Vendo caminhão. Não aceito cartão corporativo.

Se o horário oficial é o de Brasília, por que a gente tem que trabalhar de segunda a sexta? Carioca nem liga mais pra bala perdida: entra por um ouvido e sai pelo outro. Bino recebeu por e-mail essas frases de pára-choque de caminhão. Mostrou à mulher e aproveitou para revelar um sonho de criança: ser caminhoneiro. Convenceu-a que deveriam aplicar o dinheiro do fundo de garantia na aquisição de uma carreta. Comprou uma de segunda mão.

“Dirigido por mim. Guiado por Deus”, estava escrito em sua traseira. É a frase campeã das estradas. Quase um clichê. Por isso queria mudá-la. Foi o primeiro problema. Pediu sugestão à família. Nada, além da recomendação de não falar mal de sogra, outra preferida dos motoristas. Desafio, também, foi alterar sua carta de habilitação, o que só conseguiu na terceira tentativa.

Como precisava se integrar aos seus novos companheiros, compareceu à reunião do sindicato. Olharam-no com desconfiança. Perceberam que não tinha pinta de caminhoneiro. Para melhorar sua imagem, Bino comprou uma camiseta, um boné e aquela toalhinha que é a marca registrada da categoria. Suas múltiplas utilidades vão desde enxugar o suor do rosto até limpar a vareta do óleo. Mesmo assim, não conseguiu se enturmar.

O problema da frase continuava a atormentá-lo. Sem ela, o caminhão parecia estar nu. Só faria o primeiro carreto quando bolasse alguma. Na busca de inspiração, foi à garagem de uma transportadora. “Se for dirigir, não beba. Se for beber, me chama”. “Se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar”. “Cabelo ruim é que nem assaltante: ou tá armado ou tá preso”. Não era bem o que procurava.

Depois de muito matutar, achou a solução: “Se quem dirige o Brasil tem cartão corporativo, quem dirige caminhão também devia ter”. Crente que ia abafar, revelou-a na segunda e última vez que foi ao sindicato. Sonora vaia foi o que recebeu.

Era o que faltava para tomar a decisão de afixar um “vende-se” no pára-brisa. Quem comprasse ganharia uma camiseta, um boné e a toalhinha famosa. Levaria, também, o “Dirigido por mim. Guiado por Deus”, mais apropriado para a rampa do Palácio do Planalto do que para estradas esburacadas.

 

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