Mercadinho de bairro

Perto da nossa casa sempre há um mercadinho que vende de tudo um pouco. É careiro, mas nele encontramos o que precisamos em situações de emergência. Adquirimos também artigos não-emergenciais, só para dar uma força ao seu proprietário, normalmente um sujeito simpático e que, afinal de contas, vive em nosso bairro. Entretanto, por economia, fazemos as grandes compras num hipermercado, normalmente afastado de onde moramos.
O perigo surge quando, por termos alguma afinidade com o vizinho – torcemos para o mesmo time, freqüentamos a mesma igreja ou somos do mesmo partido – resolvemos comprar tudo dele. Ao substituir a razão por fanatismo (futebolístico, religioso ou ideológico), corremos o risco de ver nosso orçamento ir para o espaço. Trocaremos o sustento dos nossos filhos pelo dos dono do mercadinho. Nossa família empobrecerá. E nem por isso ele ficará rico. Para negociar é preciso bom-senso e inteligência. Comércio não combina com ideologia, pois todo fanatismo emburrece e embrutece as pessoas.
Escrevo essas obviedades para afirmar que concordo com as posições do embaixador Roberto Abdenur publicadas na revista Veja e agora confirmadas em seu depoimento no Congresso Nacional. Li a entrevista com toda a atenção que merece uma pessoa que aprendi a admirar nos dois anos que servi sob sua orientação em nossa embaixada em Washington. Inteligente, culto, experiente, sempre levou o Brasil muito a sério e foi incansável na tarefa de promover e defender intransigentemente os interesses do nosso país. De suas palavras, deduzi que o Brasil deixou de ir ao hiperpermercado para comercializar só com o armazém da esquina.
O fato é que temos extrapolado nossa quota de generosidades para alguns vizinhos. Se é verdadeiro o argumento de que é para salvar o Mercosul, então por que aceitamos sem negociação prévia a incorporação da Venezuela a um bloco que tem por um dos princípios a democracia? Apenas pela razão de Hugo Chávez – como se fosse exclusividade sua – não gostar dos americanos?
Tão ou mais antiamericano do que Chávez é o Partido Comunista Chinês. Mesmo assim, onde se vá nos EUA, encontra-se produtos “made in China”. Em prol do seu povo, o governo chinês passou do fanatismo ideológico para o pragmatismo econômico.
No seu próximo encontro com Bush, o presidente Lula terá uma ótima oportunidade de usar o seu carisma para aumentar nossa participação num mercado de dois trilhões de dólares. É desnecessário repetir que o Brasil é contra a guerra do Iraque. Todos já sabem. É preciso, isto sim, dizer que estamos abertos para negociar nossa contribuição com o esforço norte-americano no sentido de diminuir sua dependência do petróleo e, principalmente, reduzir sua participação na poluição do planeta. Tudo isso, claro, se eles estiverem dispostos a pagar um preço justo, no qual poderá estar incluída a abertura do seu atraente mercado para outros produtos “made in Brazil”.
Maquiavelicamente, nosso presidente bem que poderia assoprar no ouvido de Bush: “Se der certo, murcharemos um pouco a bola do Chávez, o dono do posto de gasolina do bairro, que anda cheia demais. O Mercosul nos agradeceria”.

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