Artigos de 2009

Papai Noel existe

22/12/2009 por bonat

Ao saber que Papai Noel não existia, Pedrinho ficou desapontado. Descobrira que seus pais o haviam enganado durante muito tempo. Como, além disso, obrigaram-no a mentir – ato que classificavam como pecado – para o irmão caçula, passou a desconfiar de todo mundo. Dizem estar aí o nosso pecado original. A partir dele, outros podem ser admitidos e, até, perdoados.

Os pais se justificam sob o argumento de que se trata de uma mentirinha inocente, com o intuito de ter as crianças comportadas na esperança de ganhar presentes do bom velhinho. A questão que se põe é como ficam os meninos pobres que, mesmo sendo comportados, nada recebem.

Em defesa dos pais, afirmo que Papai Noel existe. Para comprovar, relato um fato ocorrido em Guarujá.

Eu comandava a Brigada Antiaérea. Meu relações públicas – Tenente Pablo Moitinho – disse-me que uma pessoa estava solicitando seis soldados para escoltá-la numa favela. Minha resposta foi um seco não. Pablo insistiu que era por uma boa causa. Sugeriu-me que a escutasse. Concordei.

Vejam o que me contou a dita pessoa: “Passo o ano arrecadando brinquedos. Em dezembro, me visto de Papai Noel e os distribuo em bairros da periferia. No ano passado, quase houve uma tragédia. A criançada se atirava na frente do caminhão. Algumas quase foram atropeladas. Além do mais, foi difícil organizar a fila, pois todas temiam que os brinquedos terminassem antes de chegar a sua vez. Para evitar que isso se repita, resolvi pedir sua ajuda”.

Desconfiado, perguntei-lhe se não estaria preparando o seu ingresso na política.

“De jeito nenhum. Há dez anos faço isso e ninguém sabe, e nem vai saber, que sou eu o Papai Noel”.

Senti sinceridade naquele homem, a quem passarei a chamar pelo fictício nome de Natal. Acreditei e topei a parada. Cedi-lhe cinco soldados, sob o comando de um sargento. Este, após a “missão”, relatou-me da emoção que sentiu ao ver o brilho nos olhos da meninada.

Até hoje, no Guarujá, ninguém sabe quem é Natal, embora ele continue a levar alegria para muitas crianças. Além dele, deve haver milhares de “Natais” por aí. São os Papais Noéis de verdade. Ignorá-los seria o mesmo que duvidar da existência do Bem, ente que ninguém vê porque ele não é candidato a nada, mas está por todos os cantos e em todas as classes sociais.

Tomara que algum dos meus jovens soldados que escoltaram Natal tenha seguido o seu exemplo e se tornado, também, um Papai Noel de verdade. Seria outro ótimo presente de Natal.

Publicado em Datas marcantes

Trânsito – quatro cruzes a mais

10/12/2009 por bonat

Na minha infância curitibana, sempre às três da tarde, eu interrompia os estudos. Munido com a lista dos pães que minha mãe e toda a vizinhança precisavam, montava na Monark aro 26, grande demais para um piá de sete anos, e me mandava para a padaria dos Irmãos Burgel, na Avenida Batel.

O trajeto de ida era tranquilo. Havia poucos carros e muita descida. A mais gostosa era a da rua Francisco Rocha, entre o Hospital Militar e a Batel. Desnecessário pedalar. Bastava inclinar o corpo e, vummm, já estava na esquina. No tal cruzamento, na época, havia uma pequena farmácia, um verdureiro, um armazém e um terreno baldio.

Hoje ainda tem a farmácia, agora bem maior. Há também uma casa noturna onde jovens curtem suas baladas e uma revenda de automóveis caros. No outro canto, o supermercado, igualmente careiro, está fechado. Deveria haver, também, quatro cruzes. Deveria, mas não há.

Imagino-me, agora, não mais na minha Monark, mas blindado no interior de uma Pajero, em total segurança graças aos seus freios ABS e a todos os seus airbags. São seis e pouco da manhã. Embalo na mesma descida da Francisco Rocha. Nada vai me acontecer. O carro me protege. Não lembro de ter bebido durante a madrugada. Mas, se bebi, ninguém me obrigará a fazer o teste do bafômetro nem o exame de dosagem alcoólica. Sinto-me um ser superior. A lei está ao meu lado. Acelero os cavalos que estão à minha disposição, pois tenho dinheiro para pagar bons advogados. Sou imune.

Na mesma esquina que tantas vezes me viu voltando com os pães da Burgel, restam quatro pessoas jovens deitadas para sempre. Minha Pajero as matou. Não fui eu. Nem me interessa saber quem morreu. Continuo ileso, livre do bafômetro e do exame de sangue. Não há provas. Meu advogado é brilhante.

Retorno para casa. A subida da Francisco Rocha foi puxada, ainda mais carregando, além dos pães para a minha família, a encomenda de toda a vizinhança.

Difícil foi ter que voltar aos livros. Pior ainda foi não ter escolhido a carreira de advogado. Quem sabe, à custa de uma legislação que beneficia a quem a transgride, eu não tivesse ficado rico. Além do mais, o que representam quatro cruzes a mais? Cruzes que jamais estarão no cruzamento da Batel com a Francisco Rocha. Em cruzamento que é um point, cruz não pega bem.

Publicado em Segurança Pública

Um gol bizarro

26/11/2009 por bonat

Quando a “bleu-blanc-rouge” marca, sua torcida grita “but”, com biquinho e tudo. Os franceses, até hoje ressentidos com a derrota em Waterloo, rejeitam qualquer palavra inglesa. Nós, ao contrário, abrasileiramos “goal”, que significa meta, objetivo. Não fosse isso, você, fanático torcedor, gritaria “metaaaa”, cada vez que o seu time do coração balançasse as redes. Seria bizarro.

Futebol é uma das muitas coisas que importamos (inclusive a palavra football) e é das poucas de que podemos nos orgulhar por termos aprimorado. Somos os melhores do mundo.

Fizemos aquilo em que japoneses e russos foram mestres. O Japão copiava, aperfeiçoava e miniaturizava. A União Soviética copiava e aumentava. Exemplos não faltam. O radinho transistor tomou o lugar do grandalhão valvulado. O gigante Tupolev Tu-114, o maior avião de passageiros do mundo, entrou em serviço nos anos 50. Como conseguiam isso? Estabelecendo metas para suas nações e investindo em pesquisa a fim de alcançá-las.

Uma das atuais metas da política externa brasileira é ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nossa projeção econômica e política mundial tem sido notória. É meio-caminho andado. Para percorrer a outra metade, torna-se fundamental o respaldo de um poder dissuasório à altura da dimensão estratégica que pretendemos ter. Ela, porém, não pode se limitar a forças armadas equipadas com o que há de mais moderno. Vai além. Precisamos dominar as principais tecnologias bélicas.

O que se tem observado, governo após governo, é um total e irresponsável menosprezo com a defesa da Nação. Se não tivesse havido, durante quase duas décadas, brutais cortes no orçamento da Marinha, é provável que já dispuséssemos do nosso submarino à propulsão nuclear. Seríamos hoje exportadores e não importadores dessa temida arma.

Outra meta, esta permanente, é a de assegurar nossa integridade territorial. Convém lembrar que as sociedades que atingiram elevado nível de vida consomem imensa quantidade de recursos que não possuem. Elas dependem de matérias-primas, muitas das quais são encontradas em nosso território, uma razão a mais para darmos atenção aos assuntos de defesa.

Uma Nação que se deseja influente tem que dominar a tecnologia, que, por sua vez, depende de maciços investimentos em educação. Não adianta ser grande e continuar ignorante.
Neste ano da França no Brasil, uma curiosidade de milhares de olhos nos observam desde a Torre Eiffel. Talvez eles conheçam nosso potencial e nossas metas. Portanto, não conseguem entender (e até gostam disso) como ainda não as atingimos. Devem estar murmurando, agora sem biquinho: “c’est bizarre”. Tão bizarro quanto o gol que os classificou para a Copa da África do Sul.

Publicado em Segurança Nacional

No tempo das aeromoças

20/10/2009 por bonat

A fila é impacientemente lenta. Após dobrar a curva, consigo enxergar a porta. Junto a ela, vislumbro duas comissárias de bordo. Rosto de boneca, corpo de boneca, cabelo de Barbie, nem parecem humanas. Tenho a sensação de que a fila agora anda mais devagar, tal a vontade de me aproximar para sentir o seu perfume.

Chego, enfim, à distância de um passo daqueles sorrisos ensaiados inúmeras vezes frente ao espelho. Seja bem-vindo, repetem pela enésima vez naquele dia. Pronunciam as palavras de tal forma, que todo passageiro acredita ser, entre tantos, o único merecedor daquela cortesia.

Dentro do avião, um corredor estreito separa as seis poltronas alinhadas em dezenas de fileiras. Elas dão ideia da enormidade daquele aparelho, onde a tecnologia está em cada detalhe. Enquanto procuro o meu lugar, desperta a eterna apreensão: tudo o que o homem cria pode falhar. Como não posso dar meia-volta, acomodo-me no assento. Nele, encontro a prova da falibilidade humana: o cinto de segurança. Ele não estaria ali, se acidentes fossem apenas uma teoria.

Meu vizinho observa-me com olhos de primeira viagem. Cumprimento-o com um sorriso de veterano dos ares. Sei, porque já fui calouro, o que se passa em sua cabeça. Ele se pergunta como aquela coisa vai conseguir sair do solo carregando, além do próprio peso, o de centenas de pessoas e da carga. Os veteranos, mesmo sabendo que aquela tonelagem toda vai decolar, têm uma preocupação ainda mais grave: de que maneira ela retornará ao solo? Mas veterano que se preza não revela seu temor a ninguém.

O avião começa a se movimentar. Ei-las de volta! Posicionadas no corredor, as aeromoças (assim ainda as denominam os que têm muita milhagem) transmitem por gestos as regras de segurança. Meu vizinho presta atenção a tudo. Veteranos também as olham, mas somente para admirá-las. As veteranas fazem pouco caso. Abrem a revista de bordo e fingem indiferença, gesto que não esconde certa inveja.

Quando atingimos a altura de cruzeiro, para demonstrar tranquilidade, finjo dormir, e durmo mesmo. Sonho que estou num avião. De repente, do teto caem máscaras. É tudo muito rápido. Quando me dou conta, estou na fila da entrada do céu. Um senhor de barba branca, após identificar cada ex-vivente, indica-lhe a direção. A da direita conduz ao paraíso. A da esquerda leva a uma escada descendente, em cujo pé satanás aguarda. As aeromoças estão logo à minha frente. O homem de barba mostra-lhes o caminho da direita. Chega a minha vez. Gostaria de ir atrás delas… “Suco ou refrigerante?”, uma voz ensaiada me desperta.

Em alguns países, quando o avião pousa, é comum aplaudir-se o piloto. Brasileiros não têm esse costume. Se tivéssemos, aplaudiríamos nossas aeromoças.

“Tenha um bom dia”. Na porta do avião, ouço pela derradeira vez a voz bem treinada. Não sei se meu dia será bom. Só sei que vou correndito à uma igreja pedir perdão pelos pecados. Assim, quando chegar a minha hora, o porteiro da branca barba apontará o caminho das belas aeromoças. Será que elas estarão por lá?

Publicado em Turismo

Neo ianques “go home”!

24/09/2009 por bonat

A situação em Honduras está cada vez mais complicada. Segundo os entendidos, o senhor Zelaya tentou rasgar a Constituição. Judiciário e Legislativo não deixaram. Portanto, parece exagero afirmar que houve um golpe de estado. Exagero maior é classificar o evento como golpe militar. Não vou me intrometer nessa discussão, pois, a meu ver, caberia à Honduras – Nação Democrática e Soberana – resolver seus problemas.

Vou me fixar somente no fato de a nossa embaixada em Tegucigalpa ter acolhido (dá até para desconfiar que tudo estava combinado) o bigode do chapeludo Don Zelaya. Nada tenho contra o chapéu, a não ser o fato de seu dono, ao que consta, não retirá-lo nem em enterro. É seu marketing. Com o “Panamá” na cabeça, ele sente-se superior aos demais viventes. Mas isso é assunto para professor de boas maneiras, não para mim.

Preocupa-me mesmo é o bigode, ou melhor, são seus fios. Claro que já vai longe o tempo em que um fio de bigode garantia a palavra empenhada. As coisas mudaram tanto, que ele e a própria palavra perderam credibilidade. Atualmente, nem mesmo um contrato assinado, com todos os carimbos e protocolos que servem para oficializá-lo, tem valor.

A Constituição, na condição de Carta Magna, deveria ser cumprida, em especial pelos mandatários dos chamados “Estados Democráticos de Direito”. Mas, como são poucos os bigodes confiáveis – e o do senhor Zelaya não é um deles – alguns líderes têm tentado driblá-la.
Foi esse o bigode que acolhemos, interferindo diretamente na política interna da pequenina Honduras. Resta saber que interesses estratégicos, humanitários, econômicos ou mesmo políticos levaram o Brasil a essa aventura. Sinceramente, não os consigo visualizar.

Vamos seguir algumas pistas para tentar encontrar a explicação. Pista 1: Honduras situa-se na rota do tráfico de drogas entre Colômbia e Estados Unidos. Pista 2: Interessa às Farc ter um “amigo”, para qualquer eventualidade, no comando daquele País. Pista 3: Hugo Chávez apóia as Farc. Pista 4: Nossa política externa anda à reboque do “líder bolivariano”. Pista 5: Chávez sugeriu que déssemos uma de ianque. Conclusão: esta é com você, caro leitor-detetive. Poderão até dizer que meu raciocínio é simplista demais, e é mesmo. Mas, ao mesmo tempo, é lógico.

Há décadas temos lido e ouvido o bordão “Yankees go home”! Por todos os cantos, inclusive no Brasil, a frase tem soado como protesto à onipresença norte-americana. Agora, graças às trapalhadas do senhor Celso Amorim, porta-voz de Marco Aurélio Garcia, o “ministro de fato” das Relações Exteriores, estamos virando “neo ianques”. Talvez, logo, logo, voltemos a nos denominar “Estados Unidos do Brasil”!

Publicado em Internacional, Política

Escreva um livro e saiba quem é seu amigo

21/09/2009 por bonat

Pense numa noite fria e chuvosa. Não numa chuvinha qualquer, mas num aguaceiro de molhar até a alma. Pois asseguro-lhe que era muito pior a situação em 10 de setembro último em Caxias do Sul.
O lançamento do meu livro de crônicas estava marcado para as sete. Se eu fosse uma celebridade, literária ou não, o que definitivamente não sou, toda a cidade estaria lá. Deduzi que São Pedro já estava antecipando o meu fracasso editorial, numa noite em que qualquer um pagaria para não sair de casa.

Cheguei meia hora antes para conferir os últimos detalhes. Ao entrar no salão, tive uma surpresa. Aguardava-me um homem com seus oitenta e poucos anos. Lá estava o senhor Finimundi, com sua bengala e seu sorriso largo. Quando ele disse que gostaria de ser o primeiro a receber o meu autógrafo, senti-me o próprio Rubem Braga, para mim o maior cronista brasileiro.

Meu pensamento voltou até a manhã de um dia qualquer de 1995. Semanas antes, eu havia assumido o comando do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea. Na porta do meu gabinete, o oficial de relações públicas solicitava para entrar. Estava acompanhado de um senhor que portava um embrulho. Após acomodar-se na poltrona, ele falou, meio sem jeito, que o quartel estava precisando de uma corneta nova. A atual está muito velha e amassada, disse-me; tem até um remendo com durepoxi. Perguntou-me se eu aceitaria uma de presente. Aí, quem ficou sem jeito fui eu, pois cabia ao Exército atender às necessidades da Unidade.

Já naquele tempo as vacas andavam magras. Depois, foi só piorando. Hoje, por falta de comida, os soldados, normalmente de famílias humildes, têm que almoçar em casa. Uma aberração, se levarmos em conta os anunciados bilhões de dólares que o governo usará para gerar empregos na França e alavancar a sua combalida indústria naval e aeronáutica.

Mas retornemos ao meu ex-gabinete. Aceitei a doação. Mandei chamar o corneteiro. Assim que ele entrou, o senhor – o mesmo que há pouco tempo fez-me sentir o Rubem Braga reencarnado – entregou-lhe o embrulho. E lá se foi o corneteiro Daniel Pedro, faceiro como uma criança que acaba de ganhar uma bicicleta novinha em folha.

O frio e a chuva do último dia dez, para a minha alegria, não impediram que mais de uma centena de amigos fossem me prestigiar. Na verdade, publicar um livro é uma louca aventura. Vale pelo prazer que nos dá em deixar registradas as verdades em que acreditamos. Além disso, permite saber quem são os verdadeiros amigos. Em Caxias do Sul, eles estavam lá. Impossível nominá-los na pequenez deste espaço. Creio que compreenderão. Como antiguidade continua sendo posto, cito apenas Carlos Cândido Finimundi, mas com o pensamento voltado para todos os demais corajosos heróis que foram me abraçar.

Se você, caro leitor, é um desconhecido como eu e quer saber quem é seu amigo de verdade, escreva um livro. Você nem imagina quantas emoções terá!

Publicado em Literatura

Nunca minta para um leão

29/08/2009 por bonat

Leão é um animal que impõe respeito, não só aos humanos, mas a quase todos os mamíferos. O homo brasiliensis sente verdadeiro pavor do rei dos animais, pois sabe o quanto ele é voraz quando se trata de abocanhar quase quarenta por cento de tudo o que se produz trabalhando duro. O que o “rei” faz com essa dinheirama toda? Entrega ao governo para que este a devolva em forma de saúde, segurança, transporte, energia, educação e outros serviços essenciais.

Na prática, a teoria tem sido um pouco diferente. Mas o leão, que não tem nada com isso, continua cumprindo o seu papel de caçador voraz e, reconheçamos, de irritante competência. A manada mostra-se a cada ano mais preparada.

Leões não gostam de mentiras e de mentirosos. Experimente, leitor-contribuinte, tentar enganar a um só deles. Unidos como são, todos voltarão contra você as suas garras e dentes afiados.

Confesso que a senhora Lina Vieira me era totalmente desconhecida. A primeira vez que a vi foi pela tevê, no dia 18 último, quando depunha na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Vendo-a jogada naquela arena, pensei que seria logo engolida pelos “leões” da base governista, que rugiam impropérios intimidativos. Mas qual! Experiente, ela sabia que os gritos que ouvia impassível eram um blefe, a principal arma dos mentirosos. Altiva, mostrou quem ali era a verdadeira leoa. Uma leoa ferida, defendendo seu rebanho acusado logo de quê: de mentir!

Por que a jogaram naquela arena de falsos leões? Porque, cumprindo estritamente a sua função de Secretária da Receita, ela revelara que a Petrobras havia sonegado o fisco. Como a Petrobras é uma pessoa jurídica, quem na verdade sonegou foram seus diretores, lá acomodados pelo governo. A maioria é de ex-sindicalistas. Como tal, sempre se julgaram no direito de fazer o que bem entendessem com a coisa alheia. Quando praticam alguma ilegalidade, rugem qual leões para amedrontar a quem apenas deseja ver a lei cumprida. Agora, ao que parece, deram de frente com um leão de verdade.

O grande temor dos falsos leões é a CPI da Petrobras, instaurada a fim de esclarecer possíveis superfaturamentos e apurar outras irregularidades. Para defendê-los, os atuais comandantes da nossa maior empresa necessitam do partido do presidente do Senado. Se, como acreditam, a regra do “toma lá, dá cá” continua em vigor, fazem de tudo para salvar um futuro aliado de peso.

Dezenas de outros leões da manada da senhora Lina, com os brios feridos, tiveram a dignidade de abrir mão das vantagens dos cargos que ocupavam. Pediram exoneração. Teme-se que, da mesma forma que ocuparam todos os espaços de mando na Petrobrás, sindicalistas despreparados sejam nomeados para os postos abertos na Receita. Caso isso aconteça, embora continue faminto, o leão ficará tecnicamente enfraquecido. Maus contribuintes, famosos ou não, soltarão rojões de alegria.

Publicado em Nacional, Política

Entre aspas

15/08/2009 por bonat

Abro aspas. Muitos já ouviram essa frase e ficaram torcendo para que as tais aspas fossem logo fechadas e o discurso chegasse ao fim. Por ter escutado inúmeros deles, julgo que chegou a minha hora de abrir algumas aspas.
“É preciso levar em conta o passado de Sarney antes de condená-lo”. O autor é de todos conhecido. “Vossa Excelência tem que engolir e digerir como quiser suas palavras”. De autor também muito e tristemente famoso. “Esqueçam de mim”. Este ao menos foi sincero. Era o que todos queriam ouvir. “Os nacionalistas retrógrados são contra as privatizações” Epa! Nacionalista sou eu. Retrógrado não. Ele ficou rico. Eu não. “Todos são iguais perante a lei”. E os sem-terra? “A ministra Dilma possui o título de Mestre pela Unicamp“. Sendo condescendente, foi u’a mentirinha a mais, uma falha dos assessores de quem não lê o próprio currículo.
Por fim: “Foi o ano do Brasil na França. Agora é o ano da França no Brasil”. Quer dizer, a Força Aérea Brasileira terá que aceitar o Rafale (avião no qual nem os pilotos franceses confiam) e a Marinha receberá de presente a ultrapassada tecnologia naval francesa para produzir submarinos.
Se, no governo passado, o Exército foi obrigado a aceitar os complicadíssimos e ainda não testados em combate helicópteros Super Puma, por que Marinha e Aeronáutica ficariam de fora da invasão intelectual francesa? Mas intelectual não entende de avião, de submarino e de helicóptero. Não é demais lembrar que a França teve suas últimas conquistas com Napoleão, quando nada disso existia e os intelectuais se limitavam a pensar. A questão é: quem sairá ganhando? Respondo, agora sem aspas: logicamente que não serão as nossas Forças Armadas.
Respeito os francólilos de coração. Ao mesmo tempo, temo os de ocasião, pois seus interesses nem sempre se confundem com os do Brasil. Particularmente, eu preferiria que os franceses se limitassem a nos mandar seus queijos e vinhos. Aí, estaria aqui mais um francófilo bradando entre saborosas aspas: “Vive la France”!
A Rússia assimilou da França uma ideologia que ela mesma, a França, nunca chegaria a implementar, e virou uma sucata conhecida como União Soviética. Nosso caso é ainda mais grave. Além da ideologia, estamos importando tecnologia, ambas caducas e ultrapassadas ou, se preferirem, demodés. Antes de encerrar, julgo conveniente avisar aos desavisados que ninguém é bobo de transferir seu avanço tecnológico mais recente.
Termino aqui o meu discurso. É possível que você não tenha concordado. Mas, ao menos, ele foi curto. Curto e sincero.

Sete mil, vereadores ou médicos?

03/08/2009 por bonat

Enquanto a suína continua matando, o Congresso prepara-se para aumentar em sete mil o número de vereadores. Sete mil vezes dez assessores representam setenta mil a mais para sustentar.
Senadores e deputados, na teoria nossos representantes, estão apenas cumprindo a Constituição do doutor Ulisses. É o que dizem. Mas se ela já foi alterada outras vezes, inclusive para permitir a reeleição de FHC, não seria possível dar um jeitinho? Na atualidade, como o interesse é do povo, parece que não.
Se interessasse, eles pensariam na segurança pública e no conseqüente acréscimo, em setenta mil, no efetivo policial. Mas não. Seria mais gente para atrapalhar os traficantes.
Que tal se tivéssemos mais setenta mil professores? Também não, pois devem imaginar que professores gostam de dar uma de bacana, que, mesmo ganhando uma miséria, são metidos à besta e tentam educar os malcriados filhos dos outros. Têm mesmo é que ficar pobre. Quem mandou estudar!
E se fossem contratados setenta mil engenheiros? Estes não, pois pertencem à elite. Além do mais, são incompetentes, pois as estradas que fizeram há quarenta anos estão cheias de buraco. As refinarias e hidrelétricas que construíram não interessam mais. Por isso, o Brasil as está doando aos vizinhos. Não precisamos mais delas. De engenheiros, muito menos.
Que tal setenta mil enfermeiros? Para quê? Eles são temidos, principalmente por alguém que esteja com a saúde debilitada e é ameaçado por suas agulhas pontudas.
Só resta, humildemente, concordar com o Congresso. Setenta mil vereadores e asseclas não farão mal (nem bem) a ninguém. Trata-se de gente boa. E quem sabe não nos sobra uma boquinha? Policiais, médicos, engenheiros, professores e enfermeiros são considerados descartáveis. Vereadores são mais necessários.
A real ameaça da gripe suína, entretanto, leva-me a considerar que sete mil médicos seriam mais úteis no momento atual do que a mesma quantidade de vereadores, mesmo que se tivesse novamente que mudar a Constituição Democrática do Doutor Ulisses. Democrática ela tem sido para os políticos. Para o povão, começa a se revelar mortal.E nada vai mudar. Fazer o quê? Rezar para não pegar a tal gripe. Quem der azar, que vá se consultar com um vereador.

Publicado em Nacional, Política

Ao bispo, uma doação

30/07/2009 por bonat

O pessoal anda indignado. Basta dar uma olhada nas “cartas do leitor” para perceber. A generosidade do nosso presidente com seus companheiros do Foro de São Paulo, travestidos de hermanos bolivarianos, tem passado dos limites. Não se trata de patriotada, nem de xenofobia. O caso é de priorizar os interesses nacionais. Nosso governo mostra-se mais atento aos interesses de outros povos do que ao seu, por acaso os brasileiros.
Lula já se sujeitara aos abusos de Hugo Chávez, do boliviano Morales, do casal argentino Kirchner e do equatoriano Correa. Tudo bem que goste de ser cortejado, que esteja deslumbrado com o poder, com aplausos e tapinhas nas costas. Preocupa é nossos vizinhos já terem percebido isso. A cada tapinha nas costas presidenciais, eles nos tomam um pouco de energia.
Energia é um bem estratégico e caro, fundamental não-somente para a economia – saúde, educação, transporte, comunicação, segurança, pesquisa, bem-estar, e qualquer outro setor que o prezado leitor queira levantar, dependem dela. Todos sabem disso, embora sua importância só seja sentida quando falta.
As pessoas da minha geração têm a exata noção de quanto custaram Itaipu e Petrobras. Não seria exagero afirmar que as carregamos nos ombros, convivendo com elevadíssimas taxas de inflação, com racionamentos e pagando pela gasolina mais cara do planeta. Elas são nossas filhas.
O atual governo trata Petrobras e Itaipu como propriedade sua. Parece até que nosso presidente não viveu aqui nos velhos e difíceis tempos. Faz-se de esquecido. Prefere usar o bordão “este país” quando se refere ao Brasil para, então, sentir-se liberado para fazer doações a fim de agradar companheiros estrangeiros – bispos ou não – que estejam em apuro. Depois, brinda gloriosamente e recebe calorosos (e falsos) aplausos e tapinhas.
A conta será paga pelas gerações futuras. Elas herdarão mais do que o prejuízo energético, assim entendido como fonte de progresso material. A perda maior estará no espectro intangível, aquele que, quando se abre mão, dificilmente se resgata. Como rasgar tratados está virando rotina, nossos netos perderão até a capacidade de se indignar, permanecendo cordeiramente calados, mesmo quando o Brasil vier a ser prejudicado pela violação de outros acordos.
Estamos perdendo energia física e moral. Para o nosso presidente, legal mesmo é sentir-se enturmado com os castelhanos e receber tapinhas nas costas. Ele acha mais legal ainda ver sua fotografia estampada nas primeiras páginas. Dessas vaidades aproveitou-se o bispo-garanhão. Era o que precisava. Será reeleito, às nossas custas.

Publicado em Política, Sulamericana