Os guardiões do saber

Estudante de qualquer idade vira criança. Mesmo os militares, via de regra sisudos, tornam-se brincalhões quando estão na condição de estudante. Nem os alunos (cujos postos vão de major a coronel) da Escola de Estado-Maior do Exército escapam. Eles deram o pomposo apelido de “guardiões do saber” às duas estátuas de bronze que representam sentinelas à entrada da escola, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Até aí, nada de mais. A ironia fica por conta da dúvida que deixaram no ar: “aquelas sentinelas estão lá para não deixar o saber sair ou não deixar o saber entrar”?  Estou quase certo que você não achou graça. Piadas metidas a intelectuais são assim mesmo. É preciso estar de bom humor para rir. Perdoe-me, pois como ando com o humor em alta, penso que todos também estejam, o que é impossível.

A culpa é do meu velho Colégio Militar de Curitiba (CMC). Nos últimos trinta dias ele esteve na mente dos que, como eu, foram seus alunos. Em 21 de abril, comemorou cinquenta anos. Foi expressiva a presença de ex-alunos, em particular os da pioneira turma de 1959. Todos já sessentões, pareciam adolescentes ao se reencontrar, comprovando o poder de rejuvenescimento da escola. Fomos presenteados com uma cópia do nosso boletim escolar. A minha, por enquanto, ficará escondida na última gaveta da escrivaninha. Pretendo mostrá-la aos meus netos, mas só quando tiver explicações convincentes para algumas notas.

Em continuidade ao “mês CMC”, e para nosso orgulho, soubemos do seu êxito no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e na quarta Olimpíada Brasileira de Matemática.  Por fim, na terça-feira passada, assisti a uma palestra da professora Cláudia Regina Kawka Martins, por acaso do Colégio Militar. Ela nos presenteou, no Instituto Histórico e Geográfico, com uma excelente aula sobre a história dos sofridos imigrantes poloneses.

Antes de escrever este texto, pedi ao Comandante, Coronel Quintino, que revelasse qual o segredo do CMC. De tudo o que falou, eu resumiria dizendo que lá se busca a educação integral, pois, além dos aspectos cognitivos (ligados ao conhecimento), trabalha-se os psicomotores (ligados às habilidades físicas) e os afetivos (ligados a valores). Além disso, o Colégio dá atenção especial à motivação, à liderança e à autoconfiança dos seus alunos e investe na qualificação dos professores.

O CMC não possui em sua entrada estátuas representando sentinelas. Mesmo se lá estivessem, os “guardiões do saber” deixariam o caminho livre, pois não há sentinela que consiga impedir a passagem do patrimônio chamado “saber”. Parece que estudantes são normalmente bem-humorados porque têm consciência de que estão adquirindo um capital que ninguém poderá lhes tirar – o conhecimento. É mais uma razão para o sucesso do nosso Colégio cinquentão. A outra é o seu corpo docente, dedicado, preparado e exigente. Aí está – professores exigentes – um bom argumento a empregar quando for mostrar o meu boletim escolar aos netos.

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