31 de março – ditabranda é que não foi

 

Nos tempos em que havia um general na presidência, a Folha de São Paulo era uma crítica impiedosa dos militares, pelo que recebia os aplausos da esquerda. Dias atrás, com a mesma (ou quem sabe maior) coragem com que no passado criticava o governo, afirmou em editorial que o período de exceção por que passamos não se compara ao dos nossos vizinhos que falam castelhano. Ao declarar que tivemos uma ditabranda e não uma ditadura, acabou por provocar a ira da esquerda que, em seu permanente patrulhamento, lotou a caixa de e-mails do jornal com mensagens desaforadas.

Ignoro os argumentos usados pelos leitores. Os que não viveram naquela época, provavelmente repetiram, até de boa-fé, ideias que lhes foram transmitidas nos bancos escolares, como a de que, nos “anos de chumbo”, ninguém podia sair à rua sem ser vigiado por uma multidão de milicos armados e mal-encarados, prontos para baixar o cassete em quem bem entendessem. Contaram-lhes que não se podia criticar o governo, sob pena de ser censurado e preso (a Folha era exceção ou apenas corajosa?). Os demais leitores, estes de má-fé porque viveram naquele tempo, devem ter repetido as mentiras sob as quais se sustentam há anos, fazendo crer que, por lutar pela democracia, “milhares” foram torturados e mortos. Como “prova”, poderiam apresentar a longa lista de beneficiados pela bolsa-ditadura gentilmente distribuída pelo governo. Dá para desconfiar que muitos dos que se indignaram com o diário paulistano já recebam a dita bolsa e outros estejam em vias de. Obviamente que, para não perder a “boquinha”, apressaram-se em criticar o jornal, pois é fundamental continuar valorizando seu “passado de paladinos da democracia”. É admirável como se muda a versão da história!

Há coisas, porém, que não mudam. Um soldado respeitar pessoas que lutam por um ideal, mesmo sendo contrário ao dele, é uma delas. Entre os anos sessenta e oitenta, morreram idealistas de ambos os lados. Pouco, mas morreram. O excessivo número de beneficiados pela bolsa-ditadura representa um desrespeito aos que perderam a vida por um ideal, vidas cujas memórias são igualmente desprezadas por comportamentos antiéticos, a nova mania nacional. Com tristeza, temos ouvido exageros sobre nosso passado recente. Aborrecidos, temos assistido a classe política, com raras exceções, usar o dinheiro público como se fosse propriedade sua. Surpresos, tomamos conhecimento da existência de centenas de diretores no Congresso, pagos por contribuintes já sufocados por exorbitante carga tributária. Ao mesmo tempo, inquietamo-nos ao ouvir falar de negociatas entre políticos do governo e da oposição, alguns dos quais se autoproclamam perseguidos pela ditadura, o que, se for verdade, nos leva a engrossar o coro dos que discordam da Folha. Somos induzidos a pensar que realmente não houve uma ditabranda, como disse o jornal. Melhor seria classificá-la como “ditamole”.   

 

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