O capitão de Fidel

Sou um ledor assíduo. De bulas a livros, leio de tudo. Mas, nos jornais, quando não disponho de tempo, vou direto às charges. Elas têm mais poder que as palavras. Contam a história de um país. No mundo todo, tornam políticos desonestos, os preferidos dos chargistas, mais humanos, simpáticos até. Nos divertimos com charges dos malufes, anões do orçamento, delúbios, mensaleiros, presidentes e seus irmãos, e outros mais. Acabamos esquecendo do mal que fizeram. Num país de analfabetos, periga virarem heróis. É justo chargistas ficarem famosos e ricos.
A última coisa que procuro num jornal é o retrato falado. É muito grotesco e, na maioria das vezes, deturpa a realidade. Apesar dos modernos e sofisticados recursos existentes, o criminoso dorme tranqüilo. Aquele retrato pode ser de milhões de pessoas, inclusive o dele.
Veja como isso é verdade. Imagine ter existido um capitão (chamemo-lo de Acramal) que tenha desertado, roubado armas, assaltado, assassinado a sangue frio, seqüestrado, cometido enfim toda sorte de crimes, até ser morto de armas em punho. Que antes disso, ele tenha mandado sua mulher e filhos para a Ilha do “Comandante” a quem obedeciam. Ele cuidaria deles. Em troca, Acramal se comprometeria a lutar para implantar no seu país um regime totalitário, idêntico ao da Ilha. Suponha esta história contada por chargistas. Acramal viraria herói. Tempos depois, uma tal comissão de anistia concederia à sua família uma bela indenização e, à viúva, vencimentos de general.
Imagine, agora, a história dos irmãos de farda do ex-capitão, aqueles que se mantiveram leais ao seu país, ao seu exército e ao seu povo, transmitida num retrato falado. O resultado seria a anti-imagem: grotescos, antipáticos, violentos, selvagens, cruéis e tudo de abominável que se possa conceber. Simplesmente irreconhecíveis, passariam a ser os grandes vilões.
Gostaria que este fosse um caso hipotético. Mas é real. Não sei o que você pensa a respeito. Pode ser que concorde com o uso de dinheiro público para sustentar famílias como a de Acramal. Afinal, existem mais trinta mil pessoas com história semelhante, com as quais o Brasil gasta cerca de um bilhão por ano. Aplicar tamanho recurso em saúde, educação e segurança, talvez fosse mais conveniente.
Para mim, o sustento dessa turma deveria caber a “El Comandante”, para quem prestaram relevantes serviços. Até porque, dizem que ele é um dos homens mais ricos do mundo. É possível.

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