Triângulo mágico na seleção

Não sei quem a teve. Mas não foi feliz a idéia do quadrado mágico. Quadrado lembra uma figura rígida. Impõe lados todos iguais e ângulos inflexivelmente retos, imexíveis, no dizer de um ex-ministro. Quatro lados com o mesmo peso, idade e habilidade, o que certamente não ocorre quando eles são seres humanos, sabidamente diferentes.
Porém, a magia do quadrado foi a de ter-nos feito tirar a bandeira do armário e pendurá-la na janela, coisa inimaginável em outras ocasiões. Ele uniu os brasileiros. Pobres e ricos, gordos e magros, governo e oposição, bêbados e sóbrios, velhos e moços, sogras e genros, todos vestiram com orgulho o verde-amarelo.
Pudera, pertencemos ao G-7 do futebol. Somos potência. Todos nos invejam e, ao mesmo tempo, querem nos derrotar. Por isso nos enrolamos na mesma bandeira, símbolo que tem o poder de nos unir, pois nela estamos todos representados, os de Ipanema e os dos grotões. Não a desfraldamos em outros momentos, preocupados com o que iriam pensar os vizinhos, parentes e amigos. Tememos não estar agindo de forma politicamente correta. Afinal, expor nosso amor ao Brasil nos submete a essa nova forma de censura que impera nos dias de hoje.
O brasileiro é frustrado por não pertencer a um país de primeiro mundo. Frustram-no também os desmandos dos políticos que, salvo raras exceções, governam pensando em si próprios e no pequeno grupo que os cerca. Daí, termos nosso espírito patriótico adormecido. A Copa do Mundo representa a oportunidade para acordar esse sentimento.
Há porém outra frustração, que atinge sobretudo os homens brasileiros – a de não ser um jogador de futebol. Afinal, antes mesmo de nascermos nossos pais já decidiram para que time iremos torcer. Quando chegamos ao mundo, nosso primeiro presente é uma camisa de futebol. Em seguida ganhamos uma bola. E todos sonham em ver-nos fazendo lindas jogadas e belos gols. Primeiro no clube. Depois na seleção. Normalmente a decepção não tarda a chegar. Nas primeiras peladas, sentimos que a redonda não é tão fácil assim de ser dominada. Para nossa tristeza e de nossos pais, estes se vêem obrigados a nos convencer de que é melhor estudar do que continuar insistindo.
Na Copa, nos incorporamos nos Ronaldos e Robinhos. Enxergamo-nos recebendo vultosos salários, dirigindo carrões, vivendo em castelos, hospedando-nos em hotéis cinco estrelas, freqüentando finos restaurantes e sendo perseguidos por belas mulheres. Descobrimos que até mesmo alguns políticos, que sobrevivem dando gorjetas aos miseráveis, nos perdoam pelo crime de, pelos nossos méritos, termos ficado rico.
Depois do fracasso do quadrado e apesar de ainda não saber quem será o técnico da seleção em 2026, deixo-lhe a sugestão para escalar um triângulo mágico formado por João Gustavo, Guilherme e Rafael – meus netos. Embora de tenra idade, já ganharam a amarelinha, uma bola e estão treinando com afinco. Se der certo e viver até lá, este avô, que nas peladas foi um esforçado lateral direito, deixará de ser um boleiro frustrado.

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