Um juiz de 24,5 mil dinheiros

Quase toda a população de Lagoa Serena coloria de verde e amarelo o estádio municipal. Verde Futebol Clube e Amarelo de Futebol e Regatas fariam a grande final. Na tribuna de honra, o presidente da Liga estava ansioso. As arbitragens eram alvo de constantes críticas. Para aquela partida, escalara o juiz mais experiente. Mesmo sem ter apitado muito, valendo-se da condição de mais antigo do quadro, seu salário de vinte e dois mil dinheiros fora pago religiosamente. No início do ano, o sindicato havia convencido o Conselho da Liga de que, para não se venderem, os juízes deveriam ganhar muito bem. Tentou-se argumentar que poderiam levar a Liga à falência. Ante a ameaça de paralização do campeonato, foi-se obrigado a ceder. Os juízes mais experientes receberiam vinte e dois mil dinheiros. Selaram um “Acordo”: aquele seria o teto remuneratório.
Quando o trio de arbitragem entrou em campo, sessenta mil dinheiros passaram pela aflita cabeça do presidente: vinte e dois do juiz e dezenove dos bandeirinhas que, por serem recém-admitidos, recebiam um pouco menos. Pouquíssimas pessoas em Lagoa Serena ganhavam dezenove mil dinheiros por mês, nem os melhores jogadores de Verde e de Amarelo.
Os locutores das rádios não estavam habituados com assuntos de cerimonial. Ficaram confusos ao anunciar a entrada do juiz em campo. Seu alto salário indicava tratar-se de pessoa de respeito. Uns o chamaram de “sua excelência”; outros, de “sua senhoria”. O que impressionava era seu uniforme. Todo preto, servia para impor autoridade. Os mais detalhistas perceberam que nele, além do escudo da Liga bordado na altura do coração, havia outros pinduricalhos: propaganda de uma cerveja, de uma pizzaria e do bingo da cidade.
Começou o jogo. Marcação cerrada. Muitas faltas. A torcida do Amarelo começou a se impacientar. “Sua senhoria” (ou excelência?) só marcava a favor dos verdes. Mesmo assim, o primeiro tempo terminou zero a zero. Início da segunda etapa. O centroavante Carlão, do Verde, atirou-se na área. “Sua excelência” (ou senhoria?) marcou pênalti. Foi a gota d’água. A torcida amarela invadiu o campo. A verde não deixou por menos: invadiu também.
Rapidamente, o juiz acionou a polícia e saiu de campo escoltado por vinte e dois policiais. Que ironia: vinte e dois policiais que ganhavam mil dinheiros por mês salvaram a vida do juiz de vinte e dois mil dinheiros.
Nos jornais, o saldo da tragédia. Dois mortos e hospitais lotados. Cadeias abarrotadas. Repórteres revelaram ter ouvido do juiz que ele não se sentia responsável pela invasão de campo. Aquilo era problema da polícia. E ele concordava com invasões, pois eram uma forma democrática de se manifestar. O pior viria depois. Vários torcedores acionaram a Liga e os clubes por danos físicos e morais. Ganharam. Verde e Amarelo fecharam as portas.
A Liga tentava sobreviver, até que o próprio juiz entrou com uma ação por danos morais. Não satisfeito, disse que iria se aposentar. Não para receber apenas vinte e dois mil dinheiros. Se isso contrariava o “Acordo” que limitava os salários, não era problema seu. Queria mais. Que fossem incluídos os “extras” que deixara de ganhar como garoto-propaganda da cerveja, da pizzaria e do bingo. Ganhou. A Liga teria que lhe pagar vinte e quatro mil dinheiros mensais. Conseqüência: a Liga também faliu; o verde e o amarelo sumiram das ruas; o povão passou a torcer por times de outra cidade e de outras cores; e o juiz, agora aposentado, faz questão de ser chamado de “sua excelência”. Afinal, quem ganha vinte e quatro mil neste país (sic) merece respeito, nem que seja pelo medo que impõe.

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