Cazuza, um baita chão!

“Ao sair da minha Cazuza, como despedida, visualizei meu horizonte. Mal e mal ultrapassava a altura da cerca da mangueira. Era pequeno o meu mundo”. Com essa frase, Luiz Carlos de Lucena iniciou o agradecimento ao receber o título de Cidadão Caxiense. Cazuza Ferreira, onde nasceu, é o 3º Distrito de São Francisco de Paula, um amontoado de casas, onde, segundo o próprio homenageado, no cemitério “mora” mais gente do que na própria vila. E acrescenta: ele é tão bem cuidado que virou atração turística. Lucena sempre foi um homem da comunicação – de jornal, rádio e televisão. Dizem que, quando está inspirado (e está sempre), discorre sobre qualquer assunto, com seu linguajar gaúcho marcante. Na verdade, trata-se de um vitorioso.
Ele tem consciência de que seu êxito não se deve tão-somente à sua vocação, inteligência, esforço e à ajuda de amigos. Sabe que a origem de tudo foi a pequena Cazuza. Veja o que escreveu no livro de causos (Onde amarrei o meu peixe) com que me presenteou: “O Brasil é uma ponchada de terra que cerca Cazuza Ferreira”. E, ainda: “Transporto-me para os Campos de Cima da Serra. Vislumbro os corredores que serpenteiam as coxilhas com suas laterais emolduradas pelos verdes claros campos, tendo como acompanhantes os verdes exclusivos das araucárias”. Nas entrelinhas dos divertidos causos, que narra com a mesma verve e bom-humor com que fala, consegue-se sentir o reconhecimento pelos exemplos recebidos da família, da professorinha, do pároco e, até, do dono do bolicho do pago onde viveu parte da infância.
Passei um bom tempo da minha existência em Caxias do Sul. Fiz amizades. Sempre que posso, vou revê-las. Além de matar a saudade, uns poucos dias no Sul têm o poder de revigorar meu espírito de brasilidade. Desculpem-me os conterrâneos paranaenses e os brasileiros de outros rincões, mas nenhum de nós possui, mais do que o gaúcho, um apego tão forte e sincero a esta grande extensão de terra chamada Brasil. No máximo, ele poderá ser igual.
Em minha última viagem à Serra Gaúcha, reencontrei alguns amigos, uns “pelo duro”, outros “cola fina”. O Lucena se auto-classifica como pertencente ao primeiro grupo, mas nem sempre ele está falando sério. Existem milhares de “Lucenas” espalhados pelo Brasil afora. Ainda bem, pois, saídos de suas diminutas “Cazuzas”, levam na guaiaca um tesouro: o sentimento nativista que receberam quando guri. Carregam, por toda a vida, lições de brasilidade daqueles que, possivelmente, façam o cemitério de sua querência ser hoje mais habitado do que a própria vila. Mais habitado e, em sinal de gratidão, muito bem cuidado.

Uma Resposta para “Cazuza, um baita chão!”

  1. Volmir Bertelli Diz:

    Um abraço Apertado ao caro Gen. Meu ex-cmt aqui no 3º GAAAe. É com grande satisfação que li alguns de seus artigos e compartilho com a síntese que eles trazem em sua essência. Forte abraço ao digníssimo amigo e sua esposa. 3º Sgt QE Bertelli – NPOR 3ºGAAAe Caxias do Sul RS.

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