Escreva um livro e saiba quem é seu amigo

Pense numa noite fria e chuvosa. Não numa chuvinha qualquer, mas num aguaceiro de molhar até a alma. Pois asseguro-lhe que era muito pior a situação em 10 de setembro último em Caxias do Sul.
O lançamento do meu livro de crônicas estava marcado para as sete. Se eu fosse uma celebridade, literária ou não, o que definitivamente não sou, toda a cidade estaria lá. Deduzi que São Pedro já estava antecipando o meu fracasso editorial, numa noite em que qualquer um pagaria para não sair de casa.

Cheguei meia hora antes para conferir os últimos detalhes. Ao entrar no salão, tive uma surpresa. Aguardava-me um homem com seus oitenta e poucos anos. Lá estava o senhor Finimundi, com sua bengala e seu sorriso largo. Quando ele disse que gostaria de ser o primeiro a receber o meu autógrafo, senti-me o próprio Rubem Braga, para mim o maior cronista brasileiro.

Meu pensamento voltou até a manhã de um dia qualquer de 1995. Semanas antes, eu havia assumido o comando do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea. Na porta do meu gabinete, o oficial de relações públicas solicitava para entrar. Estava acompanhado de um senhor que portava um embrulho. Após acomodar-se na poltrona, ele falou, meio sem jeito, que o quartel estava precisando de uma corneta nova. A atual está muito velha e amassada, disse-me; tem até um remendo com durepoxi. Perguntou-me se eu aceitaria uma de presente. Aí, quem ficou sem jeito fui eu, pois cabia ao Exército atender às necessidades da Unidade.

Já naquele tempo as vacas andavam magras. Depois, foi só piorando. Hoje, por falta de comida, os soldados, normalmente de famílias humildes, têm que almoçar em casa. Uma aberração, se levarmos em conta os anunciados bilhões de dólares que o governo usará para gerar empregos na França e alavancar a sua combalida indústria naval e aeronáutica.

Mas retornemos ao meu ex-gabinete. Aceitei a doação. Mandei chamar o corneteiro. Assim que ele entrou, o senhor – o mesmo que há pouco tempo fez-me sentir o Rubem Braga reencarnado – entregou-lhe o embrulho. E lá se foi o corneteiro Daniel Pedro, faceiro como uma criança que acaba de ganhar uma bicicleta novinha em folha.

O frio e a chuva do último dia dez, para a minha alegria, não impediram que mais de uma centena de amigos fossem me prestigiar. Na verdade, publicar um livro é uma louca aventura. Vale pelo prazer que nos dá em deixar registradas as verdades em que acreditamos. Além disso, permite saber quem são os verdadeiros amigos. Em Caxias do Sul, eles estavam lá. Impossível nominá-los na pequenez deste espaço. Creio que compreenderão. Como antiguidade continua sendo posto, cito apenas Carlos Cândido Finimundi, mas com o pensamento voltado para todos os demais corajosos heróis que foram me abraçar.

Se você, caro leitor, é um desconhecido como eu e quer saber quem é seu amigo de verdade, escreva um livro. Você nem imagina quantas emoções terá!

20 Respostas para “Escreva um livro e saiba quem é seu amigo”

  1. Carlos Gama Diz:

    Excelente!

    É emocionante saber de gente assim. Não só dos amigos, mas desta figura ímpar, que parece estar presente, logo que o senhor chega ao lugar ou até antes, como aconteceu desta feita.
    Presenças de amigos são sempre presentes. Presentes dos mais valiosos.

  2. Lúcio Saretta Diz:

    Muito legal!
    Também já li que escrever um livro é como deixar uma mensagem dentro de uma garrafa e jogar no mar, nunca se sabe se alguém vai ler.
    Parabéns!

  3. Robson Diz:

    Caxias, Sr Carlos Finimundi, Pedro… Perdemos alguns Pracinhas, foram chamados a servir num plano mais elevado. O Pedro era presença obrigatória na despedida. Seu toque de silêncio era perfeito. Na despedida do Guerra, elogiei o Pedro, o toque havia me comovido. Tentando descontrair perguntei se ele tocaria na minha despedida. O Pedro se adiantou sem vacilar, em alto e bom som: “SOU VOLUNTÁRIO CORONEL !” Queria tocar na minha despedida !!! Obrigado pelas lembranças da querida Caxias General.

  4. Vitor Mario Scipioni Chiesa Diz:

    Também estive lá. Não fui dos primeiros a abraçá-lo porque, como coordenador do XX CEPE da ADESG em adamento, estava na sala Castello Branco, mas no intervalo lá fui com o Zanchi… Realmente, Finimundi é ímpar! Dia 7 último completou seus 88 anos!!! Hoje estava lá na sala novamente. É um assíduo frequentador, sempre que tem ciclos ou semanas de atualização… Já estou quase na metade de suas crônicas, sempre interessantes. O CEPE e minhas atividades normais tomam meutempo.Bem… Terminei minhas tarefas do dia, inclusive a correspondência eletrônica está em ordem. Forte abraço! Vitor.

  5. Luiz Carlos Santos Diz:

    Prezado Gen Bonat,
    Para mim foi uma honra ter estado no seu lançamento de seu livro e ter podido dar minha singela contribuição. O senhor e sua digníssima família jamais poderiam ser esquecidos em minha vida. Quando estive com problemas familiares estava lá o Sr e sua esposa para me apoiar.
    General mais uma vez parabéns pela sua obra. Conte sempre comigo.
    Seu velho Soldado
    Santos (Luiz)

  6. Carlos G. TULIO Diz:

    Meu caro amigo Sr. Bonat,

    Antecipando as suas emoções, garanto que esta sensação perdurará por muito tempo.
    Passado bom tempo da realização do meu sonho, ainda recebo elogios, cumprimentos e, vez em quando, a cobrança do próximo livro.

    Ao contrário dos costumeiros parabéns… o que tenho a dizer é: “Eu tinha certeza desse sucesso!”

    Forte Abraço

    Tulio

  7. Gonzaga Diz:

    Olá meu amigo Hamilton !!
    Congratulações pelo livro.
    Tive ,também, a ousadia de escrever um livro – de memórias.Entretanto, como convinha, limitei-o ao consumo familiar e aos mais próximos aqui da terrinha.
    Mesmo assim foi uma experiência divertida e por vezes gratificante.
    Tenho lido todas as crônicas que você postou na net e aprecio seu estilo claro e objetivo (típico de Artilheiro )
    Tenho a convicção que seu empreendimento lhe trará boas recompensas.
    Renovado abraço !!
    LAG ( Cad 830 )

  8. Luiz Cláudio Mehl Diz:

    Resgatar, repassar e construir valores são algumas das funções do livro escrito. Você as utiliza com maestria, Hamilton.

  9. Ronaldo Brito Diz:

    Grande Bonat
    Ser amigo é passear em Curitiba, quando do lançamento do livro de um amigo. No feriadão de outubro, em Brasília, mais lançamentos, aguardâmo-lo.
    Não esqueça que o Gustavo casa no dia 31 de outubro. O convite segue esta semana.
    Fraterno abraço, Britão

  10. Fernando Freire Diz:

    Belas palavras, meu caro General, belas palavras. Crônica oportuna, em tempos de incertezas ou de certezas como a de que nada aconteceu antes na história deste país. Mas, enfim, parabéns pelo livro e por tudo o mais. Um abraço forte e amigo.

  11. araken Diz:

    ESTOU AQUI EM JOÃO PESSOA NO GRUPAMENTO DE ENGENHARIA….
    VIM VISITAR MINHA FILHA, QUE MORA AQUI…
    POR AQUI ESTÁ FALTANDO …..DOADORES DE CORNETA…E,…”BONAT RUBENS BRAGA” LANÇANDO LIVROS……
    E A ALEGRIA DE VER UM ANTIGO COMPANHEIRO LANÇANDO UM LIVRO É MUITO ESPECIAL!!!!
    BOA SORTE E…PARABENS….
    E A CHUVA???
    QUANDO O CARA É BOM , NÃO TEM CHUVA QE ATRAPALHE….
    ABRAÇO DO,
    ARAKEN.

  12. Paulo Cesar L Siqueira Diz:

    Amigo Bonat
    Até eu estaria em Caxias do Sul se não estivesse chovendo tanto aqui em Santos!!!!!!!!RSRS
    Claro que seus amigos não deixariam de ir!Você os conquistou a todos!
    Só mesmo uma distância como a que estou me impediu de participar.
    Não vai lançar o livro aqui em Costa da Mata Atlântica??
    Se for estarei lá!!
    Fraternal abraço.
    Paulo Cesar

  13. Renato Silva e Silva Diz:

    Prezado Bonat
    Após mais de 45 anos viemos a nos encontrar ao menos virtualmente em razão do milagre da Web. Mais que isso descobrimos um amigo comum , o Brito, que já deixou a mensagem dele logo acima, além de outros que temos pelas raizes comuns no CM.
    Li sua cronica acima e espero ansioso receber o seu livro lançado recentemente, já adquirido na Livraria Virtual.
    Acho realmente que amigos devem realmente apoiar esta arte, a qual invejo naqueles que sabem habilmente lidar com as palavras.
    Tenho um colega de IME que após se aposentar tornou-se escritor de contos e até já publicou um ligvro de estórias infantis. Torço para que a cada ano . quandoo celebramos mais um aniversário de formatura, ele surja com mais um lançamento. Este ano, já sei que teremos um encontro de autógrafos. Ele recebeu “menção honrosa” na recente Feira ÇLiterária em Parati. Já escreveu quatro livros (li todos), aos quais compareci aos lançamentos com direitos a autógrafos. Seu nome João Paulo Vaz. Certamente que espero que voces se encontrem um dia de fardão na ABL. Quem sabe?
    Um forte abraço e sucesso continuado.
    Renato

  14. Juliana Bonat Diz:

    Nada mais recompensador do que lançar um livro entre amigos. Algo pode ser melhor do que poder registrar suas próprias idéias e dividi-las com aqueles que sempre te admiraram e apoiaram? Parabéns! Estou muito orgulhosa!

  15. Salazar Diz:

    Mau caro BONAT!
    Tu és uma pessoa muito especial!Parabéns pelo teu livro!
    Já plantastes uma árvore?
    Abração
    Salazar

  16. Tercio T. Azambuja Diz:

    Prezado Bonat,
    Ainda não li o teu livro (nem se quer pude comprá-lo). No entanto, tenho lido os os comentários a respeito da obra e sobre a cerimônia do seu lançamento.
    Isto tem sido extremamente agradável e motivador,aumentando o meu interesse e curiosidade em relação aos textos editados.
    A tua realização como autor das crônicas (agora disponíveis aos amantes da boa leitura), acrescida da satisfação de encontrar, apesar do tempo desfavorável, vários amigos presentes ao evento de lançamento, representa um justo prêmio à tua capacidade de conquistar as pessoas e de saber transmitir histórias, recordações e emoções por meio desta mágica criação do homem: o livro.
    Não nego minha inveja dos que puderam te prestigiar com a presença e a aquisição do livro autografado.
    Um grande abraço e votos de continuados sucessos,
    Tercio

  17. Afonso Pires Faria Diz:

    Pois é general, com toda aquela chuva, eu estava lá, e pude comprovar a presença de nosso fiel adesguiano Sr. Finimundi. Adquiri seu livro e estou lendo-o aos poucos.
    Saudações
    Afonso.

  18. bonat Diz:

    meu grande amigo
    tu estás virando ‘FERA ‘
    O QUE NOS DEIXA MUITO FELIZ….
    ROSELENE

  19. GERALDO A. LIMA Diz:

    Prezado Gen Bonat,
    Fiquei muito contente em saber do lançamento do seu excelente livro de crônicas na cidade de Caxias do Sul.
    Sucessos continuados.Um abração em D. Norma e seus filhos que, sem duvida, estão muito orgulhosos.

    Parabéns.
    Geraldo Alves

  20. Regilsa Diz:

    Caro Bonat, parabéns pelo Livro!!! Vc escreve com sentimento de forma leve e alegre, mas com os pés fincados na realidade! Leitura prazerosa! Recomendo a todos!
    Abç
    Regilsa

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