Chama o Hugo
07/03/2006 por bonatNão deveria. Mesmo assim vou lembrar de algo que você gostaria de esquecer. Daquele dia em que bebeu todas. Após chegar, não se sabe como em sua cama, sentiu o mundo girar. Súbito, teve que correr ao banheiro para “chamar o Hugo”. O pior foi agüentar as brincadeiras no dia seguinte. “Lembra do que você fez ontem à noite? Quantas vezes você chamou o Hugo“? Embora nesses casos ele seja a solução, você faz questão de que Hugo permaneça esquecido.
Mas há outro Hugo que faz de tudo para ser lembrado. Toda semana há notícias suas. “Hugo Chávez quer que Inglaterra devolva Malvinas à Argentina. Chávez expulsa adido naval americano. Presidente Chávez ameaça comprar um milhão de fuzis”.
Se as coisas se resolvessem assim, o Brasil deveria ter comprado um milhão de fuzis na década de 70. Os choques do petróleo gerados pela OPEP feriram mortalmente nossa economia. Nem por isso nosso governo expulsou embaixador algum. Ao contrário, privilegiou a pesquisa e o trabalho sério.
Se existiu algo de difícil para o Brasil foi chegar à auto-suficiência. Enquanto não podíamos sequer viajar nos finais-de-semana (os postos não abriam), os países da OPEP nadavam em dinheiro. O que fizeram com os bilhões de petrodólares que receberam? Por certo não investiram em seu povo. Multiplicaram, isto sim, o número de miseráveis.
Para chegar ao poder, o paradoxal Chávez vestiu a camisa dos descamisados. Prometeu repartir com eles a riqueza gerada pelo petróleo. O azar daqueles coitados foi ele ter vislumbrado a possibilidade de tornar-se o novo Bolívar. Pelo visto vão ter que esperar mais um pouco. Por enquanto terão que contentar-se com uma simples camiseta. Ao mesmo tempo, terão que aprender a crer em seu presidente. Não os ensine a pensar, parece ser a recomendação. Poderia ser perigoso!
Os gestos magnânimos de Chávez com dinheiro apropriado da estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela), como enviar petróleo de graça para Cuba, comprar títulos da dívida pública argentina e patrocinar a campeã Vila Isabel, têm um único objetivo: o de ele sair de Bolívar, como destaque em sua escola – a Unidos Bolivarianos.
Seu desejo de virar estrela fez com que, para alegria de muitos porto-alegrenses, levasse o Fórum Social para Caracas. O dinheiro gasto seria muito bem recebido por milhões de seus compatriotas que vivem na extrema pobreza. Porém, aí, aplausos para Chávez. Pelo menos não deixou o monsieur Bové, representante dos agricultores franceses, os mais subsidiados do globo, atear fogo em fazendas venezuelanas.
O senhor Chávez é uma solução à procura de problemas. Por isso gosta de inventá-los. “Chama o Hugo que ele resolve”, é seu recado aos colegas sul-americanos. Quem pensa assim, quem sonha tornar-se o grande líder da América Latina, imagina que os latino-americanos sejam todos idiotas. A maioria dos brasileiros não se enquadra nessa categoria. Nem povo, nem dirigentes.
Nosso presidente governa o principal país da América Latina. Maior, mais populoso, mais desenvolvido, maior PIB, imprensa mais atuante e, pelo menos até a aquisição do milhão de fuzis venezuelanos, com forças armadas melhor equipadas. Além do mais, somos agora auto-suficientes em petróleo. Ficaríamos decepcionados ao saber que ele precisou chamar qualquer dos Hugos. Ambos, primeiro e segundo, merecem ser esquecidos.