Fogo amigo atinge Obama

 

Escrevi tempos atrás que as charges substituem muitas palavras, com a vantagem de serem mais simpáticas. Disse que contam a história de um país. Por isso afirmei (e continuo acreditando) que os chargistas merecem tornar-se famosos e ricos. Porém, assim como há Militares e militares, Advogados e advogados, Médicos e médicos, existem Chargistas e chargistas.

Parece que o da New Yorker é um chargista com “c” minúsculo. Se sua revista é pró Barack Obama, se o próprio chargista diz que o apóia, se uma charge vale milhares de palavras, ele deveria perder seu emprego. Se fosse eu o seu patrão, estaria despedido. Mandar-lhe-ia estudar e aprender a escrever, para ver como é difícil convencer as pessoas usando argumentos no lugar de desenhos.

O cartum estampado na capa da New Yorker mostra a mulher do senador-candidato vestida como terrorista saudando, com punhos cerrados, o marido com vestes muçulmanas. Ao fundo, observa-se a bandeira americana em chamas na lareira. Na parede, há um retrato de Osama Bin Laden. A idéia que transmite é de que Obama não é um patriota, tudo o que qualquer americano odeia. Ser antipatriota, queimar a bandeira, cultuar Bin Laden, vestir-se de terrorista. Você olha e é isso o que vê. Pois essa foi a imagem que se espalhou via Internet por todo o país.

Foi óbvio o desconforto do comitê de campanha do senador. A revista teve que explicar que o desenho era uma sátira aos adversários de Obama. Ora, charge que se preze não precisa de explicação. Ela dispensa, porque as substitui, palavras. Nos estados americanos culturalmente e politicamente mais desenvolvidos (lá também tem disso) é possível que as pessoas leiam e compreendam as razões da revista. Mas, no interiorzão (lá também tem disso), a mensagem que vai prevalecer é a do desenho. Não é demais lembrar que foi ali que George W. Bush ganhou o último pleito.

A possível eleição do senhor Barack serviria para demonstrar o vigor da democracia norte-americana. Milhões de americanos, até os WASP (brancos, anglo-saxões e protestantes), gostariam que isso acontecesse. Entretanto, as pesquisas revelam que a diferença pró Obama, que era de 15 pontos (51 para 36%) em 20 de junho, baixou para apenas três pontos (44 para 41%) nos últimos dias. O efeito “cartum” poderá causar ainda mais estrago.

A charge, concebida por quem se diz seu amigo, atingiu-o como uma bala perdida. Será que ele sobreviverá a esse “fogo mui amigo”?

 

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