O livro dos chatos

 Se você é amiga ou amigo da minha mulher, não leia esta crônica. Se é seu parente, por favor, saia de fininho. E, por garantia, se conhece alguma Norma (este, obviamente, é o nome dela), pare de ler agora mesmo. A partir deste ponto, escrevo para os amigos que são somente meus, poucos, mas fiéis o suficiente para guardar o segredo que agora passo a contar.

Norma quis me agradar e deu-me de presente um livro. A intenção era das melhores. Ela sabe que adoro ler e, como tinha escutado falar bem do dito cujo, resolveu comprá-lo. Feliz como criança, desembrulhei ”A menina que roubava livros” e iniciei a leitura.

O prólogo intitula-se “Uma cordilheira de escombros”, que possui subtítulos igualmente complicados: “Morte e Chocolate” é um deles. A muito custo, tendo que voltar a fim de entender alguns parágrafos, cheguei à página quinze, à qual segue-se “O Manual do Coveiro”, esquisito título da Parte Um, que levou-me à nocaute com apenas cinco de suas folhas.

Não pretendo dar uma de crítico literário, mesmo por que, para mim, existem apenas dois tipos de livro: os chatos e os não-chatos, o que se identifica logo nas primeiras páginas. Não-chatos são os que você começa a ler e não consegue mais parar. Chatos são os demais, cujo clássico é “Os Sertões”. Até aqui, tudo muito simples. Agora, se como dizem, as pessoas são aquilo que lêem, os livros chatos tornam chatas as pessoas. Quanto maior o livro chato, mais chato se torna quem o lê.

Vamos à prática. Todos conhecem algum jovem de classe média que não gosta de estudar mas que, por pressão familiar e para garantir a mesada, precisa entrar na faculdade. Presta então vestibular para um curso qualquer, em que a concorrência seja pequena. Aprovado, inicia sua carreira de estudante-charlatão. Logo encontra perambulando pelos corredores da universidade pessoas semelhantes a ele, que lhe indicam “O Capital”. Para quem não o conhece, devo dizer: é o livro que pediu para ser chato e entrou na fila uma centena de vezes. Mas, a fim de se enturmar e dar uma de intelectual, culto e engajado, nosso estudante vai até o fim das milhares de páginas escritas por Marx, mesmo sem entendê-las direito. A partir daí, passa a ter solução para todos os problemas da humanidade. Pobre de quem tiver opinião diferente da dele. Entre as várias manias que adquire, uma é a de tentar convencer as pessoas a se alistarem no Exército Popular e Democrático da Coréia do Norte para lutar contra o Japão.

Caro leitor: já que lhe confiei um segredo, tomo a liberdade de pedir um favor. Se você encontrar a tal menina que roubava livros, diga-lhe para dar uma passadinha aqui em casa. Quero aliviar minha biblioteca de algumas obras. Entre elas, “O Capital”, o mais chato dos livros, e o livro dos mais chatos. É bem provável que se tivesse sido escrito por um brasileiro, nenhum dos nossos intelectuais o tivesse lido.       

 

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