Guerra no Cáucaso

O que a Rússia tem de grande, também tem de gelada. É possível que isso tenha tornado seus filhos igualmente frios diante da morte. Recebem-na com resignação. Mas, é lógico, preferem que venha para buscar primeiro os outros. Só quem não pode morrer é a “Grande Mãe Rússia”.
Eles sempre olharam com desconfiança os europeus que, historicamente, ficaram à espreita para, na primeira oportunidade, raptar-lhes as lindas mulheres e roubar-lhes os recursos naturais.
Durante a Guerra Fria, o Pacto de Varsóvia serviu-lhes de escudo contra a improvável reencarnação de Napoleão ou Hitler. O gelo, que ajudara a derrotá-los, não foi o único a expulsar os invasores. O destemor do combatente russo diante da morte fora fundamental em meio à tragédia representada por milhões de corpos insepultos.
Ao Sul, outros governos foram forçados a aderir ao Pacto. Ai de quem se negasse. Mas por quê, se os europeus de Napoleão e Hitler estavam a Oeste? Porque, para infortúnio de seus povos, países como a Geórgia ficam no caminho dos mares quentes.
A dificuldade para exportar representou um constante gargalo para a economia russa. Para se chegar a Vladivostok, no Mar do Japão, leva-se vários dias sobre os 9.289 quilômetros de trilhos da Transiberiana. Ao Norte, os portos são deseixados das principais rotas comerciais e tornam-se quase impraticáveis durante os rigorosos invernos. Resta-lhes o Sul.
Quando a imprensa começou a noticiar o início do conflito, foi preciso abrir o atlas para ver onde ficava a minúscula Geórgia. Quanto à Rússia, todos já sabiam serem necessários os mapas de dois continentes para vê-la espalhar-se largamente de leste a oeste.
Fixando a atenção apenas nos dois países em guerra, tem-se a imagem de um gigante sendo carregado nas costas por um anão. Deve ter sido essa a intenção de quem, ao rabiscar os primeiros mapas-mundi, convencionou que o Norte ficaria na parte de cima.
As duas mil vidas perdidas em Odisséia do Norte não pesarão na consciência russa. Com a invasão, Moscou quis mostrar quem ainda manda no Cáucaso e, em conseqüência, nos dutos que o atravessam e asseguram o escoamento de um de seus principais produtos de exportação: o petróleo. Mais uma vez, o petróleo!

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