Trânsito – quatro cruzes a mais

Na minha infância curitibana, sempre às três da tarde, eu interrompia os estudos. Munido com a lista dos pães que minha mãe e toda a vizinhança precisavam, montava na Monark aro 26, grande demais para um piá de sete anos, e me mandava para a padaria dos Irmãos Burgel, na Avenida Batel.

O trajeto de ida era tranquilo. Havia poucos carros e muita descida. A mais gostosa era a da rua Francisco Rocha, entre o Hospital Militar e a Batel. Desnecessário pedalar. Bastava inclinar o corpo e, vummm, já estava na esquina. No tal cruzamento, na época, havia uma pequena farmácia, um verdureiro, um armazém e um terreno baldio.

Hoje ainda tem a farmácia, agora bem maior. Há também uma casa noturna onde jovens curtem suas baladas e uma revenda de automóveis caros. No outro canto, o supermercado, igualmente careiro, está fechado. Deveria haver, também, quatro cruzes. Deveria, mas não há.

Imagino-me, agora, não mais na minha Monark, mas blindado no interior de uma Pajero, em total segurança graças aos seus freios ABS e a todos os seus airbags. São seis e pouco da manhã. Embalo na mesma descida da Francisco Rocha. Nada vai me acontecer. O carro me protege. Não lembro de ter bebido durante a madrugada. Mas, se bebi, ninguém me obrigará a fazer o teste do bafômetro nem o exame de dosagem alcoólica. Sinto-me um ser superior. A lei está ao meu lado. Acelero os cavalos que estão à minha disposição, pois tenho dinheiro para pagar bons advogados. Sou imune.

Na mesma esquina que tantas vezes me viu voltando com os pães da Burgel, restam quatro pessoas jovens deitadas para sempre. Minha Pajero as matou. Não fui eu. Nem me interessa saber quem morreu. Continuo ileso, livre do bafômetro e do exame de sangue. Não há provas. Meu advogado é brilhante.

Retorno para casa. A subida da Francisco Rocha foi puxada, ainda mais carregando, além dos pães para a minha família, a encomenda de toda a vizinhança.

Difícil foi ter que voltar aos livros. Pior ainda foi não ter escolhido a carreira de advogado. Quem sabe, à custa de uma legislação que beneficia a quem a transgride, eu não tivesse ficado rico. Além do mais, o que representam quatro cruzes a mais? Cruzes que jamais estarão no cruzamento da Batel com a Francisco Rocha. Em cruzamento que é um point, cruz não pega bem.

16 Respostas para “Trânsito – quatro cruzes a mais”

  1. Betty Diz:

    Muito boa e pertinente a sua crônica.
    Quem sabe se todos, fazendo nossa parte, não mudamos alguma coisa.
    Abraços e parabéns!

  2. Felipe T. Smaniotto Diz:

    infelizmente o dinheiro no Brasil ainda consegue favorecer classes mais altas… é lamentavél, o falecimento de quatro inocentes por causa de um filinho de papai, vamos torcer para que a justiça seja feita!!
    Parabéns, pelo seu dom de escrever. Abraço!!

  3. stori Diz:

    Valeu Bonat
    Esta crônica foi uma das melhores que você já escreveu!!!!
    Um abraço
    Stori

  4. Gustavo Rocha da Silva Diz:

    A frase “sou imune” afirma implicitamente “sou impune”.

    Este é o “estado de direito” a que chegamos, o que me remete a George Orwell em “A Revolução dos Bichos”, quando se afirma que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”.

  5. ze Diz:

    Hamilton
    Voce foi brilhante nesse artigo.
    Conseguiu nos tocar,apesar da banalizaçao das tragédias do dia
    a dia,seu texto nos obriga a refletir,e com estilo.
    Brilhante.
    Ze

  6. Jose Reinaldo Vanin Diz:

    Hamilton:

    Enquanto houver impunidade em nossa Pátria, nossa democracia será fraca e nossos políticos mais os amigos e parentes arrogantes e irresponsáveis.

  7. joão carlos aranha Diz:

    Há uns 50 anos atrás, um “jovem” participava de uma balada em um bar em Manaus – Amazonas. Quando constatou que o dinheiro acabara, chamou um taxi e foi à serraria do pai situada nos arredores da cidade. Por ser madrugada, o vigia relutou abrir a fábrica mas, constatando que era o filho do patrão, deixou-o entrar. O rapaz foi revolvendo gavetas e desarrumando todo o escritório a procura de dinheiro. Obstado pelo funcionário, muniu-se de uma barra de ferro e o matou. Ao voltar para o taxi de retôrno, raciocinou que o motorista seria uma testemunha inconveniente e, na altura do bairro Cachoeirinha, pediu para o carro parar pois necessitava fazer uma necessidade fisiológica. Alguns minutos depois, gritou do meio do mato pedindo ao motorista levar algum papel. Ao ser socorrido, abateu o motorista, pegou o carro e voltou para a farra.
    Constatado o crime, a policia foi fechando o cerco até que prendeu o assassino. Sua família rica, logo tentou livrá-lo argumentando insanidade mental, que o internaria em uma PNP por algum tempo e obteria liberdade depois. Quando era transportado para efetuar o exame psiquiátrico,a ambulância foi fechada por TODOS os taxis da cidade, arrancado e levado para local ignorado, onde foi justiciado e estraçalhado após grande castigo.
    Conclusão: TODOS os taxistas se declararam culpados, muitos foram condenados a pernoitar na cadeia mas tiveram liberdade de dia para poderem sustentar suas famílias.
    Nunca mais a cidade teve problemas semelhantes.

  8. Juliana Bonat Diz:

    Belíssimo texto literário!
    O misto de denúncia e memória reflete muito bem o problema do “você sabe com quem está falando?” brasileiro, problema que impede o Brasil de se incluir entre as nações modernas do mundo.
    Saudade.

  9. marcos Diz:

    Vivo isso, exatamente em meu dia a dia; presenciando famílias inteira pagando o preço, chorando lágrimas de sangue, por pessoas irresponsáveis que se beneficia com leis impune do Estado; enquanto não mexer no bolso dos irresponsáveis, depois alienação de seus bens, teremos que conviver com a impunidade e bandidagens que estão tomando conta de nosso Pais. abraços

  10. NIna Marach Carpentieri Diz:

    Mais uma bela crônica Hamilton. Em cada artigo se supera.Muito pertinente e atual.Há que haver uma legislação mais dura, e uma tentativa de concientização, para melhorar alguma coisa.
    Lembro bem desta esquina que você relata.
    Abraços!

  11. Laura Vaz Diz:

    Nossa! Excelente! Ainda aquela fina ironia que, lamentavelmente, os “chiques” não vão entender se, por milagre, lerem sua crônica.

  12. Jorge Diaz Diz:

    Recordado amigo:
    Excelente página ésta que has escrito !Este tipo de “crónica- denúncia” es lo que precisa no solo llegar a mayor parte de los ciudadanos cómo así tambien a los niveles de elaboración y decisión política.Problema que idéntico al de estos pagos,también el tratamiento judicial ( de ingénuo “garantismo” )y , no es coincidencia, tú lo sabes ,el ostentoso desparpajo de esa condición de “inmunidad-impunidad” que exhiben los “chiques” en estas circunstáncias . Eso si, te recuerdo que los abogados estan para defender cómo sea (dentro del derecho ) a sus clientes . JUZGAR sí, cabe al juez. No puede ser de otra manera. Felicitaciones una vez mas !

  13. Veronica Diz:

    É lamentável que vivamos no país da IMPUNIDADE. Enquanto isso não for mudado quantas cruzes ainda irão existir? Parabéns pelo artigo, abraços

  14. Roselene Diz:

    oi Hamilton
    É duro ter de bater de frente com nosa realidade….
    No nosso Brasil varonil,nada de punições p/ quem tem ” money “.
    Eles podem tudo, até matar quatro de uma vez……..
    Sorry……
    Parabéns por conseguir pegar c/ leveza este assunto tão pesado.
    bjs
    Roselene

  15. geraldo alves Diz:

    Prezado Gen Bonat Execelente a sua crônica muito pertinente e ilustrativa. Parabéns . GERALDO

  16. Luiz Cláudio Mehl Diz:

    O uso irresponsável da “arma” chamado Pagero ou outra marca,descaracteriza a possibilidade de acidente; é crime!
    Parabéns hamilton, a sensibilidade se somou ao estilo.

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