No tempo das aeromoças

A fila é impacientemente lenta. Após dobrar a curva, consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila agora anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, entre tantos, o único merecedor daquela cortesia.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e da carga. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preza não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não esconde certa inveja.

Quando atingimos a altura de cruzeiro, para demonstrar tranquilidade, finjo dormir, e durmo mesmo. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada do céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma escada descendente, em cujo pé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba mostra-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de ir atrás delas… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum aplaudir-se o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, aplaudiríamos nossas aeromoças.

“Tenha um bom dia”. Na porta do avião, ouço pela derradeira vez a voz bem treinada. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito à uma igreja pedir perdão pelos pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba apontará o caminho das belas aeromoças. Será que elas estarão por lá?

8 Respostas para “No tempo das aeromoças”

  1. Pedro Paulo Sanson Diz:

    Fui ao GP Brasil/2009 de fórmula 1.Peguei o avião da Gol em Caxias do Sul com destino a São Paulo.
    Sou azarado mesmo, além de tomar um banho daqueles no Grande Premio, as aeromoças do meu vôo não tinham nada de Barbie. Muito educadas é verdade, mas o que eu queria afinal?
    As mais belas estavam todas no avião do Bonat!
    Espero que São Pedro esteja também me esperando com belas “aeroanjas”.Isso se o amigo não ficar com todas elas.
    Parabéns por mais esta bela crônica, caro General!

  2. Paulo Cesar L Siqueira Diz:

    Querido amigo
    Sua inteligência e perspicácia me dão inveja!!!
    MB gordo!!!!!
    Paulo Cesar

  3. Tercio Diz:

    Bonat.
    é uma simples viagem de avião, mas narrada por ti vira uma interessante história a nos entreter.
    Minha admiração pelo cronista só aumenta a cada leitura.
    Um grande abraço,
    Tercio

  4. JOSELITO MARQUES Diz:

    Dei belas gargalhadas com a história do ” ex-vivente”. Muito bem pensado. Abraços. Joselito.

  5. André Dambros Diz:

    Caro amigo Bonat.

    É uma excelente lembrança, pois trata-se de uma classe de trabalhadoras/es realmente merecedoras de um belo trabalho como este, as barbies que não são de prateleiras também envelhecem e precisam, por força da profissão, contituar causando inveja às veteranas viajantes. Minha filha Andréia agradece tua lembrança pela classe.
    Do amigo.
    André.

  6. Carlos G. TULIO Diz:

    Meu caro amigo Sr. Hamilton,
    Como disse Nelson rodrigues sobre elas: Há, na aeromoça um olhar nostalgico. Reparem como ela vê as coisas com a doçura de um último olhar. Parabens pelo texto!

  7. Albérico Diz:

    Caro amigo Bonat.
    Ao ler sua gostosa crônica me veio a mente uma famosa música do saudoso Dick Farney:

    Aeromoça

    “Lá vem ela num sorriso lindo, lindo
    perguntar o que eu preciso
    como vou indo
    Serve o lanche e ainda pergunta
    se estou satisfeito
    eu estou mas quero tudo
    que tenho direito
    Tanta graça, tanta arte
    isto é miragem
    pena que não faça parte
    da passagem
    Com essa flor a bordo
    eu concordo, então,
    que é bobagem medo de avião
    que é bobagem medo de avião”

    Abraços.
    Albérico

  8. Nina Diz:

    Mais uma bela crônica. Ao lermos, temos a impressão que participamos desta viagem…
    Está surgindo a edição do proximo livro.
    Abraços á você e Norma.

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