A esperança está no gelo

Segundo os chineses, um homem nunca se banha no mesmo rio. O homem nunca é o mesmo. O rio, também, nunca é o mesmo. Isso é igualmente válido para as palavras. Elas, da mesma forma que águas e humanos, são mutantes. Com o tempo, adquirem novos significados.
“Enquanto houver gelo, haverá esperança”. Sob essa frase na parede de sua churrasqueira, quando servi no Guarujá, Carlos Borges Cano reunia seus amigos. Existia algo de verdade nas bem-humoradas palavras. Depois do primeiro gole que o gelo resfriara, ficávamos tão inteligentes que encontrávamos solução para os mais graves problemas do Brasil e do mundo.
Um dos temas que não abordamos naquelas reuniões foi o aquecimento global. Não pela preconceituosa razão do ilustre deputado Paulo Pereira da Silva de que “meio-ambiente era coisa de veado”. Não o discutíamos, simplesmente, por não fazer parte das preocupações de então. Quando o Carlos nos reunir novamente em sua churrasqueira, perceberemos que a frase da parede admite outra leitura: a de que, enquanto as geleiras dos Pólos se mantiverem intactas, haverá esperança para a humanidade.
Relatório recente da ONU trouxe à tona o problema. Em Bangcoc, no último painel sobre mudanças climáticas, o Brasil foi até elogiado. Temo que, por isso, venhamos a ser enrolados na bandeira e resolvamos, ingenuamente, pagar o pato sozinhos. Não devemos esquecer de quem mais contribui para o efeito estufa: EUA, China e Europa. É preciso lembrar que a América do Sul detém 41,4% das florestas mundiais, contra 0,1% da Europa, 3,4% da África e 5,5% da Ásia. Por termos preservado, os que sempre desmataram, volta e meia, querem nos punir, ameaçando o nosso crescimento.
Seria o caso de se questionar ONGs como Greenpeace e WWF sobre o porquê de elas não terem ainda lançado uma campanha para o reflorestamento da Europa com o mesmo vigor com que se empenham na Amazônia. Enquanto buscassem explicações para a ambigüidade de sua atuação, teríamos tempo para encontrar soluções brasileiras no sentido de continuarmos a participar do esforço para conter o aquecimento global.
Como ponto de partida, deveríamos levar em conta que o Brasil precisa de energia para se desenvolver. Até o IBAMA sabe disso. Como órgão do governo, ele tem o dever de buscar saídas para a questão de gerar energia com impacto ambiental mínimo. Parece simples, desde que o IBAMA se posicione como parte da solução e não, como às vezes o faz, parte do problema.
Outro ponto a ser considerado, falando-se especificamente da Amazônia, seria o desenvolvimento sustentável. Neste caso, deve-se partir do princípio de que não há soluções, se não se colocar, no centro de tudo, os milhões de brasileiros que têm a natureza como única fonte de sobrevivência. A criação de vários centros de pesquisa, com a participação do IBAMA, da EMBRAPA, de outros órgãos e, essencialmente, da sabedoria dos habitantes da floresta, mostra-se recomendável na busca de soluções locais que contemplem a proteção ambiental e o desenvolvimento.
Finalmente, para as demais regiões do país, seria necessária uma ação pro-ativa no sentido de se levar a cabo uma vigorosa campanha de reflorestamento. Nos estados do Sul, por exemplo, que já foram um extenso pinheiral, governos e sociedade bem que poderiam incentivar as pessoas a plantar araucárias. Ainda há muito espaço para isso. Cadê o Partido Verde?
Equacionadas essas questões, quando as ONGs voltassem com a resposta à nossa pergunta, veríamos que sua ausência teria preenchido uma grande lacuna. Ontém, como hoje, elas têm muito menos a ensinar do que a aprender conosco. Ou não têm humildade suficiente para reconhecer essa realidade, ou seus interesses vão além (ou aquém?) de simplesmente salvar o planeta.

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