O arrependimento dos controladores

Eu imaginava que a propalada desmilitarização do controle do tráfego aéreo era idéia de civis. O recente pedido de desculpas dos controladores, para minha decepção, revelou ter sido coisa de militares. Acredito que foram contaminados pelo tal Botelho, espécie de vivandeira dos ares que vive a rondar cindactas e aeroportos, acenando com bálsamos milagrosos para amenizar o sofrimento da caserna.
Há séculos que hierarquia e disciplina constituem princípios basilares de forças armadas. Os romanos já sabiam disso. Rompê-las transformaria suas legiões em bandos armados, com imprevisíveis resultados. A rebelião de 30 de março último acendeu o sinal de alerta. Os amotinados eram, acima de qualquer consideração, militares.
A escala de serviço apertada foi uma das alegações. Se isso fosse verdadeiro, não sobraria tempo para engendrar um movimento de abrangência nacional, com sérios prejuízos para a população, a economia e a imagem do país.
Outro argumento era o baixo salário, menor até que dos civis que exercem a mesma função. Ora, ganhar pouco não é “privilégio” dos controladores. É de todos os militares.
Parece que, na ociosidade, eles puderam refletir sobre a necessidade de uma retribuição mais justa entre os componentes do serviço público nos três poderes. Há lógica nisso, pois existem tremendas distorções no governo, aí compreendidos o executivo, o legislativo e o judiciário.
O vencimento de um juiz em início de carreira é maior do que o do Presidente da República e dos Ministros. Recebem mais que o dobro do que qualificados servidores do executivo, com mais de quarenta anos de serviço. Senadores e deputados, somando-se todas as vantagens, ganham acima de cem mil por mês. Afora isso, leis elevam o teto remuneratório ao bel-prazer de quem as cria e de quem as interpreta; funções e cargos são inventados para acomodar aliados e companheiros de partido; gasta-se mais de um bilhão por ano com anistiados políticos, sem que ninguém explique exatamente à população por que fazem jus a tantas benesses.
Não é de hoje que almirantes, generais e brigadeiros tentam convencer seus subordinados que os militares ganham mal porque existem necessidades mais prementes nas áreas da saúde, educação, infra-estrutura e desenvolvimento. Os controladores constataram, durante o seu ócio, que a realidade não é bem essa. Mesmo assim, não se pode concordar com sua aquartelada.
Furtivamente, nas noites de Brasília, deve haver alguém além do senhor Botelho a lhes prometer vantagens. Essa pessoa precisa saber da inconveniência de se conceder possíveis benefícios apenas à parcela dos militares. Muitos outros cumprem tarefas mais árduas, importantes e com risco de vida.
Desconfio do tardio “arrependimento”. Tenho a impressão de ser uma tentativa de iludir o Ministério Público Militar. Quem descumpre com o solene compromisso de defender o Brasil e faz brasileiros de reféns não honrará outras promessas. Deixo um conselho aos líderes da rebelião. Peçam demissão. Desmilitarizem-se já! Vocês podem contaminar as legiões. Melhor não fazê-lo.

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