O PCC e a herança da pobre viúva

Havia um casal com muitos filhos. Trabalhadora e honesta, a família vivia em perfeita harmonia. Genros e noras foram sendo agregados com carinho, independente de sua origem. Chegaram inúmeros netos, todos muito bem-vindos. Também havia cães. Eram bem tratados por serem extremamente leais e defenderem os membros da família e seu patrimônio, conseguido com sacrifício.
Ao morrer, o marido deixou imensa fortuna. A viúva sentiu necessidade de ajuda para administrar a herança que, segundo ela, pertencia a todos e devia ser gerenciada como um bem-comum. Rapidamente, alguns genros – Pólis, Filos, Síndis, Júris e Lúpus – formaram uma Comissão. Todos haviam estudado, uns mais outros menos, em escola pública de qualidade. Daí, a nora Professora, conhecida como Profe, sentir muito orgulho do seu nome. Como trabalhava em tempo integral, não pôde fazer parte da Comissão.
Era preciso escolher um chefe. Devido à sua má fama, Pólis foi logo descartado. Filos foi o eleito. Aos poucos, as pessoas foram se apercebendo que ele não tinha idéias próprias. Limitava-se, com seu ar de intelectual, a repetir os pensamentos de um amigo francês. Cheio de galicismos, preocupava-se mais com a família francesa do que com a sua. Para substituí-lo escolheram Síndis, em quem se depositava fundada esperança, pois trabalhara numa grande multinacional e administrara o vultoso orçamento de um sindicato.
Foi só Síndis iniciar sua gestão, para irem fofocar à viúva que ele teria repartido, entre quarenta amigos, alguns bilhões da herança. Nada foi comprovado. O que ficou claro, pelo alarde que se fez, é que o genro passaria a dar míseros cinqüenta dinheiros de mesada aos sobrinhos que não conseguiam emprego.
Numa das reuniões, Pólis propôs uma série de regras, todas confusas, mas que concediam à sua mulher e filhos vários direitos. Júris, que de bobo não tinha nada, endureceu. Tendo a difícil tarefa de julgar, com base em regras tão complicadas, sua mulher e filhos deveriam ter os mesmos privilégios. Todos concordaram.
Tão poucos receberam tantas benesses, que o dinheiro foi acabando. Quase nada sobrou para Profe. Ela teve que contentar-se em receber da viúva trinta vezes menos que Pólis e Júris. Pensou, até, em trocar de nome. Desistiu quando ouviu, da voz eloqüente de Pólis, que o futuro da família estava na educação.
Os cães, obviamente, não faziam parte da Comissão. Decidiu-se cortar a verba para sua ração. Lúpus, que tinha cara de cordeiro, sugeriu inclusive castrar os animais mais valentes a fim de amansá-los. Quase colou.
Não demorou muito para tudo virar briga de família, com direito a tapas e puxões de cabelo. E sabem quem pagou o pato? Os cães. Encarregados de apartar a briga, passaram a ser cassados pelos familiares excluídos pela Comissão. Lúpus chegou a consultar um representante dos direitos humanos. Este informou que nada poderia fazer, pois cães não eram humanos.Ofereceu então seus próprios cães. Desconfiados, ninguém topou.
Sentindo estar perto o seu fim, a viúva aconselhou Pólis – “Você pensa que, por não falarem, cães não sejam inteligentes. Saiba que, um dia, cansados de ser maltratados, eles podem se voltar contra o próprio dono”. Pobre e desiludida, a velha morreu na manhã seguinte. Os fiéis cães foram dos poucos a comparecer ao seu enterro.

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