Com afeto

 

As lágrimas não esperaram nem o estribilho terminar para virem molhar-me os olhos.  Você pode pensar que seja coisa da idade, mas desde cedo foi assim. O Hino Nacional me arrepia. Porém, somente o da Bandeira teve sempre o poder de me fazer chorar. Talvez pela música de Francisco Braga. Talvez pela poesia de Olavo Bilac. Talvez por ser raro ouvi-lo. O fato é que, mais uma vez, ao meio dia de 19 de novembro deste 2008, tive que me controlar para não passar vexame.

A comemoração é singela. Hasteia-se a Bandeira, lê-se a ordem do dia e, enquanto se entoa o hino, incinera-se algumas bandeiras esgarçadas pelo tempo. É aí que a coisa pega. Quando chega a hora do “recebe o afeto que se encerra”, elas, as lágrimas, chegam mesmo sem terem sido convidadas.

Trinta minutos, não mais, é o que dura a cerimônia. É o tempo certo para se refletir sobre um dos nossos mais marcantes símbolos. Ver suas cores fortes e genuinamente brasileiras. Admirar a proporcionalidade de suas formas. Ler o dístico nela inscrito a fim de nos inspirar. Relembrar sua história. E, por que não, renovar nosso compromisso de amor ao Brasil.

Não faço idéia de como esse dia é comemorado nas escolas. Atualmente parece estar sendo difícil para os professores explicar às crianças os motivos de tanta corrupção, se nosso lema é ordem e progresso.

Ontem mesmo, quando tentava cantar o hino que as lágrimas interromperam, os jornais estampavam manchetes sobre o cumprimento de um Mandado de Busca e Apreensão na casa de um delegado da Polícia Federal. Ao que parece, quando encarregado da chamada Operação Satiagraha, ele acabou desvendando coisas que não deveria. Agora está sendo tratado como um bisbilhoteiro por gente graúda da República.

Quem está se dando bem é um banqueiro, alvo da Satiagraha. Tudo faz crer que ele sabe demais e, por isso mesmo, esteja sendo blindado por pessoas importantes.

A Bandeira, como um espelho, reproduz a nós mesmos, com nossas riquezas e mazelas. Pena que a maioria dos brasileiros não gaste meia hora por ano para reverenciá-la. Pode ser que alguns se comovessem ao ver que nela está representado o maior patrimônio que dispomos: nossa gente, de ontem, de hoje e de sempre. Gente humilde, que espera de quem está no poder menos corrupção, mais ordem e mais progresso.

 

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