Uma Nação para os quero-queros

Procurou-me um velho amigo para dizer que tinha uma idéia maluca e queria a minha opinião. Ele sabia que, mesmo sem me considerar maluco, adoro idéias malucas.

Perguntou-me o amigo se eu lembrava do triste ocorrido num jogo entre Coritiba e Palmeiras, com um dos quero-queros que moram no Alto da Glória. Claro que eu lembrava. Foi coisa de louco (ou maluco!). A bola, como um meteoro, caiu sobre a pobre ave, que virou capa de revista.

Quero-quero é um animal esperto. Está sempre alerta. Seu campo de visão é de 360 graus. O que foi atingido observava atentamente as quarenta e seis pernas (não se esqueça do árbitro) que o ameaçavam por todos os lados. Entretanto, não conseguiu detectar a ameaça, esta sem pernas porque era bola, que vinha do alto. Acabou estatelado no gramado.

Questionou-me o amigo se eu sabia que há quero-queros em outros estádios. Claro que sim. Eles estão no Beira-Rio, Morumbi, Mineirão, até no Maracanã. Indagou se eu gostaria de fazer alguma coisa para afastá-los das pernas peludas que os amedrontam em centenas de campos de futebol e levá-los de volta ao seu habitat original. “Sensacional!”, respondi com entusiasmo.

Expôs então sua maluca idéia: já que inventaram a Nação Ianomâmi, vamos criar a Nação Quero-Quero. Nesta altura da conversa, senti que chegara a minha vez de fazer perguntas. Incrível como ele tinha prontas todas as respostas.

Onde ficaria tal nação? Como o acidente ocorreu no Paraná, este Estado pagará pelo crime. A metade oeste do seu território será dos quero-queros, seus verdadeiros donos desde os tempos pré-cabralinos. E as pessoas que ali trabalham na agricultura, na indústria, em Itaipu? Terão que sair. Quem se recusar, será removido pela Polícia Federal. E as instalações do Exército, Marinha e Força Aérea?  ONGs de Roraima ficaram de mandar alguns assessores com experiência no assunto.

E os quero-queros paraguaios? O governo recém-empossado quer a saída dos brasiguaios. Sairão eles e entrarão os quero-queros. Assim, a nação abrangerá terras de dois países. Quem poderia entrar na área? Bastará ser fluente em inglês, francês, holandês ou alemão. Nosso governo concordaria? Alguns ministros já se declararam simpáticos à causa. E se te internarem num hospício? Denunciarei à ONU.

Estava quase me tornando um ferrenho defensor da Nação Quero-Quero, quando resolvi fazer a última pergunta: “E os brasileiros?”. Ao responder-me com outra pergunta – “Que brasileiros?” - perdeu um novo aliado e o amigo velho.

 

 

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