Controle de vôo – por que não militarizar?

Alberto ficou desesperado. Nunca vira nada igual nos aeroportos. Quis falar e não pôde. Estátuas não falam. Teve medo. Passageiros irados poderiam culpá-lo por aquele caos. Se não tivesse inventado o avião, nada daquilo teria acontecido. Além do mais, a antiga depressão voltara. A mesma que o levara ao suicídio no hotel La Plage, no Guarujá. As cento e cinqüenta e quatro vítimas do acidente da Gol reacenderam seu sentimento de culpa.
A balbúrdia que assistia fora causada por alguns controladores de vôo. Sabia que não eram militares Estes não fazem greve. O protesto soava como uma declaração de culpa. Pareciam proclamar: “fomos os responsáveis pelo choque do Legacy com o Boeing; estamos estressados; agora vamos socializar a desgraça que causamos a mais de cem famílias, estendendo-a para mais gente; ninguém voará no feriadão”.
Alberto se orgulhava quando o modelo dual de defesa e controle do espaço aéreo, concebido pelo extinto Ministério da Aeronáutica, era elogiado e até copiado por estrangeiros. As estatísticas mostravam – voar no Brasil ficara mais seguro.
Ele sabia que os controladores civis eram minoria. Porém, quem visitasse uma das confortáveis e climatizadas salas dos Cindactas, localizados em belas cidades (Brasília, Curitiba, Recife e Manaus), veria que ali os sargentos da Aeronáutica eram minoria. Maioria (ou totalidade) eles são onde a vida é difícil, inóspita e se vive quase isolado. Quem for ao sítio-radar do Morro da Igreja, lugar mais gelado do Brasil, possivelmente não encontrará controlador civil algum. Constatará que os militares que lá servem sabem que mais estressante do que seu trabalho foi o do pessoal do PARA-SAR, encarregado de recolher no meio da Amazônia o que restou do trágico acidente. E nem por isso um sargento-PARA-SAR ganha mais do que um sargento-controlador.
Alberto supôs que o problema nos aeroportos só foi solucionado após o Comandante da Aeronáutica ter ordenado: “faz funcionar essa birosca”. Mobilizaram-se os controladores militares, e a ”birosca” funcionou. Os aviões começaram a decolar.
Ele considera fácil aumentar o número de controladores. Apesar de justa, desconfia do que está por trás da reivindicação – a tal desmilitarização. Proposta pelo Presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo, se efetivada, ela tornará todos reféns do sindicato. Parece que se criou dificuldades para auferir vantagens. Ele aconselha ao brasileiro, que já reclama por pagar trinta e oito por cento de impostos, a preparar o bolso. E comprar um “kit de sobrevivência” em aeroporto.
Alberto já ficara frustrado com a recente desmilitarização no setor aeronáutico. A Lei que transformou o DAC em Agência Nacional de Aviação Civil criou trezentos e noventa e quatro cargos comissionados, aqueles que dispensam concurso público. Quem os assume recebe polpudos salários, mesmo que não saiba a diferença entre um avião e um helicóptero.
Santos Dumont sempre esteve à frente do seu tempo. Assim, se pudesse falar, mesmo sendo civil, perguntaria – por que mexer em time que está ganhando? Ou, se querem mexer, por que não “militarizam” todos os controladores? No mínimo, seria mais econômico.

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