Artigos de 2007

Um país surrealista

04/12/2007 por bonat

O Brasil é surrealista. Não acredita? Você conhece algum lugar em que um carro usado seja mais caro do que um novo? Se ainda não era nascido, saiba que aqui, no início dos anos noventa, um seminovo chegou a custar mais do que um zero.
Nosso surrealismo está também no fato de brasileiros não poderem circular livremente numa reserva em que índios falam francês e estrangeiros sentem-se em casa. Parece que contagiamos inclusive as ONGs forasteiras. Não há nenhuma ajudando os dez milhões de nordestinos vítimas da seca. Em compensação, trezentos e cinqüenta delas estão na Amazônia cuidando de apenas duzentos e trinta mil índios, que não passam sede nem fome.
Nem a Igreja escapou de nossa vocação para Salvador Dalí. Você conhece a posição dela contra o aborto, o uso de anticoncepcionais, a pena de morte e a eutanásia. Tudo em defesa da vida. Logo, não dá para entender que um representante seu faça greve de fome. O bispo de Barra/BA está na segunda. Se levar a sério, ele cometerá suicídio. Como ficamos nós, os leigos? Devemos acreditar no direito à vida ou ao aborto?
As razões do religioso devem ser fortes. Ele considera mais importante a revitalização do Velho Chico do que a transposição de suas águas. Prioriza os ribeirinhos de sua diocese e discrimina a população do semi-árido. Cristo, ao multiplicar e distribuir pão e vinho, deixou uma lição que seria bem aplicada neste caso. Deve faltar muita coisa para os ribeirinhos do bispo. Mas água não. Desviar uma diminuta parte de seu volume, a fim de aplacar a sede dos sertanejos do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, parece mais sensato e cristão.
O Embaixador Mário Gibson Barbosa, recentemente falecido, deixou um exemplo de visão estratégica. Pernambucano de Olinda, ele foi um dos principais artífices do tratado binacional que viabilizou o maior empreendimento hidrelétrico do mundo. A força de suas idéias, valores e ideais foi essencial para que se concretizasse aquilo que para seus contemporâneos parecia utópico, megalomaníaco e irrealizável. Projeto muito criticado na época, hoje não se consegue imaginar o Brasil sem Itaipu.
Espero que o governo Lula tenha a mesma visão e conquiste seu lugar na história, resolvendo o secular problema social e humano nordestino. Nem que para isso tenha que contrariar o Papa. Por falar em papa, nosso país é tão surrealista que, por estas bandas, acredito que Dalí, o papa do surrealismo, seria matriculado no jardim da infância.

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Carta para Evo

07/11/2007 por bonat

Caro Presidente Morales.
Espero que esta o encontre com saúde, para que possa continuar exercendo, com toda a energia que dispõe, a sua liderança.
Por aqui, tudo como dantes. A novidade fica por conta do lançamento do filme Tropa de Elite. É sensacional. Recomendo-o ao amigo. Porém, devo avisá-lo de que o chefão do tráfico morre no final. Se quiser, mando uma cópia (serve pirata?).
Soube que o presidente Lula vai visitá-lo. Levando em conta a amizade entre vocês, nascida nos bons tempos do Foro de São Paulo, bastaria um telefonema. Seria mais barato. Mas não se preocupe. Não vai sair do bolso dele.
Acredito que pretenda recebê-lo com toda a fidalguia. Para não cometer nenhuma gafe, aconselho-o a não falar sobre futebol. A diretoria do Corinthians, time do nosso presidente, envolveu-se numa confusão danada e foi demitida. Dizem que foi corrupção. Você sabe muito bem como ele odeia esse tipo de assunto.
Sabia que Bush andou por aqui? Veio conversar sobre biocombustíveis. Fidel ficou com ciúme. Foi logo dizendo que vai faltar comida. Você não acha que o Comandante anda meio caduco? Ele pensa que o Brasil é do tamanho da Ilha? Se tiver chance, diga-lhe que ando preocupado. Recebi umas fotos de Cuba. Achei algumas pessoas magras demais. Será que não estava na hora de plantarem mais batata no lugar de fumo para seus famosos charutos? Agora, se os raquíticos das fotos não forem filiados ao partido, tudo bem.
Mas, voltando ao Brasil, parece que o pessoal do Rio e São Paulo anda meio chateado. Está faltando gás. Cá entre nós, quem mandou os taxistas converterem o motor dos seus carros? E os empresários então? Só para economizar, a classe dominante investiu em usinas à gás. Bem feito para eles.
Aliás, é sobre o fornecimento de gás que nosso presidente vai conversar com o amigo. Good news! Parece que há intenção de investir de novo na Bolívia. Como não é bobo, sei que você vai topar. Depois, é só mandar o exército tomar conta.
E aí, como andam as coisas? Os venezuelanos estão cuidando bem das nossas refinarias que você… digamos, usurpou? Parece que tudo o que você, Fidel, Lula, e Chávez combinaram no Foro de São Paulo está dando certo. Que bom!
Último alerta ao amigo. Se a cumpanherada que está na direção da Petrobras for competente e tiver vontade, logo, logo estaremos produzindo o gás que necessitamos. Imagine se isso acontecer? O que você fará com o seu gás? Aborde isso com o Lula.
Saudações Bolivarianas.

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Os burgueses do MST

27/09/2007 por bonat

“Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. Até que, um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E, porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada” (Do poema “No caminho com Maiakovski”, de Eduardo Alves da Costa).
É provável que, nos dias de hoje, nosso poeta fluminense escrevesse: “Primeiro, invadem fazendas. Mas você não diz nada. Você não é fazendeiro. Em seguida, em Porto Alegre, degolam um soldado da Brigada Militar. Você se cala, pois não é brigadiano. Mais tarde, bloqueiam rodovias. Novamente você não se importa. Afinal, não usa aquela estrada. Aí, passam a saquear caminhões. Não lhe interessa. Você não é caminhoneiro. Depois, invadem e depredam o Congresso. Você, que não é deputado, quase aplaude. Se um dia invadirem sua casa e dela o expulsarem, já será tarde. Ninguém se importará com você. Porque não disse nada, já não poderá dizer nada”.
No último dia 25 teve início outra Jornada Nacional de Lutas do MST. Mais uma vez, a população anestesiada vira refém de bloqueio de estradas, invasão de cidades e ocupação de prédios. Ninguém questiona que o MST use recursos públicos para realizar tamanha mobilização e receba dinheiro do governo para protestar contra o próprio governo e infernizar a vida das pessoas.
Um amigo muito espirituoso disse-me ser a favor da reforma agrária, desde que todo assentado, além da terra, receba um japonês para cultivá-la. Brincadeiras à parte, acredito que 90% dos brasileiros, entre os quais me incluo, são favoráveis à reforma agrária. O que não consigo é concordar com a violência nem com a pregação da luta de classes à qual, segundo matérias da imprensa, são submetidos os “sem-terrinha”.
Uma liderança declarou que um dos objetivos da recente Jornada é protestar contra a política de Lula que visa produzir álcool para abastecer os “carros da burguesia”. Acredito que, na lógica do ódio da doutrinação revolucionária, exista uma gradação. É quase certo que o termo “burguesia” seja empregado somente por quem já ostenta o título de “doutor”.
O que preocupa é desconfiar que alguns “doutores” do movimento estejam incluídos nos 10% de brasileiros que não anseiam pela reforma agrária. Seus objetivos são outros. No mínimo, garantir o bom emprego de dirigente do MST, cargo que não impõe prestar contas a qualquer órgão oficial. A maioria tem casa própria, já ganhou sua terra e até carro possui. É válido imaginar serem burgueses como você, caro e motorizado leitor. O que fazem então no MST? Por que não estão cultivando seu pedaço de terra? Pelo visto, aguardam a chegada do japonês.

Publicado em Nacional, Política

Mônica’s

16/08/2007 por bonat

Recebi alguns e-mails sugerindo que escrevesse sobre o papel de capitão-do-mato desempenhado pelo nosso governo na caça aos boxeadores cubanos. A se louvar, a presteza do Ministério da Justiça e do Itamaraty no atendimento à vontade do “diretor da ilha-presídio”. O estranho tem sido a quase mudez dos defensores dos direitos humanos. Até mesmo um famoso senador, sempre atento a coisas do gênero, anda calado. Que saudade do tempo em que ele dormia na prisão em solidariedade a chilenos, camaradas seus, que haviam seqüestrado um empresário brasileiro! Se pessoas como essas estão omissas, quem sou para falar sobre assunto tão confuso?
Prefiro comentar o que li sobre a escolha do novo Ministro da Defesa. Uns disseram que alguém do ramo, um militar, seria a solução mais inteligente. Outros afirmaram que o melhor seria mesmo um civil. Quem se posicionou assim veio logo com a observação de que os militares, até hoje, não aceitaram um ministro paisano. Por ser do ramo, permitam-me discordar. Desde sua criação, o Ministério da Defesa tem contado com a boa-vontade de milicos de todos os escalões. Lealdade, disciplina e apoio não têm faltado.
A aventura extraconjugal do senador Renan Calheiros com Mônica Veloso serve para ilustrar a lealdade dos militares. Tempos atrás, um ministro recém-nomeado trouxe a tiracolo sua “Mônica” e deu-lhe de presente um cargo de confiança, com vencimentos superiores a de general-quatro-estrelas. Os militares estranharam. Nenhum reclamou. Nem delatou. Calados como sempre, continuaram cumprindo seu dever, leais ao novo chefe. Ser civil nunca foi motivo para que o Ministro da Defesa fosse rejeitado. Mas, convenhamos, um pouco de ética tornaria a convivência mais amigável.
“Agora vai”! Creio ser esse o sentimento que, outra vez, permeia desde baias remotas até acarpetados gabinetes em Brasília. Todos torcem para que, além de competente, quem assume a Pasta seja compromissado com as Forças, lute por sua operacionalidade e pela recuperação dos soldos defasados. Que não quebre a hierarquia e se alie a amotinados, agravando sérios problemas, como o caos aéreo.
A Amazônia e a defesa da nação têm que interessar a todos os brasileiros, declarou o novo Ministro. Foi um alento. Sua preocupação com o espaço entre poltronas de aviões, nem tanto. Claro que, se isso for muito importante para o Brasil, ele contará com a ajuda das três Forças.
É essencial que o Ministro da Defesa possua visão estratégica. Ele precisa entender que um país, para vencer pela força, tem que ser forte. Para vencer pela negociação, necessita ser duplamente forte. Até boxeadores sabem disso. Pobres boxeadores!

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Pan – a vingança do Almirante

16/07/2007 por bonat

Piadas sobre governantes são imperdíveis. Veja a última que ouvi sobre o atual mandatário, ironizando sua vocação para viajante e sua aptidão para comparar-se ao Criador: “Lula e Deus são semelhantes. Só há uma diferença. Deus está em todos os lugares; nosso presidente já esteve”.
Algumas viagens presidenciais tornam-se inesquecíveis. A recente, ao Rio de Janeiro, para a abertura dos Jogos Pan-americanos, será uma delas. Não apenas pelo belo espetáculo proporcionado pelos organizadores e por milhares de voluntários, mas principalmente pelas vaias.
As vítimas foram as delegações dos Estados Unidos de Bush, pela guerra do Iraque; da Venezuela de Chávez, pela ameaça à democracia; da Bolívia de Evo, pela garfada que deu na Petrobrás; e da Argentina de…. Bem, da Argentina, pelo futebol. Até aí, tudo mais ou menos dentro do script, apesar de ser falta de educação ofender alguém que se convida para ir à nossa casa.
A surpresa ficou por conta do apupo antipresidencial, a ponto de sua excelência não poder cumprir o protocolo, declarando abertos os jogos. Vaiar era tudo que não caberia na cerimônia. Não era o momento. O silêncio teria sido mais apropriado. Entretanto, já é fato consumado.
Cabe aos ideólogos do partido da situação fazer as conseqüentes ilações. Pelo visto, está desfeito o mito de honestidade com que seus integrantes se apresentavam antes de chegar ao poder e está se esgotando a paciência e a complacência dos brasileiros com tantas notícias de corrupção.
Parece que os atuais governantes estão colhendo o que plantaram. As vaias do Maracanã nos remetem ao tempo em que, na oposição, eles eram verdadeiros estraga-festas. Recordo das comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil, quando se uniram a índios, sem-terra e sindicalistas para bloquear a BR 367, entre Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. Ante a real ameaça de agressão física, muitos convidados nacionais e estrangeiros deixaram de comparecer à cerimônia que relembraria a chegada das naus cabralinas. As reivindicações poderiam até ser justas. O momento é que não era adequado.
De qualquer forma, os manifestantes conseguiram o que queriam – lotaram as páginas dos jornais. Pedro Álvares Cabral quase virou nota de rodapé. Para vingar-se, é possível que o almirante lusitano tenha voltado no último dia treze para insuflar o Maracanã lotado.
O Maraca não é bobo. É apenas malcriado. Dizem que apupa até minuto de silêncio. Se bobear, inclusive Deus é vaiado. Se fosse educado, teria aplaudido os não-remunerados voluntários que ajudaram a fazer um grande espetáculo. Aí, talvez, algumas das nossas autoridades se mancassem.

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O capitão de Fidel

15/06/2007 por bonat

Sou um ledor assíduo. De bulas a livros, leio de tudo. Mas, nos jornais, quando não disponho de tempo, vou direto às charges. Elas têm mais poder que as palavras. Contam a história de um país. No mundo todo, tornam políticos desonestos, os preferidos dos chargistas, mais humanos, simpáticos até. Nos divertimos com charges dos malufes, anões do orçamento, delúbios, mensaleiros, presidentes e seus irmãos, e outros mais. Acabamos esquecendo do mal que fizeram. Num país de analfabetos, periga virarem heróis. É justo chargistas ficarem famosos e ricos.
A última coisa que procuro num jornal é o retrato falado. É muito grotesco e, na maioria das vezes, deturpa a realidade. Apesar dos modernos e sofisticados recursos existentes, o criminoso dorme tranqüilo. Aquele retrato pode ser de milhões de pessoas, inclusive o dele.
Veja como isso é verdade. Imagine ter existido um capitão (chamemo-lo de Acramal) que tenha desertado, roubado armas, assaltado, assassinado a sangue frio, seqüestrado, cometido enfim toda sorte de crimes, até ser morto de armas em punho. Que antes disso, ele tenha mandado sua mulher e filhos para a Ilha do “Comandante” a quem obedeciam. Ele cuidaria deles. Em troca, Acramal se comprometeria a lutar para implantar no seu país um regime totalitário, idêntico ao da Ilha. Suponha esta história contada por chargistas. Acramal viraria herói. Tempos depois, uma tal comissão de anistia concederia à sua família uma bela indenização e, à viúva, vencimentos de general.
Imagine, agora, a história dos irmãos de farda do ex-capitão, aqueles que se mantiveram leais ao seu país, ao seu exército e ao seu povo, transmitida num retrato falado. O resultado seria a anti-imagem: grotescos, antipáticos, violentos, selvagens, cruéis e tudo de abominável que se possa conceber. Simplesmente irreconhecíveis, passariam a ser os grandes vilões.
Gostaria que este fosse um caso hipotético. Mas é real. Não sei o que você pensa a respeito. Pode ser que concorde com o uso de dinheiro público para sustentar famílias como a de Acramal. Afinal, existem mais trinta mil pessoas com história semelhante, com as quais o Brasil gasta cerca de um bilhão por ano. Aplicar tamanho recurso em saúde, educação e segurança, talvez fosse mais conveniente.
Para mim, o sustento dessa turma deveria caber a “El Comandante”, para quem prestaram relevantes serviços. Até porque, dizem que ele é um dos homens mais ricos do mundo. É possível.

Publicado em Nacional, Política

A esperança está no gelo

05/06/2007 por bonat

Segundo os chineses, um homem nunca se banha no mesmo rio. O homem nunca é o mesmo. O rio, também, nunca é o mesmo. Isso é igualmente válido para as palavras. Elas, da mesma forma que águas e humanos, são mutantes. Com o tempo, adquirem novos significados.
“Enquanto houver gelo, haverá esperança”. Sob essa frase na parede de sua churrasqueira, quando servi no Guarujá, Carlos Borges Cano reunia seus amigos. Existia algo de verdade nas bem-humoradas palavras. Depois do primeiro gole que o gelo resfriara, ficávamos tão inteligentes que encontrávamos solução para os mais graves problemas do Brasil e do mundo.
Um dos temas que não abordamos naquelas reuniões foi o aquecimento global. Não pela preconceituosa razão do ilustre deputado Paulo Pereira da Silva de que “meio-ambiente era coisa de veado”. Não o discutíamos, simplesmente, por não fazer parte das preocupações de então. Quando o Carlos nos reunir novamente em sua churrasqueira, perceberemos que a frase da parede admite outra leitura: a de que, enquanto as geleiras dos Pólos se mantiverem intactas, haverá esperança para a humanidade.
Relatório recente da ONU trouxe à tona o problema. Em Bangcoc, no último painel sobre mudanças climáticas, o Brasil foi até elogiado. Temo que, por isso, venhamos a ser enrolados na bandeira e resolvamos, ingenuamente, pagar o pato sozinhos. Não devemos esquecer de quem mais contribui para o efeito estufa: EUA, China e Europa. É preciso lembrar que a América do Sul detém 41,4% das florestas mundiais, contra 0,1% da Europa, 3,4% da África e 5,5% da Ásia. Por termos preservado, os que sempre desmataram, volta e meia, querem nos punir, ameaçando o nosso crescimento.
Seria o caso de se questionar ONGs como Greenpeace e WWF sobre o porquê de elas não terem ainda lançado uma campanha para o reflorestamento da Europa com o mesmo vigor com que se empenham na Amazônia. Enquanto buscassem explicações para a ambigüidade de sua atuação, teríamos tempo para encontrar soluções brasileiras no sentido de continuarmos a participar do esforço para conter o aquecimento global.
Como ponto de partida, deveríamos levar em conta que o Brasil precisa de energia para se desenvolver. Até o IBAMA sabe disso. Como órgão do governo, ele tem o dever de buscar saídas para a questão de gerar energia com impacto ambiental mínimo. Parece simples, desde que o IBAMA se posicione como parte da solução e não, como às vezes o faz, parte do problema.
Outro ponto a ser considerado, falando-se especificamente da Amazônia, seria o desenvolvimento sustentável. Neste caso, deve-se partir do princípio de que não há soluções, se não se colocar, no centro de tudo, os milhões de brasileiros que têm a natureza como única fonte de sobrevivência. A criação de vários centros de pesquisa, com a participação do IBAMA, da EMBRAPA, de outros órgãos e, essencialmente, da sabedoria dos habitantes da floresta, mostra-se recomendável na busca de soluções locais que contemplem a proteção ambiental e o desenvolvimento.
Finalmente, para as demais regiões do país, seria necessária uma ação pro-ativa no sentido de se levar a cabo uma vigorosa campanha de reflorestamento. Nos estados do Sul, por exemplo, que já foram um extenso pinheiral, governos e sociedade bem que poderiam incentivar as pessoas a plantar araucárias. Ainda há muito espaço para isso. Cadê o Partido Verde?
Equacionadas essas questões, quando as ONGs voltassem com a resposta à nossa pergunta, veríamos que sua ausência teria preenchido uma grande lacuna. Ontém, como hoje, elas têm muito menos a ensinar do que a aprender conosco. Ou não têm humildade suficiente para reconhecer essa realidade, ou seus interesses vão além (ou aquém?) de simplesmente salvar o planeta.

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O arrependimento dos controladores

11/04/2007 por bonat

Eu imaginava que a propalada desmilitarização do controle do tráfego aéreo era idéia de civis. O recente pedido de desculpas dos controladores, para minha decepção, revelou ter sido coisa de militares. Acredito que foram contaminados pelo tal Botelho, espécie de vivandeira dos ares que vive a rondar cindactas e aeroportos, acenando com bálsamos milagrosos para amenizar o sofrimento da caserna.
Há séculos que hierarquia e disciplina constituem princípios basilares de forças armadas. Os romanos já sabiam disso. Rompê-las transformaria suas legiões em bandos armados, com imprevisíveis resultados. A rebelião de 30 de março último acendeu o sinal de alerta. Os amotinados eram, acima de qualquer consideração, militares.
A escala de serviço apertada foi uma das alegações. Se isso fosse verdadeiro, não sobraria tempo para engendrar um movimento de abrangência nacional, com sérios prejuízos para a população, a economia e a imagem do país.
Outro argumento era o baixo salário, menor até que dos civis que exercem a mesma função. Ora, ganhar pouco não é “privilégio” dos controladores. É de todos os militares.
Parece que, na ociosidade, eles puderam refletir sobre a necessidade de uma retribuição mais justa entre os componentes do serviço público nos três poderes. Há lógica nisso, pois existem tremendas distorções no governo, aí compreendidos o executivo, o legislativo e o judiciário.
O vencimento de um juiz em início de carreira é maior do que o do Presidente da República e dos Ministros. Recebem mais que o dobro do que qualificados servidores do executivo, com mais de quarenta anos de serviço. Senadores e deputados, somando-se todas as vantagens, ganham acima de cem mil por mês. Afora isso, leis elevam o teto remuneratório ao bel-prazer de quem as cria e de quem as interpreta; funções e cargos são inventados para acomodar aliados e companheiros de partido; gasta-se mais de um bilhão por ano com anistiados políticos, sem que ninguém explique exatamente à população por que fazem jus a tantas benesses.
Não é de hoje que almirantes, generais e brigadeiros tentam convencer seus subordinados que os militares ganham mal porque existem necessidades mais prementes nas áreas da saúde, educação, infra-estrutura e desenvolvimento. Os controladores constataram, durante o seu ócio, que a realidade não é bem essa. Mesmo assim, não se pode concordar com sua aquartelada.
Furtivamente, nas noites de Brasília, deve haver alguém além do senhor Botelho a lhes prometer vantagens. Essa pessoa precisa saber da inconveniência de se conceder possíveis benefícios apenas à parcela dos militares. Muitos outros cumprem tarefas mais árduas, importantes e com risco de vida.
Desconfio do tardio “arrependimento”. Tenho a impressão de ser uma tentativa de iludir o Ministério Público Militar. Quem descumpre com o solene compromisso de defender o Brasil e faz brasileiros de reféns não honrará outras promessas. Deixo um conselho aos líderes da rebelião. Peçam demissão. Desmilitarizem-se já! Vocês podem contaminar as legiões. Melhor não fazê-lo.

Publicado em Nacional, Política

Mercadinho de bairro

28/02/2007 por bonat

Perto da nossa casa sempre há um mercadinho que vende de tudo um pouco. É careiro, mas nele encontramos o que precisamos em situações de emergência. Adquirimos também artigos não-emergenciais, só para dar uma força ao seu proprietário, normalmente um sujeito simpático e que, afinal de contas, vive em nosso bairro. Entretanto, por economia, fazemos as grandes compras num hipermercado, normalmente afastado de onde moramos.
O perigo surge quando, por termos alguma afinidade com o vizinho – torcemos para o mesmo time, freqüentamos a mesma igreja ou somos do mesmo partido – resolvemos comprar tudo dele. Ao substituir a razão por fanatismo (futebolístico, religioso ou ideológico), corremos o risco de ver nosso orçamento ir para o espaço. Trocaremos o sustento dos nossos filhos pelo dos dono do mercadinho. Nossa família empobrecerá. E nem por isso ele ficará rico. Para negociar é preciso bom-senso e inteligência. Comércio não combina com ideologia, pois todo fanatismo emburrece e embrutece as pessoas.
Escrevo essas obviedades para afirmar que concordo com as posições do embaixador Roberto Abdenur publicadas na revista Veja e agora confirmadas em seu depoimento no Congresso Nacional. Li a entrevista com toda a atenção que merece uma pessoa que aprendi a admirar nos dois anos que servi sob sua orientação em nossa embaixada em Washington. Inteligente, culto, experiente, sempre levou o Brasil muito a sério e foi incansável na tarefa de promover e defender intransigentemente os interesses do nosso país. De suas palavras, deduzi que o Brasil deixou de ir ao hiperpermercado para comercializar só com o armazém da esquina.
O fato é que temos extrapolado nossa quota de generosidades para alguns vizinhos. Se é verdadeiro o argumento de que é para salvar o Mercosul, então por que aceitamos sem negociação prévia a incorporação da Venezuela a um bloco que tem por um dos princípios a democracia? Apenas pela razão de Hugo Chávez – como se fosse exclusividade sua – não gostar dos americanos?
Tão ou mais antiamericano do que Chávez é o Partido Comunista Chinês. Mesmo assim, onde se vá nos EUA, encontra-se produtos “made in China”. Em prol do seu povo, o governo chinês passou do fanatismo ideológico para o pragmatismo econômico.
No seu próximo encontro com Bush, o presidente Lula terá uma ótima oportunidade de usar o seu carisma para aumentar nossa participação num mercado de dois trilhões de dólares. É desnecessário repetir que o Brasil é contra a guerra do Iraque. Todos já sabem. É preciso, isto sim, dizer que estamos abertos para negociar nossa contribuição com o esforço norte-americano no sentido de diminuir sua dependência do petróleo e, principalmente, reduzir sua participação na poluição do planeta. Tudo isso, claro, se eles estiverem dispostos a pagar um preço justo, no qual poderá estar incluída a abertura do seu atraente mercado para outros produtos “made in Brazil”.
Maquiavelicamente, nosso presidente bem que poderia assoprar no ouvido de Bush: “Se der certo, murcharemos um pouco a bola do Chávez, o dono do posto de gasolina do bairro, que anda cheia demais. O Mercosul nos agradeceria”.

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Secos e molhados

16/01/2007 por bonat

Há dias em que estamos mais para secos do que para molhados. Confesso estar assim há algum tempo. A transição do ano velho para o novo 2007 trouxe-me tantas preocupações, que acabou secando minha fonte de inspiração para transmitir, como gostaria, uma mensagem de otimismo. Notícias tornaram-me incrédulo em relação ao futuro dos nossos filhos e netos. Autoridades do Judiciário e do Legislativo tentaram furar o teto salarial com sua lança antiética, autoconcedendo-se um gordo presente de Natal. Teriam conseguido, não fossem os protestos da imprensa e parte da sociedade.
Ainda no final de 2006, foi divulgado o vídeo de uma brasileira fazendo sexo em praia espanhola. Mesmo estando em local público e, portanto, cometendo um crime, a celebridade entrou na justiça para impedir sua divulgação. Sou do tempo em que o sonho de todo adolescente era ter a primeira noite com uma francesa. Os franceses, sabiamente, passaram o troféu para as brasileiras. Hoje, aconselha-se às nossas compatriotas que, ao viajarem para o exterior, ocultem sua nacionalidade. Senão, logo receberão uma cantada.
O carnaval se aproxima. Nossa mais poderosa rede de tevê, em suas chamadas para a festa, tem exposto o bumbum de loiras e mulatas, verdadeiro convite ao turismo sexual. Mais tarde, a mesma rede mostrar-se-á hipocritamente preocupada com a vinda de estrangeiros em busca de sexo barato em nosso litoral. O Big Brother, símbolo do nosso atraso intelectual e moral, continua em alta. Os apagões aéreo e rodoviário (sem falar no ferroviário, já crônico) prenunciam a inviabilidade de nossa expansão. O energético só espera a economia crescer para se manifestar. O “socialismo o muerte” de Hugo Chávez nos arremessa a um retrógrado passado de violência. “Muerte“ de quem? Por certo, o senhor Chávez, com tanto poder e a riqueza dos petrodólares, não pensa partir tão cedo. Então, que se cuidem seus adversários. Se, além de parodiar, ele pretende imitar o “Comandante”, deve estar imaginando instituir o “paredón” venezuelano.
Uma boa notícia poderia ter-nos alegrado: o Cow Parede, evento realizado em Curitiba a fim de arrecadar recursos para instituições de apoio à criança. Trata-se de idéia surgida em Zurique e repetida mundo afora. Boas idéias devem ser imitadas. No Brasil, as populações de Belo Horizonte e São Paulo já haviam se deliciado com as simpáticas vaquinhas. Mas não é que na minha Curitiba, famosa por ser ordeira e civilizada, algumas das acrílicas mimosas viriam a sofrer atos de vandalismo! Não esqueçamos de que o gado é dos animais mais globalizados, que nos fornece o leite e o tão apreciado churrasco. Podia estar aí o primeiro indício sobre o autor do crime: um vegetariano, pista logo descartada ao lembrarmos que, por razões óbvias, vacas também são contra o consumo de carne vermelha. Descobrir quem danificou as obras de arte não é o mais importante. O grave no caso é a revelação de como estamos regredindo moral e socialmente.
Todo esse quadro econômico, político e, principalmente, ético e moral, torna-me cético quanto ao futuro. Há soluções. Espero que pessoas responsáveis logo as encontrem. Caso contrário, o velho comércio de secos e molhados vai virar um “armazém de secos”.

Publicado em Datas marcantes