Artigos de 2008

Tomem a Providência

23/06/2008 por bonat

No tempo em que Curityba se escrevia assim, meu avô era dono da Cervejaria Providência, que já não existe. Não foi graças a ela que o agora famoso Morro da Providência recebeu este nome. Nem o slogan da saborosa cerveja do meu avô – “Se você tem algum problema, tome uma Providência” – se aplicaria ao morro carioca, onde tudo deu errado porque ninguém tomou a  devida providência.

Errou o tenente ao agir por conta própria. Não lhe cabia assumir uma decisão capaz de levar à morte três pessoas, traficantes ou não. Seu capitão também errou por não ter avaliado corretamente a gravidade do problema que lhe apresentou seu comandado.

Errou o Exército por não ter sido mais incisivo ao argumentar que, embora fosse nobre a missão de melhorar a qualidade de vida de famílias pobres, ela encontraria resistência, pois iria prejudicar o rentável comércio de quem domina as favelas. Errou o Ministro da Defesa ao colocar em risco a imagem de uma Instituição do Estado a fim de atender interesses personalistas e eleitoreiros.

Errou o Governo quando negou-se a reconhecer as Farc como organização terrorista que precisa do dinheiro do narcotráfico para acabar com a democracia na Colômbia. Com isso, os chefões do tráfico tupiniquim – fonte de renda das Farc – saíram fortalecidos. Sentindo-se acima da lei, erraram os traficantes ao afrontar quem tinha só a intenção de ajudar pessoas que, por falta de opção, vivem no morro.

Errou o carioca, quando elegeu governantes que, a fim de obter o apoio do tráfico, prometeram que a polícia não atrapalharia seu negócio. Eleitos, cumpriram a promessa e o crime tomou conta do Rio.

Erram meus vizinhos, que usam roupa de grife, têm carro importado e só vêem favela pela TV, quando fazem severas críticas a todo o Exército pela desastrada atuação de um só tenente.

Errada é a mania que tenho de preocupar-me com o Brasil. É que manias custam a morrer. Estou de pijama há três anos. Já devia ter aprendido a curtir minha dolce vita.

 Errou meu avô ao não repassar para a família a fórmula da sua famosa cerveja. Se o tivesse feito, eu saberia tomar a Providência correta.

 

 

Publicado em Nacional, Política

Obrigado, Curitiba

12/06/2008 por bonat

Se nos reportarmos ao longínquo ano de 1693, encontraremos Mateus Leme precisando de gente para elaborar leis que atendessem às necessidades da população e punissem os arruaceiros que infernizavam a vida das pessoas. Em conseqüência, foi instalada a Câmara Municipal. Com isso, Curitiba passou a ser reconhecida oficialmente como Vila.  Mais de trezentos e quinze anos depois, na Casa que foi responsável pelo nascimento de Curitiba, fui homenageado com o título de Vulto Emérito da minha cidade.

Entre as mais de duzentas pessoas que estavam no Palácio Rio Branco, não preciso dizer quem era o mais feliz. Mesmo que eu tenha sido alvo de muitas homenagens ao longo da vida, nenhuma teve o mesmo sabor desta, que representa o reconhecimento dos meus conterrâneos.

Até meus netos estavam lá, sem entender exatamente o que acontecia. A verdade é que netos enxergam o avô como um velho, no que têm razão. Eles imaginam, aí sem razão, que o avô nunca foi criança.  Claro que já faz tempo, mas já fui um piá. Foi na década de cinqüenta, quando despertou minha vontade de ser soldado.

Atendendo à minha vocação, fui para a Escola de Cadetes. Foi alto o preço que paguei. Deixei para trás uma confortável vida de classe média. Tive que me despedir da Curitiba dos meus pais, avós, parentes e amigos, de uma cidade provinciana, com cerca de trezentos mil habitantes.

Passei sete anos interno e, não fossem as cartas, quase sem contato com minha terra natal. Depois de formado, vivi uma vida de cigano, mudando de endereço a cada dois anos. No final de 2005, chegou o sonhado momento do definitivo regresso, hora de conferir se eram verdadeiros os elogios sobre a nossa capital que sempre ouvi quando estive longe.

Reencontrei Curitiba enfrentando problemas por ter-se tornado metrópole. Mas, ao saber que metade de sua população é de curitibanos por adoção, concluí que ela continua a atrair gente de todo o Brasil e do exterior. Ainda é uma cidade onde é gostoso viver. Eram, portanto, sinceras as palavras que a enalteciam.

Estou ciente de que não sou o mais emérito dos Vultos Eméritos que a Câmara já escolheu. Porém, de todos, sou dos mais orgulhosos desse título. Aquele piá que se tornou soldado é particularmente grato ao vereador Ângelo Batista por ter proposto o seu nome para receber tão comovente homenagem.

Publicado em Homenagens

Roraima, um país de todos?

25/04/2008 por bonat

O General Heleno bem que poderia, mas não criticou a inoperância dos órgãos públicos no combate à dengue. Nem teceu comentários sobre as indenizações imorais recebidas pelos senhores Ziraldo e Jaguar. Limitou-se a um assunto que é de sua responsabilidade: a defesa da Amazônia. Logo, é incompreensível o frisson que suas palavras provocaram em determinadas autoridades da República.

Há décadas o Exército prioriza a Amazônia. Só não transferiu ainda mais tropas para lá por falta de recursos. Também faz tempo que líderes dos países centrais vêm batendo na tecla de transformar a Amazônia numa verdadeira casa da mãe Joana, onde todo mundo pode entrar sem pedir licença. O problema é que, além de falar, eles têm atuado, apoiando organizações de fachada. Nos anos setenta, missionários estrangeiros criaram o Conselho Indígena de Roraima (CIR). Hoje, segundo o site do próprio CIR, ele conta com as seguintes parcerias: CAFOD e Survival International (inglesas), CESE, TNC e Pro Rainforest Foundation (norte-americanas), CCPY e NORAD (norueguesas), Greenpeace (canadense), Movimondo (italiana), OPAN e Regenwald (alemãs), OXFAM (anglo-americana) e Pro Índios di Roraima (do Vaticano). Se você fosse o Comandante da Amazônia não ficaria preocupado com a presença de tantos forasteiros? Pois saiba que existem muitos mais: ninguém sabe quantos e nem o que fazem por lá. Consta que existem milhares de ONGs na região. É mole?

No ano passado, os brasileiros foram surpreendidos com o voto do Brasil favorável à Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas da ONU. Veja como inicia um dos seus artigos: “Os povos indígenas têm direito à livre determinação”. Junte-se a assinatura do decreto presidencial homologando a reserva Raposa Serra do Sol e tem-se a impressão de que o Brasil está abrindo mão de imensa e rica porção do seu território, internacionalizando-a, segundo a vontade das grandes potências. É o neo-colonialismo, que se está aceitando por covardia ou interesses menores.

A falsa idéia da existência de um povo ianomâmi, inventada em 1973 por uma jornalista romena, inspirada pela organização suíça “Christian Church World Council”, vai ao encontro dos interesses estrangeiros. Para eles, se há o povo, existe a nação ianomâmi. Para nós, só existe um povo e, em conseqüência, uma só Nação – a Brasileira, que é de todos os brasileiros, inclusive de todos os índios.

É válida a suposição de que gringos andem interpretando em proveito próprio o slogan “Brasil, um país de todos”. Quanto a Roraima, devem estar pensando que o Estado é de todos, menos dos brasileiros. Nunca é demais recordar o Padre Antônio Vieira: “Os de fora não querem o nosso bem, mas sim os nossos bens”.

As declarações do General Heleno direcionaram os holofotes para um grave problema, propositalmente deixado à sombra a fim de escondê-lo da grande maioria dos brasileiros. Se o governo quisesse respaldo para enfrentar as pressões internacionais, bastaria um plebiscito. Mas, pelo jeito, a opinião da maioria não interessa neste caso. O que interessa então?

Publicado em Nacional, Política

1908 – Brasil e Japão abraçam o mundo

27/03/2008 por bonat

No fim da rua havia um campo de pelada e uma velha casa de madeira. O campinho era de terra. O quintal da casa, ao contrário, era verde, não de grama, mas de pés de alface, tomate e cenoura.

Ao cair da tarde, terminados os deveres da escola, alguns meninos da redondeza se dirigiam ao campo careca. Outros, avessos aos estudos, já os aguardavam. Dava a impressão que moravam ali. Quem nunca aparecia eram os garotos da casa de madeira. Eram muito pobres. O mais velho ajudava na horta e, de madrugada, acompanhava o pai na feira. Os mais novos não desgrudavam dos livros. Era comum a bola cair no meio da plantação. Quando demoravam a devolvê-la, a turminha da pelada entoava: “Japonês da cara chata, come queijo com barata”. Se essa história não fosse de meados dos anos cinqüenta, seria válido imaginar tratar-se apenas de maldade de adolescentes, seres sabidamente preconceituosos.

A Segunda Guerra trouxera muita desconfiança em relação aos imigrantes oriundos dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Por terem sido os últimos a chegar, os japoneses e seus descendentes sofreram mais os seus efeitos, que se estenderiam até o pós-guerra. Muitos refugiaram-se no interior. Passaram a viver quase reclusos, dedicando-se ao trabalho árduo e aos estudos. Foi um período difícil. Com o tempo, a aversão foi esmaecendo. Quando o antiniponismo diminuiu, os sanseis estavam prontos para vencer.

Costuma-se brincar que trinta japoneses inscritos num vestibular representam trinta vagas a menos para os demais candidatos. Isso por que, enquanto alguns dos nossos jovens preferem “morar” num campo de pelada, eles preparam-se para a vida.

Forçados a abandonar seus países por diferentes razões, europeus, africanos e asiáticos vieram aportar no Brasil. Todos enfrentaram desafios, aprenderam uns com os outros, respeitaram a diversidade e uniram-se na adversidade. Deixaram para trás antigas rixas entre suas nações e tornaram-se um só povo. Com os passageiros do Kasato Maru e seus filhos não foi diferente. Hoje os encontramos em diversos setores, integrados à nossa sociedade.

O 18 de junho de 1908 tem um significado mais abrangente do que a chegada dos primeiros isseis – marca o dia em que Brasil e Japão deram-se as mãos e, fraternalmente, abraçaram o mundo. Temos orgulho destes brasileiros.

 

Publicado em Datas marcantes, Homenagens

As FARC e seus reféns

05/03/2008 por bonat

Imagina-te gravemente enfermo, vivendo anos a fio numa floresta quente e úmida como refém de pessoas que não te deixam ser medicado. E, o mais grave, que presidentes de países vizinhos usem teu sofrimento para se promover. É o que acontece com Ingrid Bettancourt. Por acreditar na democracia e candidatar-se à presidência da Colômbia, acabou condenada pelas Farc.

O pecado colombiano foi não ter cortado a raiz da sua “guerrilha do Araguaia”. Acreditou que guerrilheiros pudessem ansiar por democracia. Chegaram a dominar quase quarenta por cento do país.

Mutatis mutandis, se as ossadas do Araguaia, intensamente procuradas, tivessem sido ressuscitadas e reproduzidas aos milhares, nosso vice-presidente, José Alencar, poderia ser hoje refém das Farc brasileiras. Elas teriam o apoio de Chávez e de Fidel. Nosso vice, com câncer, coitado, não poderia se tratar no Hospital Sírio-Libanês. Estaria com os dias contados e sofreria muito antes de morrer. Além dele, mais de setecentos brasileiros estariam na mesma floresta, alguns doentes, padecendo sob a mira dos seus algozes.

Se as ossadas do Araguaia, hipoteticamente revividas e multiplicadas, se refugiassem em outro país, nosso presidente pouco poderia fazer. Mas, corajoso como é, tentaria salvar Alencar, nem que para isso tivesse que entrar em território estrangeiro. Foi o que fez o presidente da Colômbia.

Rafael Corrêa sabia que havia bases de guerrilha em seu país. Claro que sabia. Sabia e concordava. Depois deu uma de nacionalista, embora não o tenha sido quando guerrilheiros colombianos, fortemente armados, invadiram o Equador.

Não demorou muito para aqueles que gostam de cadáveres saíssem às ruas. Hugo Chávez foi o primeiro. Era tudo que precisava. Ao armar-se até os dentes, sob o argumento de defender-se dos Estados Unidos, seu alvo era a democracia colombiana. Junte-se a necessidade de o mandatário venezuelano reverter a tendência de queda de sua popularidade e temos os ingredientes de uma receita apreciada pelos caudilhos.

A dubiedade com que o Itamaraty se posicionou deu a entender que estava ao lado dos guerrilheiros. Trafegou assim na contra-mão de uma estrada historicamente humanitária. Ainda mais dúbio, para não dizer falso, do que a posição brasileira foi o aperto de mão de Chávez, Corrêa e Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, ao término da 20ª Cúpula do Rio.  Pelo visto, setecentos reféns não conseguem sensibilizar ninguém.

 

Publicado em Política, Sulamericana

Vendo caminhão. Não aceito cartão corporativo.

21/02/2008 por bonat

Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar de segunda a sexta? Carioca nem liga mais pra bala perdida: entra por um ouvido e sai pelo outro. Bino recebeu por e-mail essas frases de pára-choque de caminhão. Mostrou à mulher e aproveitou para revelar um sonho de criança: queria ser caminhoneiro. Convenceu-a que deveriam aplicar o dinheiro do fundo de garantia na aquisição de uma carreta. Comprou uma de segunda mão.
“Dirigido por mim. Guiado por Deus”, estava em sua traseira. É a frase campeã das estradas. Quase um clichê. Por isso queria mudá-la. Foi o primeiro problema. Pediu sugestão à família. Nada, além da recomendação de não falar mal de sogra, outra preferida dos motoristas. Desafio foi alterar sua carta de habilitação, o que só conseguiu na terceira tentativa.
Como precisava se integrar aos seus novos companheiros, compareceu à reunião do sindicato. Olharam-no com desconfiança. Perceberam que não tinha pinta de caminhoneiro. Para melhorar sua imagem, Bino comprou uma camiseta, um boné e aquela toalhinha que é a marca registrada da categoria. Suas múltiplas utilidades vão desde enxugar o suor do rosto até limpar a vareta do óleo. Mesmo assim, não conseguiu se enturmar.
O problema da frase continuava a atormentá-lo. Sem ela, o caminhão parecia estar nu. Só faria o primeiro carreto quando bolasse alguma. Na busca de inspiração, foi à garagem de uma transportadora. “Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chama”. “Se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar”. “Cabelo ruim é que nem assaltante: ou tá armado ou tá preso”. Não era bem o que procurava.
Depois de muito matutar, achou a solução: “Se quem dirige o Brasil tem cartão corporativo, quem dirige caminhão também deveria ter”. Crente que ia abafar, revelou-a na segunda e última vez que foi ao sindicato. Sonora vaia foi o que recebeu.
Era o que faltava para tomar a decisão de afixar um “vende-se” no pára-brisa. Quem comprasse ganharia uma camiseta, um boné e a toalhinha famosa. Levaria também o “Dirigido por mim. Guiado por Deus”, mais apropriado para a rampa do Palácio do Planalto do que para estradas esburacadas.

Publicado em Nacional, Política

A morte de Jango – um exercício de lógica

17/02/2008 por bonat

Em 1976 os brasileiros receberam, sem comoção, a notícia da morte de João Goulart. Sabia-se que vivia confortavelmente em sua estância na Argentina e não representava perigo para governo algum. A esquerda o considerava um burguês e não queria saber dele.
Decorridos trinta e um anos, ele volta ao palco para interpretar o papel de vítima numa história macabra narrada por Mário Neira Barreto – a fim de assassiná-lo, Geisel manda misturar veneno nos remédios de Jango. Autores de renome não seriam tão criativos.
Barreto, atual hóspede da penitenciária de Charqueadas, não parece capaz de escrever peça alguma. Com algum esforço, talvez consiga repetir o que lhe dizem algumas pessoas, como um dos filhos do ex-presidente, que esteve em sua cela de segurança máxima. Quem também o visitou foi um famoso e esperto articulista carioca, conhecedor do caminho para se chegar aos cofres da viúva.
Analisado com um mínimo de isenção, o roteiro peca pela falta de coerência. Geisel foi bem claro desde os primeiros dias de governo. Por convicções pessoais e religiosas, proclamou ser radicalmente contra perseguições políticas, cassações, torturas e mortes. Ansiava construir os alicerces para o retorno do poder aos civis. Difícil imaginar que mandasse matar alguém, como declarou o senhor Barreto. Muito menos João Goulart, que vivia seu ostracismo político.
O enredo é inconsistente. O único protagonista vivo é Neira Barreto, por isso mesmo guindado à condição de dono da verdade. Ele deve estar ávido para obter algum dinheirinho a fim usufruir quando for posto em liberdade. Pode-se confiar no bico de uma pessoa que resolva abri-lo três décadas depois?
Temporariamente, a história é ilógica. Entretanto, é conveniente ficar atento ao noticiário. Alguma lógica será encontrada no dia em que a imprensa divulgar que a comissão de anistia brindou a família Goulart com uma indenização milionária.
Não me importarei se os autores dessa brilhante obra de ficção ganhem muito dinheiro. Se pudesse, lhes daria um só conselho – tirem Geisel do palco. Ele nunca teve vocação para ator. Muito menos para assassino.

Publicado em Nacional, Política

El guapecón

01/01/2008 por bonat

Por onde ando, no quintal da minha casa, El Guapecón me acompanha. Acompanha e obedece. Na ativa, cheguei a comandar mais de oito mil militares. Hoje, na reserva, apenas El Guapecón cumpre minhas ordens.
Tive seguranças competentes e leais. El Guapecón está longe de ser um segurança competente. Sua única virtude é a lealdade. Até porque, ele sabe que sou eu quem lhe paga a ração. É meu compromisso com ele, além do respeito que lhe dedico.
El Guapecón não é soldado. Mas é calado como um soldado. Tem a sorte de muitos falarem por ele. Ninguém fala pelos soldados. Ninguém os defende, nem o Ministro da Defesa.
Há universidades onde prega-se o menosprezo aos soldados. A El Guapecón, ensina-se a gostar. Mesmo sem saber o que venha a ser Brasil, ele vira herói. Aos soldados, que defendem o Brasil, trata-se como vilões.
El Guapecón, como os padres, não tem mulher. Soldados têm mulher e filhos. Suas mulheres reclamam da falta de dinheiro para o leite, a roupa e a escola das crianças. Mães não aceitam ver seus filhos passarem fome.
A fim de resolver o problema dos soldados, proponho que seja-lhes proibido, como aos padres e a El Guapecón, de se casar.
El Guapecón, meu cão-de- guarda fiel e vira-lata, é castrado. Os soldados não.
Aí, haja pedofilia. É das poucas acusações que faltam impingir aos soldados!

Publicado em Nacional, Política

2008 sem cassetete

01/01/2008 por bonat

Nunca se sabe direito o que nos reserva um ano que inicia. Certeza mesmo, é que em 2008 não conviveremos com a CPMF. Queria ter coragem de confessar-lhe, caro leitor, que sou favorável a essa contribuição. Gostaria até que fosse aumentada para dez porcento, desde que todos os impostos fossem extintos. Solução simples demais, lógica demais, óbvia demais, que não consigo comprovar com meus rudimentares conhecimentos de matemática. É apenas um feeling.
O estrangeirismo feeling aí de cima faz-me lembrar de um amigo que está esperançoso com o novo ano. Chama-se Jackson e odeia tanto seu nome, que se apresenta pelo apelido: “muito prazer, Jajá”. Diz que Jackson não é nome, no que está correto. No idioma inglês, é sobrenome. Tentou várias vezes mudá-lo, todas sem sucesso. Agora suas esperanças renascem. Em 2008, deverá ir a plenário projeto-de-lei que veta estrangeirismos, particularmente em documentos oficiais. Como certidão de nascimento é documento oficial, Jajá não precisará nem de advogado para dela tirar o estrangeiríssimo Jackson.
Apesar da alegria por ver um amigo esperançoso, não deixei de estranhar a idéia de preservar a soberania nacional entre os argumentos do propositor da nova lei. Ora, a soberania nacional é conquistada, entre outras coisas, pelo desenvolvimento científico-tecnológico. Basta lembrar de algumas palavras estrangeiras que já fazem parte do nosso vocabulário: telefone, celular, rádio, televisão, computador, internet, software, hardware. São inventos de sociedades que investem em pesquisa e depois nos exportam os produtos e, logicamente, os nomes. Enquanto isso, nossos legisladores ficam a produzir leis que só servem para comprovar nosso atraso, pelo qual eles são, em grande parte, responsáveis (ou não são?).
A esta altura, Jackson, o Jajá, deve estar perguntando: e como fica o meu nome-sobrenome? Se a lei for aprovada, Jajá será uma das duas razões para ficarmos felizes. A outra dependerá do chamado “espírito da lei”. Se for discriminatória e abranger apenas palavras inglesas, o que é uma tendência da esquerda nacional, tremendamente influenciada pelos filósofos franceses, não haverá outro motivo para comemorar. Mas, se abranger todos os idiomas, a felicidade se estenderá aos arruaceiros que se infiltram nas torcidas organizadas a fim de cometer atos de vandalismo. Contra eles, a polícia não poderá mais usar seus cassetetes. Esse galicismo, que traduzido para o português significa quebra-cabeças, parece ter sido um dos últimos avanços tecnológicos inventado pelos franceses. No mais, eles ficam a criar leis bizarras, que a esquerda brasileira adora copiar.
Aproveito para, enquanto é permitido, enviar a você meus melhores votos de Happy New Year.