Um país surrealista

O Brasil é surrealista. Não acredita? Você conhece algum lugar em que um carro usado seja mais caro do que um novo? Se ainda não era nascido, saiba que aqui, no início dos anos noventa, um seminovo chegou a custar mais do que um zero.
Nosso surrealismo está também no fato de brasileiros não poderem circular livremente numa reserva em que índios falam francês e estrangeiros sentem-se em casa. Parece que contagiamos inclusive as ONGs forasteiras. Não há nenhuma ajudando os dez milhões de nordestinos vítimas da seca. Em compensação, trezentos e cinqüenta delas estão na Amazônia cuidando de apenas duzentos e trinta mil índios, que não passam sede nem fome.
Nem a Igreja escapou de nossa vocação para Salvador Dalí. Você conhece a posição dela contra o aborto, o uso de anticoncepcionais, a pena de morte e a eutanásia. Tudo em defesa da vida. Logo, não dá para entender que um representante seu faça greve de fome. O bispo de Barra/BA está na segunda. Se levar a sério, ele cometerá suicídio. Como ficamos nós, os leigos? Devemos acreditar no direito à vida ou ao aborto?
As razões do religioso devem ser fortes. Ele considera mais importante a revitalização do Velho Chico do que a transposição de suas águas. Prioriza os ribeirinhos de sua diocese e discrimina a população do semi-árido. Cristo, ao multiplicar e distribuir pão e vinho, deixou uma lição que seria bem aplicada neste caso. Deve faltar muita coisa para os ribeirinhos do bispo. Mas água não. Desviar uma diminuta parte de seu volume, a fim de aplacar a sede dos sertanejos do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, parece mais sensato e cristão.
O Embaixador Mário Gibson Barbosa, recentemente falecido, deixou um exemplo de visão estratégica. Pernambucano de Olinda, ele foi um dos principais artífices do tratado binacional que viabilizou o maior empreendimento hidrelétrico do mundo. A força de suas idéias, valores e ideais foi essencial para que se concretizasse aquilo que para seus contemporâneos parecia utópico, megalomaníaco e irrealizável. Projeto muito criticado na época, hoje não se consegue imaginar o Brasil sem Itaipu.
Espero que o governo Lula tenha a mesma visão e conquiste seu lugar na história, resolvendo o secular problema social e humano nordestino. Nem que para isso tenha que contrariar o Papa. Por falar em papa, nosso país é tão surrealista que, por estas bandas, acredito que Dalí, o papa do surrealismo, seria matriculado no jardim da infância.

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