Quem matou Eloá?

 

Nelson Piquet declarou certa vez que o campeão estourar champanhe não atrai o grande público. As pessoas querem mesmo é ver um acidente, uma tragédia durante a corrida. Na esperança de assistir a uma tragédia, muita gente acompanhou o seqüestro de Santo André.  Não era para saber se Lindemberg tinha se entregado, mas sim como ele havia matado Eloá Cristina Pimentel da Silva, estudante, quinze anos, moradora da periferia. Poucos torciam pelo Grupo de Ações Táticas Especiais e para que seus policiais resolvessem mais um caso complicado.

A possibilidade de ocorrer um desastre fez com que a mídia estivesse presente. Uma apresentadora, em busca de audiência, chegou a falar ao vivo por telefone com o seqüestrador. Ela devia supor que entrevistar alguém mentalmente perturbado poderia colocar em risco a vida da jovem. Mas considerou o direito à fama mais importante do que o direito à vida. Azar de Eloá que, diga-se de passagem, nunca foi muito ajudada pela sorte. Aos doze anos, menina ainda, começou um namoro com um homem de dezenove. O precoce fim de sua inocência infantil parece ter sido consentido pelos pais. Agora, julgando-se seu proprietário e inconformado com o desprezo, ele tinha voltado para vingar-se.

No corrente ano, o GATE já atendera a dezessete ocorrências. Em doze delas os seqüestradores eram pessoas emocionalmente perturbadas; vinte e quatro foram presos e dois se suicidaram. Quarenta e sete reféns foram libertados. Toda missão representou uma situação de extrema tensão. A de Santo André não seria diferente. Cada policial sabia que um tiro significaria um processo nas costas. Exige-se da policia 100% de eficácia. Considera-se que ela está, por princípio, errada. E, o que é pior, muita gente torce contra. São pessoas que nem chegam perto da confusão, mas estão sempre prontas a dar opiniões. Numa entrevista, alguém apresentado como instrutor da SWAT, apontou os erros do GATE. E indicou, logicamente depois dos fatos, os procedimentos que deveriam ter sido adotados. Não temos que endossar nem desculpar eventuais falhas. É preciso apontá-las para que sejam corrigidas. Mas deve-se tomar cuidado para não confundir ficção com operação real.

“Por que a polícia não atirou em Lindemberg”?  Pense na reação dos chamados formadores de opinião e da turma dos direitos humanos se ele tivesse levado um tiro na testa. Antes de virar filme, seria transformado num ícone. “Tinha ficha limpa e trabalhava. Só foi morto porque era da periferia”.  Com franqueza, já o estou vendo em breve solto por aí, embora se saiba o assassino de Eloá.  Além dele, matou-a a brandura com que nossos legisladores tratam os verdadeiros criminosos.

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