Los Rusos también hacen pipi

O Muro de Berlim havia caído em 1989. Em 1993 o Exército buscava uma arma antiaérea barata e eficaz. Por ser especialista nessa área, fui enviado à Rússia, tendo sido o primeiro oficial brasileiro, depois de muitos anos, a visitá-la oficialmente.
Acompanhado por três russos e um uruguaio, viajei de Moscou para Vladimir. A meio-caminho, paramos no acostamento. Os russos nos convidaram para fazer xixi. Não aceitamos. Enquanto eles molhavam as árvores à beira da estrada, o uruguaio saiu-se com esta: “Mira, brasileño, los rusos también hacen pipi”. E arrematou: “Ellos son casi humanos”!
Apesar de cômica, sua observação refletia a imagem que anos de Guerra Fria haviam incutido em nosso subconsciente. Tínhamos, principalmente aos integrantes das forças armadas soviéticas, como seres sem coração, quase máquinas, capazes das maiores barbaridades. Exageros à parte, não se lhes pode eximir de culpa. De fato, quando invadiu a Alemanha na II Guerra, o Exército Vermelho cometeu inúmeras atrocidades. Tantas, que os alemães, já derrotados, preferiam render-se a qualquer soldado aliado. Exceto ao russo.
Tristemente famosos também ficaram os agentes do serviço secreto soviético, a temida KGB. Por certo, não por se comportarem como bons samaritanos. A FSB, sua sucessora, aparentemente usa métodos mais humanos. Mesmo assim tem-se mostrado eficaz. Pelo menos foi o que revelaram recentes notícias sobre o flagrante que seus agentes deram em diplomatas e funcionários da embaixada britânica em Moscou. Inspirados em 007, súditos de Sua Majestade usavam um transmissor embutido numa falsa pedra para se comunicarem com agentes secretos e representantes de ONGs russas a soldo de Londres.
A globalização fez multiplicar o número de ONGs. Os objetivos da imensa maioria delas são incontestáveis. Buscam humanizar governos, evitando seus excessos. Defendem minorias. Zelam pelo futuro do planeta. A questão levantada pela descoberta da pedra-transmissor é se uma ONG, que aceita apoio de diplomatas e é financiada por um governo, merece continuar a ser intitulada não-governamental. Até onde sei há poucas figuras mais governamentais do que um diplomata.
E tem mais. Algumas são sustentadas por membros da Coroa Britânica. É racional ficar desconfiado. Se existe algo de louvável na família real é sua visão estratégica. Por isso a Inglaterra continua, ainda, a ter tanta influência. Por isso apóia algumas ONGs. Se o faz na Rússia, por que deixaria de fazê-lo no Brasil? Espalhados pela imensidão amazônica estão representantes de ONGs e missionários de todos os credos. Fazendo exatamente o quê, ninguém sabe. Nem o Estado nem a sociedade brasileira. Historicamente, nossos governos não gostam de aborrecê-los. Consta que defendem os índios e as florestas. Bom seria se fosse só isso. Soltaríamos foguetes de alegria!
Chegará o dia em que nosso governo, nossas ONGs e nós todos como sociedade tomaremos consciência do valor estratégico e econômico da Amazônia. Aí, nós mesmos, do jeito que é só nosso, iremos zelar pelos nossos índios, nossas florestas e nossos rios. Estou sonhando, logicamente. Todos já perceberam. Em breve devo acordar. Quando isso acontecer, tornarei pública minha inquietação – ao financiar uma ONG que atua na Amazônia, um príncipe estrangeiro está pensando em nosso bem ou em nossos bens ?
E, antes que alguém pergunte: príncipes também fazem pipi.

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