Broadway. Ainda há espetáculos sensacionais e gratuitos nas praças, simplesmente porque esperam que você guarde seus dólares para jogar. Se você é daqueles, como eu, que não gostam de cassino, bingo! Já ganhou.
E onde fica Las Vegas? No meio de um deserto. O governo americano, sem recursos para investir numa região pobre e totalmente isolada, decidiu que a iniciativa privada, se quisesse, poderia arriscar. Um milionário maluco topou. Montou a infra-estrutura (aeroporto, estradas, usina elétrica, rede de água e esgoto) e os primeiros hotéis e cassinos. Faliu e suicidou-se. Depois vieram outros e mais outros, até que Vegas se tornasse o que é hoje, sem um centavo do governo, que hoje fatura arrecadando impostos.
Agora que está para ser decidida a abertura de cassinos no Brasil, gostaria de dar um pitaco. A questão é polêmica. Dirão até que será mais uma possibilidade para lavarem dinheiro. Estão menosprezando a capacidade de um dos poucos órgãos eficazes do governo: a Receita Federal. Quem fiscaliza com tanta competência o imposto de renda de milhões de brasileiros não seria capaz de controlar alguns poucos cassinos? E, quando digo poucos, é porque devem ser pouquíssimos mesmo. Que se identifiquem os municípios (cinco, talvez) mais carentes do Brasil, pelos quais ninguém se interessa, onde nada há e tudo falta. A partir daí, que se proponha aos “empresários” do jogo que ali construam o que for necessário, desde a infra-estrutura, para erguer seus cassinos. Se eles são favoráveis ao jogo, que apostem. Se perderem, azar deles. Se ganharem, todos ganharão.

Publicado em Turismo

Osso – um palíndromo duro de roer

30/05/2009 por bonat

“A mala nada na lama”. “Anotaram a data da maratona”. O que têm essas frases em comum? Nada, além de ambas serem palíndromos, quer dizer, lidas da esquerda para a direita ou, ao contrário, da direita para a esquerda, têm o mesmo significado. Há também palavras-palíndromos. Osso é uma delas. Osso nos remete ao cartaz que, dizem, foi afixado na porta do gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro (PP): “quem procura osso é cachorro”. Segundo o noticiário, trata-se de um protesto aos que defendem o resgate dos restos dos militantes que participaram da guerrilha do Araguaia, nos anos setenta.
Alguns parlamentares do PCdoB ficaram irados. Ameaçaram Bolsonaro de entrar com um processo no conselho de ética, aquele que sequer puniu os deputados do mensalão. Mostraram-se incongruentes, pois sempre foram assíduos frequentadores de Cuba. Chegaram mesmo a prestar subservientes homenagens a Fidel, este sim um grande produtor de ossadas. Sabem até que cadáveres, cubanos ou não, nunca foram motivo para que El Comandante tivesse qualquer sentimento de culpa. Serviram apenas para que se garantisse no poder e exportasse sua revolución. Seu produto de exportação levou à morte jovens brasileiros e de outros países da América do Sul e da África. O certo é que assassinatos nunca pesaram na consciência dos irmãos Castro e nem na de outro ditador de quem o Brasil está agora se aproximando. Seu regime acaba de afrontar a ONU com mais um teste nuclear. Abrir uma embaixada brasileira em Piongyang significa apoiar a escalada belicosa de Kim Jong II, que, para manter-se no poder, ocasionou a morte de nada menos do que dois milhões de norte-coreanos.
Em Cuba e na República Democrática Popular da Coreia, produzir ossos tem sido parte de uma rotina de governo. No Brasil não. Mesmo assim, o governo que o PCdoB hoje integra faz questão de se aproximar de seus impiedosos títeres. Considera-os seres mais próximos de deus do que do diabo. Por isso, acha que lhes deve pagar o dízimo. Entretanto, bastaria consultar a história para se aperceber da falsidade que há em seus ares angelicais.
Acreditar que, por terem envelhecido, tornaram-se anjos seria tão ingênuo quanto aceitar os argumentos dos senadores José Sarney (PMDB), João Pedro (PT), Cícero Lucena (PSDB) e Gilberto Gollner (DEM) por terem recebido indevidamente quase quatro mil Reais por mês a título de auxílio moradia. Por que o PCdoB não entra com um processo contra eles? Seria aplaudidíssimo. Mas duvido que o faça. Seria mais fácil outro palíndromo – o ovo – parar em pé. Político não é bobo. Não atira no próprio pé. Nem na galinha dos ovos de ouro.

Os guardiões do saber

15/05/2009 por bonat

Estudante de qualquer idade vira criança. Mesmo os militares, via de regra sisudos, tornam-se brincalhões quando estão na condição de estudante. Nem os alunos (cujos postos vão de major a coronel) da Escola de Estado-Maior do Exército escapam. Eles deram o pomposo apelido de “guardiões do saber” às duas estátuas de bronze que representam sentinelas à entrada da escola, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Até aí, nada de mais. A ironia fica por conta da dúvida que deixaram no ar: “aquelas sentinelas estão lá para não deixar o saber sair ou não deixar o saber entrar”?  Estou quase certo que você não achou graça. Piadas metidas a intelectuais são assim mesmo. É preciso estar de bom humor para rir. Perdoe-me, pois como ando com o humor em alta, penso que todos também estejam, o que é impossível.

A culpa é do meu velho Colégio Militar de Curitiba (CMC). Nos últimos trinta dias ele esteve na mente dos que, como eu, foram seus alunos. Em 21 de abril, comemorou cinquenta anos. Foi expressiva a presença de ex-alunos, em particular os da pioneira turma de 1959. Todos já sessentões, pareciam adolescentes ao se reencontrar, comprovando o poder de rejuvenescimento da escola. Fomos presenteados com uma cópia do nosso boletim escolar. A minha, por enquanto, ficará escondida na última gaveta da escrivaninha. Pretendo mostrá-la aos meus netos, mas só quando tiver explicações convincentes para algumas notas.

Em continuidade ao “mês CMC”, e para nosso orgulho, soubemos do seu êxito no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e na quarta Olimpíada Brasileira de Matemática.  Por fim, na terça-feira passada, assisti a uma palestra da professora Cláudia Regina Kawka Martins, por acaso do Colégio Militar. Ela nos presenteou, no Instituto Histórico e Geográfico, com uma excelente aula sobre a história dos sofridos imigrantes poloneses.

Antes de escrever este texto, pedi ao Comandante, Coronel Quintino, que revelasse qual o segredo do CMC. De tudo o que falou, eu resumiria dizendo que lá se busca a educação integral, pois, além dos aspectos cognitivos (ligados ao conhecimento), trabalha-se os psicomotores (ligados às habilidades físicas) e os afetivos (ligados a valores). Além disso, o Colégio dá atenção especial à motivação, à liderança e à autoconfiança dos seus alunos e investe na qualificação dos professores.

O CMC não possui em sua entrada estátuas representando sentinelas. Mesmo se lá estivessem, os “guardiões do saber” deixariam o caminho livre, pois não há sentinela que consiga impedir a passagem do patrimônio chamado “saber”. Parece que estudantes são normalmente bem-humorados porque têm consciência de que estão adquirindo um capital que ninguém poderá lhes tirar – o conhecimento. É mais uma razão para o sucesso do nosso Colégio cinquentão. A outra é o seu corpo docente, dedicado, preparado e exigente. Aí está – professores exigentes – um bom argumento a empregar quando for mostrar o meu boletim escolar aos netos.

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Publicado em Segurança Nacional

Basta de assalto a quartéis

09/05/2009 por bonat

É muito fácil entrar num quartel. Só quem tem alguma dificuldade são os generais. A guarda, para mostrar serviço, inspeciona a viatura, pede a identidade do motorista e só não manda Sua Excelência descer do carro porque tem medo de parar no xadrez. Intramuros, costumamos dizer que o caminhão da Coca-Cola passa sem parar pela guarda, enquanto a viatura de nosotros, os generais, é submetida a rigorosa revista. Verdade ou não, a brincadeira revela o quanto é amador o nosso aparato de defesa, cada vez mais vulnerável desde que, há muito tempo, priorizamos a “mão amiga” em detrimento do “braço forte”.

Tememos a Justiça. Temos pavor do que dirá a imprensa. Vivemos preocupados com nossa carreira. Por isso, enfraquecemos. Por isso, assaltam banco em área militar (não é de hoje). Por isso, roubam nossas armas (não é de hoje). Por isso, ficamos calados quando dizem na nossa cara que fomos e  continuamos sendo torturadores (não é de hoje). Por isso, traficantes ameaçam soldados que estão auxiliando comunidades pobres nas favelas (não é de hoje). Por isso, ONGs estrangeiras não nos deixam entrar em reservas indígenas que elas controlam e exploram (não é de hoje).

Já é passado o tempo de dar um basta! Já passou da hora de deixarmos a covardia de lado. Chega de assaltarem banco em área militar, de bandido entrar em quartel e dele sair carregado de pistolas e fuzis. Entrar ele até pode, porque a “mão amiga” facilita. Sair impunemente, não, porque aí o “braço forte” tem que deixar de ser apenas um slogan para tornar-se a realidade que todos os brasileiros esperam, até mesmo alguns integrantes da imprensa e da justiça, que passaram parte de sua vida sendo doutrinados para usar sua caneta como arma contra os soldados. Senão, o “braço forte, mão amiga” será apenas uma peça publicitária a mais entre tantas que poluem nossas mentes nestes tempos em que as palavras nada mais são do que parte de um jogo de mentirinha e enganação, tempos de muita prosa e pouco serviço, onde o “falar” tornou-se mais importante do que o “fazer”.

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Publicado em Segurança Nacional

8 de Maio de 1945 – vitória de quem?

07/05/2009 por bonat

A história do mundo poderia ser descrita como uma sucessão de guerras. Um longo período de paz depende do resultado da guerra anterior e da imposição desse resultado. Os 99 anos relativamente pacíficos entre a derrota de Napoleão e o início da 1ª Guerra Mundial haviam gerado otimismo na Europa quanto às decisões que seriam tomadas na Conferência de Versalhes. Porém, a presença de um forte desejo de vingança representou um choque para aquele otimismo. Infelizmente, não se conseguiu chegar a um bom acordo. Além do mais, durante a Guerra, a Europa tivera que tomar dinheiro emprestado. Os Estados Unidos haviam se tornado os financistas do esforço bélico e seu poderio econômico viria a ser uma das causas da depressão mundial. O desastre das ações de Wall Street, em 1929, fez disparar o desemprego, que em 1932 excederia os 30% em algumas nações. A depressão sem precedentes foi o empurrão de que o comunismo e o fascismo precisavam, levando à 2ª Guerra Mundial, que, na verdade, foi a continuação da mal-acabada Guerra de 1914/18.

Hitler, na Alemanha, e Stalin, na Rússia, moldaram o conflito que estava por vir. Quando a guerra iniciou, eram aliados. Hitler aproveitara o sentimento que permeava entre os alemães de que sua nação havia sido injustiçada em Versalhes. Era uma pessoa mal preparada, que não gostava de administração nem de trabalho. Antes de chegar ao poder, seu cargo mais elevado tinha sido o de cabo do exército. Mais a Leste, o governante russo, que substituíra Lênin em 1924 e começara a eliminar seus rivais pessoais ou imaginários, acreditava que o comunismo morreria, que ele mesmo morreria, a não ser que agisse sem piedade. Seu estado policial costumava ordenar a morte de seus concidadãos em grande escala.

Hitler (austríaco) e Stalin (georgiano) tinham muito em comum, incluindo o fato de serem forasteiros. Ambos cultivavam uma aptidão para contar mentiras ao seu povo e ao mundo. Foram os marechais da propaganda, numa época em que novas tecnologias (rádio e cinema) ajudavam a difundir suas ideias. Os dois sonhavam expandir o domínio territorial de suas nações e, logicamente, o seu próprio poder.

Quando Hitler começou a rearmar-se, a Liga das Nações se encontrava fragilizada. Em março de 1936, ocupou o Vale do Reno. Teria batido em retirada, se França e Inglaterra tivessem agido imediatamente. A partir de então, página por página, rasgou o Tratado de Paz de Versalhes, até invadir, em 1939, com o apoio de Stalin, a Polônia, dando início à guerra cujo término se daria somente em 8 de maio de 1945, consagrado como o Dia da Vitória.Vitória de quem? No curto prazo, dos Aliados. No médio e longo tempo, entretanto, quem acabou vencendo foi o povo alemão que, livre de Hitler e dos Nacionais Socialistas, passou a viver sob um Estado Democrático e tornou sua nação a mais próspera da Europa. Derrotado mesmo foi o povo russo, que continuaria sob o regime totalitário de Stalin e seus sucessores até a chegada de Mikhail Gorbachev e sua Perestroika, tarde demais para aqueles que já haviam morrido em trabalhos forçados na Sibéria.

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O Cara e a Coroa

14/04/2009 por bonat

Castelo de Windsor, bom dia.
Bom dia, mamãe. Sou eu, seu filho mais velho.
Qual o problema, para você ligar tão cedo num sábado?
Nada urgente. Só queria voltar a falar sobre a foto. Lembra? A foto da reunião do G20.
Filhinho querido. Cá entre nós, quando você trocou Diana por Camilla, pensei que não me daria mais aborrecimento. Agora você quer que eu pose ao lado dele? Assim não dá!
Mas, mãezinha, trata-se apenas de uma foto. Não vai durar nada. Poucos segundos e pronto. Não vai doer, posso garantir.
Com tanta gente importante e perfumada, você quer que eu saia ao lado de quem falou mal dos brancos de olhos claros?
Ora, mamãe, ele estava falando dos banqueiros americanos e não de nós, pobres integrantes da realeza. Até porque, Diana é quem tinha olhos claros, não nós. Ou não?
Teu argumento terá que ser muito convincente.
Está bem. Vou contar, porque a culpa é mesmo sua. Por obrigar-me a estudar, descobri que quando protegemos de Napoleão a família real portuguesa em sua fuga para o Brasil, encontramos uma gente frágil, subornável e para a qual Pátria não representa valor pelo qual se deva sacrificar. A partir dessa constatação, tenho usado a mesada que a senhora me dá para financiar ONGs inglesas que atuam na Amazônia e para subornar autoridades brasileiras. Desde o governo Collor faço isso. Não lhe contei antes para não aborrecê-la. Mas papai, que não faz nada, sabe de tudo. Ele sabe até que estive no Brasil na semana em que o STF votou o caso da Raposa Serra do Sol, a fim de dar uma pressãozinha na turma. Tive inclusive que, ridiculamente, sambar. Mas deu certo. O futuro do nosso Reino e a mordomia da nossa família estão garantidos por mais alguns séculos. Agora é preciso demonstrar o nosso reconhecimento aos brasileiros por nos terem entregue uma das províncias minerais mais ricas do mundo. É fundamental que Mr Presidente saia bem na foto. Você nem imagina a repercussão que isso terá no Brasil.
Barack não ficará chateado?
Já conversei com ele. Temos uma estratégia. Durante um dos intervalos da reunião, na frente de todos e, principalmente, da imprensa, ele revelará quem é o “cara”. Não esqueça de que os americanos são extremamente profissionais. Aí, estará fechado o circuito. Para completar, mandarei um agradinho para Brasília: uma caixa do nosso melhor scotch. A senhora sabe que, embora tenha cara de bobo, sou muito esperto (só bobeei no caso de Diana).
Sugiro que mamita faça uma pesquisa no google a fim de saber o que representa o nióbio e onde se encontram suas maiores reservas. Verá que estou cheio de razão.
Ok, filhinho querido. Tudo pela Coroa. Mas, por favor, nunca mais peça nada parecido. Já estou velha demais para tanto sacrifício.
P.S.: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas e instituições reais terá sido mera coincidência. Ou não?

Publicado em Internacional, Política

Bombas, Bombinhas e Bombinenses

31/03/2009 por bonat

Buenas tardes, saúda-me a funcionária da lan house onde vou todos os dias ler meus e-mails. Não pense que estou no exterior. Encontro-me em Bombinhas, brasileiríssima, graças a Deus e às famílias de açorianos mandados para esta região no início dos anos 1700 a fim de garantir sua posse para a Coroa Portuguesa. Como há muitos turistas argentinos, é comum o uso do castelhano pelo comércio local para receber os clientes.
Na contramão do nosso tradicional preconceito em relação aos hermanos, quero elogiar seu bom-gosto na escolha deste maravilhoso recanto para passar as vacaciones. Cheguei a perguntar a alguns se a presença de tantos conterrâneos seus se devia à propaganda veiculada nos meios de comunicação do seu país. Disseram que não. O que houve realmente foi um marketing boca-a-boca, reconhecido como a ação promocional mais eficiente e de menor custo que existe. Sua força está no fato de ser realizado por consumidores verdadeiramente satisfeitos e dispostos a recomendar um produto que superou as mais altas expectativas. Ao que parece, os precursores argentinos espalharam que aqui se podia andar despreocupado com bolsa, carteira, relógio e celular. Que não encontraram flanelinhas, guardadores de carro e pedintes de todo tipo, que incomodam qualquer cidadão, especialmente os estrangeiros que visitam nossas cidades. Que não se tentava obrigar ninguém a comprar uma fita do Senhor do Bonfim. Que não se pretendia arrancar todo o dinheiro que alguém estivesse carregando. Por isso, tornou-se desnecessário gastar fortunas em campanhas publicitárias para que turistas disputassem à tapa uma vaga nas pousadas de Bombinhas.
Aqui você sente-se seguro. Quase não vê polícia. Nem parece que está no Brasil. Disse isso ao Marinho, o simpático proprietário da imobiliária que fica no térreo do prédio onde estou hospedado. Como bombinense da cepa, ele não gostou. Não me aborreci. A gente não se aborrece facilmente quando está nesta península que invade o Atlântico formando belas enseadas, cuja areia rigorosamente branca é banhada por um mar azul-brilhante. Aliás, o Marinho desenvolve há três anos um projeto que visa à conscientização no sentido de preservar a areia impecavelmente limpa. Parece que está dando certo. Entretanto não se pode abrir a guarda, pois nós, humanos, somos sabidamente poluidores.
Tempos atrás, quando alguém afirmava que Santa Catarina pouco se parecia com o Brasil, catarinenses como o Marinho ficavam revoltados. Hoje, infelizmente, essa afirmação chega a ser quase um elogio. Bom seria se o Brasil conseguisse copiar o comportamento dos bombinenses. É provável que outros “brasis” não precisassem gastar tanto com publicidade, que às vezes soa enganosa. No entanto, dizer que não há problemas em Bombinhas seria leviano. Ontem mesmo, uma abelha picou meu neto de quatro anos. Praia não é lugar de abelha. Abelhas nasceram para trabalhar. E, para aguçar a inveja de quem, mesmo não sendo abelha, tem que pegar no batente, comunico que agora vou à praia, à praia mais linda do mundo. Hasta la vista.

Publicado em Turismo

31 de março – ditabranda é que não foi

19/03/2009 por bonat

 

Nos tempos em que havia um general na presidência, a Folha de São Paulo era uma crítica impiedosa dos militares, pelo que recebia os aplausos da esquerda. Dias atrás, com a mesma (ou quem sabe maior) coragem com que no passado criticava o governo, afirmou em editorial que o período de exceção por que passamos não se compara ao dos nossos vizinhos que falam castelhano. Ao declarar que tivemos uma ditabranda e não uma ditadura, acabou por provocar a ira da esquerda que, em seu permanente patrulhamento, lotou a caixa de e-mails do jornal com mensagens desaforadas.

Ignoro os argumentos usados pelos leitores. Os que não viveram naquela época, provavelmente repetiram, até de boa-fé, ideias que lhes foram transmitidas nos bancos escolares, como a de que, nos “anos de chumbo”, ninguém podia sair à rua sem ser vigiado por uma multidão de milicos armados e mal-encarados, prontos para baixar o cassete em quem bem entendessem. Contaram-lhes que não se podia criticar o governo, sob pena de ser censurado e preso (a Folha era exceção ou apenas corajosa?). Os demais leitores, estes de má-fé porque viveram naquele tempo, devem ter repetido as mentiras sob as quais se sustentam há anos, fazendo crer que, por lutar pela democracia, “milhares” foram torturados e mortos. Como “prova”, poderiam apresentar a longa lista de beneficiados pela bolsa-ditadura gentilmente distribuída pelo governo. Dá para desconfiar que muitos dos que se indignaram com o diário paulistano já recebam a dita bolsa e outros estejam em vias de. Obviamente que, para não perder a “boquinha”, apressaram-se em criticar o jornal, pois é fundamental continuar valorizando seu “passado de paladinos da democracia”. É admirável como se muda a versão da história!

Há coisas, porém, que não mudam. Um soldado respeitar pessoas que lutam por um ideal, mesmo sendo contrário ao dele, é uma delas. Entre os anos sessenta e oitenta, morreram idealistas de ambos os lados. Pouco, mas morreram. O excessivo número de beneficiados pela bolsa-ditadura representa um desrespeito aos que perderam a vida por um ideal, vidas cujas memórias são igualmente desprezadas por comportamentos antiéticos, a nova mania nacional. Com tristeza, temos ouvido exageros sobre nosso passado recente. Aborrecidos, temos assistido a classe política, com raras exceções, usar o dinheiro público como se fosse propriedade sua. Surpresos, tomamos conhecimento da existência de centenas de diretores no Congresso, pagos por contribuintes já sufocados por exorbitante carga tributária. Ao mesmo tempo, inquietamo-nos ao ouvir falar de negociatas entre políticos do governo e da oposição, alguns dos quais se autoproclamam perseguidos pela ditadura, o que, se for verdade, nos leva a engrossar o coro dos que discordam da Folha. Somos induzidos a pensar que realmente não houve uma ditabranda, como disse o jornal. Melhor seria classificá-la como “ditamole”.   

 

Publicado em Nacional, Política