Secos e molhados

Há dias em que estamos mais para secos do que para molhados. Confesso estar assim há algum tempo. A transição do ano velho para o novo 2007 trouxe-me tantas preocupações, que acabou secando minha fonte de inspiração para transmitir, como gostaria, uma mensagem de otimismo. Notícias tornaram-me incrédulo em relação ao futuro dos nossos filhos e netos. Autoridades do Judiciário e do Legislativo tentaram furar o teto salarial com sua lança antiética, autoconcedendo-se um gordo presente de Natal. Teriam conseguido, não fossem os protestos da imprensa e parte da sociedade.
Ainda no final de 2006, foi divulgado o vídeo de uma brasileira fazendo sexo em praia espanhola. Mesmo estando em local público e, portanto, cometendo um crime, a celebridade entrou na justiça para impedir sua divulgação. Sou do tempo em que o sonho de todo adolescente era ter a primeira noite com uma francesa. Os franceses, sabiamente, passaram o troféu para as brasileiras. Hoje, aconselha-se às nossas compatriotas que, ao viajarem para o exterior, ocultem sua nacionalidade. Senão, logo receberão uma cantada.
O carnaval se aproxima. Nossa mais poderosa rede de tevê, em suas chamadas para a festa, tem exposto o bumbum de loiras e mulatas, verdadeiro convite ao turismo sexual. Mais tarde, a mesma rede mostrar-se-á hipocritamente preocupada com a vinda de estrangeiros em busca de sexo barato em nosso litoral. O Big Brother, símbolo do nosso atraso intelectual e moral, continua em alta. Os apagões aéreo e rodoviário (sem falar no ferroviário, já crônico) prenunciam a inviabilidade de nossa expansão. O energético só espera a economia crescer para se manifestar. O “socialismo o muerte” de Hugo Chávez nos arremessa a um retrógrado passado de violência. “Muerte“ de quem? Por certo, o senhor Chávez, com tanto poder e a riqueza dos petrodólares, não pensa partir tão cedo. Então, que se cuidem seus adversários. Se, além de parodiar, ele pretende imitar o “Comandante”, deve estar imaginando instituir o “paredón” venezuelano.
Uma boa notícia poderia ter-nos alegrado: o Cow Parede, evento realizado em Curitiba a fim de arrecadar recursos para instituições de apoio à criança. Trata-se de idéia surgida em Zurique e repetida mundo afora. Boas idéias devem ser imitadas. No Brasil, as populações de Belo Horizonte e São Paulo já haviam se deliciado com as simpáticas vaquinhas. Mas não é que na minha Curitiba, famosa por ser ordeira e civilizada, algumas das acrílicas mimosas viriam a sofrer atos de vandalismo! Não esqueçamos de que o gado é dos animais mais globalizados, que nos fornece o leite e o tão apreciado churrasco. Podia estar aí o primeiro indício sobre o autor do crime: um vegetariano, pista logo descartada ao lembrarmos que, por razões óbvias, vacas também são contra o consumo de carne vermelha. Descobrir quem danificou as obras de arte não é o mais importante. O grave no caso é a revelação de como estamos regredindo moral e socialmente.
Todo esse quadro econômico, político e, principalmente, ético e moral, torna-me cético quanto ao futuro. Há soluções. Espero que pessoas responsáveis logo as encontrem. Caso contrário, o velho comércio de secos e molhados vai virar um “armazém de secos”.

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