Líbano – os franceses estão de volta

Início dos anos oitenta. Ao meu lado, uma voz, baixa para só eu escutar, sussurra com forte acento árabe: “Não pense que os franceses gostam de você. Se lhe tratam bem, é porque você está sob proteção diplomática. Eles não gostam de ninguém, nem deles próprios”. Não respondi. Um bonjour, e fim. Até porque estávamos em plena corrida e meus pulmões de fumante impunham escolher entre respirar ou falar. Além do mais, quem seria aquele capitão? Sabia que era um dos alunos da escola de Draguignan que estavam passando uma semana em Nîmes conosco. Nada mais. E, ora bolas, os franceses me tratavam muito bem. Eram meus amigos.
Aproveitando-se do meu silêncio, ele prosseguiu. “Sabe o que eles fizeram no meu país? Obrigaram a extinguir as forças armadas. Só agora estamos nos reestruturando. Veja no que deu”! Continuei no meu silêncio. Não estava nem um pouco interessado no país dele. Preocupava-me apenas em aprimorar-me na complicada arte (?) de abater aviões. Minha alienação política fez com que se afastasse.
Decorridos vinte e cinco anos, a Legião Estrangeira desembarcou em Beirute. Foram os primeiros a se oferecer para integrar as forças da ONU. Os primeiros a chegar. Sinal de que não estão para brincadeiras. Há décadas aguardavam esse momento. Suas cabeças raspadas, estampadas na primeira página dos jornais, fizeram meu subconsciente recuar no tempo para, só agora, entender a incontida revolta daquele capitão que, depois soube, era libanês. Seu país já fora a “Suíça do Oriente”, exemplo de democracia, tolerância religiosa e harmonia étnica. Destino dos europeus em férias, até o dia em que, sob pressão, resolveu seguir o “conselho” francês. Acabou com suas Forças Armadas. Até porque, nem Hitler havia atacado a Suíça…
Quando se foram, os franceses deixaram uma nação desarmada. Nada havia para defendê-la, nem de ameaças externas nem de si mesma. A imaginada harmonia interna não resistiu às diferenças étnicas e religiosas. O resultado foi um banho de sangue. Com o pretexto de ajudar o vizinho, a Síria ocupou-o militarmente por quase duas décadas. Só saiu em 2005, sob forte suspeita de ter participado do assassinato de Rafik Hariri, ex-primeiro-ministro, contrário à sua presença. Saiu, mas deixou seu representante, o Hezbollah.
Em 2000, a retirada israelense deu ao Hezbollah o tempo que precisava para reorganizar-se. Com mísseis e o apoio de Síria e Irã, saturou comunidades do norte de Israel. Todos se surpreenderam com a intensidade e a violência da resposta. O mundo ficou chocado com as fotos de corpos infantis mutilados. Logo depois, manchetes anunciavam que, após trinta e oito anos, o Exército Libanês recuperara o controle do sul do país. Tarde demais. Mesmo assim, a notícia mereceu o aplauso da população.
Como gostaria de reencontrar aquele capitão para pedir desculpas por não ter-lhe dado atenção. Dizer que aprovo sua indignação, pois, indefeso, até o paraíso pode virar inferno. Foi o que aconteceu com o Líbano, que tem sofrido com uma guerra que não é sua.
Tomara que tenha mudado o que está dentro das legionárias cabeças raspadas. Que sua intenção seja somente humanitária. Não mais a de tentar impor sua vontade, sua língua, sua filosofia, sua arrogância. Nada de conselhos. O libanês pode até falar francês, mas o fará sempre com acento. Afinal, o Líbano não é a França. Muito menos a Suíça. É apenas o Líbano, cujo povo merece viver feliz. Porém, à sua maneira e em paz.

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