As FARC e seus reféns

Imagina-te gravemente enfermo, vivendo anos a fio numa floresta quente e úmida como refém de pessoas que não te deixam ser medicado. E, o mais grave, que presidentes de países vizinhos usem teu sofrimento para se promover. É o que acontece com Ingrid Bettancourt. Por acreditar na democracia e candidatar-se à presidência da Colômbia, acabou condenada pelas Farc.

O pecado colombiano foi não ter cortado a raiz da sua “guerrilha do Araguaia”. Acreditou que guerrilheiros pudessem ansiar por democracia. Chegaram a dominar quase quarenta por cento do país.

Mutatis mutandis, se as ossadas do Araguaia, intensamente procuradas, tivessem sido ressuscitadas e reproduzidas aos milhares, nosso vice-presidente, José Alencar, poderia ser hoje refém das Farc brasileiras. Elas teriam o apoio de Chávez e de Fidel. Nosso vice, com câncer, coitado, não poderia se tratar no Hospital Sírio-Libanês. Estaria com os dias contados e sofreria muito antes de morrer. Além dele, mais de setecentos brasileiros estariam na mesma floresta, alguns doentes, padecendo sob a mira dos seus algozes.

Se as ossadas do Araguaia, hipoteticamente revividas e multiplicadas, se refugiassem em outro país, nosso presidente pouco poderia fazer. Mas, corajoso como é, tentaria salvar Alencar, nem que para isso tivesse que entrar em território estrangeiro. Foi o que fez o presidente da Colômbia.

Rafael Corrêa sabia que havia bases de guerrilha em seu país. Claro que sabia. Sabia e concordava. Depois deu uma de nacionalista, embora não o tenha sido quando guerrilheiros colombianos, fortemente armados, invadiram o Equador.

Não demorou muito para aqueles que gostam de cadáveres saíssem às ruas. Hugo Chávez foi o primeiro. Era tudo que precisava. Ao armar-se até os dentes, sob o argumento de defender-se dos Estados Unidos, seu alvo era a democracia colombiana. Junte-se a necessidade de o mandatário venezuelano reverter a tendência de queda de sua popularidade e temos os ingredientes de uma receita apreciada pelos caudilhos.

A dubiedade com que o Itamaraty se posicionou deu a entender que estava ao lado dos guerrilheiros. Trafegou assim na contra-mão de uma estrada historicamente humanitária. Ainda mais dúbio, para não dizer falso, do que a posição brasileira foi o aperto de mão de Chávez, Corrêa e Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, ao término da 20ª Cúpula do Rio.  Pelo visto, setecentos reféns não conseguem sensibilizar ninguém.

 

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