Artigos de 2006

Um juiz de 24,5 mil dinheiros

08/12/2006 por bonat

Quase toda a população de Lagoa Serena coloria de verde e amarelo o estádio municipal. Verde Futebol Clube e Amarelo de Futebol e Regatas fariam a grande final. Na tribuna de honra, o presidente da Liga estava ansioso. As arbitragens eram alvo de constantes críticas. Para aquela partida, escalara o juiz mais experiente. Mesmo sem ter apitado muito, valendo-se da condição de mais antigo do quadro, seu salário de vinte e dois mil dinheiros fora pago religiosamente. No início do ano, o sindicato havia convencido o Conselho da Liga de que, para não se venderem, os juízes deveriam ganhar muito bem. Tentou-se argumentar que poderiam levar a Liga à falência. Ante a ameaça de paralização do campeonato, foi-se obrigado a ceder. Os juízes mais experientes receberiam vinte e dois mil dinheiros. Selaram um “Acordo”: aquele seria o teto remuneratório.
Quando o trio de arbitragem entrou em campo, sessenta mil dinheiros passaram pela aflita cabeça do presidente: vinte e dois do juiz e dezenove dos bandeirinhas que, por serem recém-admitidos, recebiam um pouco menos. Pouquíssimas pessoas em Lagoa Serena ganhavam dezenove mil dinheiros por mês, nem os melhores jogadores de Verde e de Amarelo.
Os locutores das rádios não estavam habituados com assuntos de cerimonial. Ficaram confusos ao anunciar a entrada do juiz em campo. Seu alto salário indicava tratar-se de pessoa de respeito. Uns o chamaram de “sua excelência”; outros, de “sua senhoria”. O que impressionava era seu uniforme. Todo preto, servia para impor autoridade. Os mais detalhistas perceberam que nele, além do escudo da Liga bordado na altura do coração, havia outros pinduricalhos: propaganda de uma cerveja, de uma pizzaria e do bingo da cidade.
Começou o jogo. Marcação cerrada. Muitas faltas. A torcida do Amarelo começou a se impacientar. “Sua senhoria” (ou excelência?) só marcava a favor dos verdes. Mesmo assim, o primeiro tempo terminou zero a zero. Início da segunda etapa. O centroavante Carlão, do Verde, atirou-se na área. “Sua excelência” (ou senhoria?) marcou pênalti. Foi a gota d’água. A torcida amarela invadiu o campo. A verde não deixou por menos: invadiu também.
Rapidamente, o juiz acionou a polícia e saiu de campo escoltado por vinte e dois policiais. Que ironia: vinte e dois policiais que ganhavam mil dinheiros por mês salvaram a vida do juiz de vinte e dois mil dinheiros.
Nos jornais, o saldo da tragédia. Dois mortos e hospitais lotados. Cadeias abarrotadas. Repórteres revelaram ter ouvido do juiz que ele não se sentia responsável pela invasão de campo. Aquilo era problema da polícia. E ele concordava com invasões, pois eram uma forma democrática de se manifestar. O pior viria depois. Vários torcedores acionaram a Liga e os clubes por danos físicos e morais. Ganharam. Verde e Amarelo fecharam as portas.
A Liga tentava sobreviver, até que o próprio juiz entrou com uma ação por danos morais. Não satisfeito, disse que iria se aposentar. Não para receber apenas vinte e dois mil dinheiros. Se isso contrariava o “Acordo” que limitava os salários, não era problema seu. Queria mais. Que fossem incluídos os “extras” que deixara de ganhar como garoto-propaganda da cerveja, da pizzaria e do bingo. Ganhou. A Liga teria que lhe pagar vinte e quatro mil dinheiros mensais. Conseqüência: a Liga também faliu; o verde e o amarelo sumiram das ruas; o povão passou a torcer por times de outra cidade e de outras cores; e o juiz, agora aposentado, faz questão de ser chamado de “sua excelência”. Afinal, quem ganha vinte e quatro mil neste país (sic) merece respeito, nem que seja pelo medo que impõe.

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Parabéns, senhora Maria da Luz

05/11/2006 por bonat

Você conhece Maria da Luz? Muitos responderão “sim, é aquela que, em 1976, quando casou-se com o saudoso Ito Séra, mudou de São Paulo para a Lapa”. Membro atuante da comunidade, ela divide o seu tempo dando aula nos colégios General Carneiro e São José e no Kumon. Ainda auxilia, como ministra da eucaristia, a paróquia de Santo Antônio e cuida da mãe, que mora com ela ali na esquina da rua Barão do Rio Branco com Nossa Senhora do Rocio.
Mas não é dela que vamos falar. É sobre sua mãe, que também se chama Maria da Luz. Por duas razões, ela é menos conhecida. Primeiro, porque mora na Lapa há apenas seis anos. A segunda, porque quase não sai mais de casa. Pudera, ela completa noventa e cinco anos de idade neste 12 de novembro!
Quem a vê agora sequer imagina quanta energia tinha essa lapeana que saiu daqui em 1924 para casar-se com o gaúcho Elpídio Pereira Dias. E não é que o Elpídio era chegado numa “revoluçãozinha”? Participou das de 30 e 32, perambulando pelos sertões paranaenses, naqueles tempos em que nem estrada havia. E dona Maria junto. Viajando em carroça ou no lombo de um cavalo, dormindo em barracas ou debaixo da ponte, sob sol ou chuva, lá estava ela, corajosa, ao lado do marido, para o que desse ou viesse. Nem balas perdidas a amedrontavam. As cidades onde os filhos nasceram dão uma idéia dos caminhos percorridos pelo casal: três em Ortigueira, um em Itapeva e dois em Londrina.
Depois de uma vida de muita aventura, decidiram fixar-se na capital paulista, para poder criar e educar os seis filhos – Antônio, Élida, Vildenei, Idema, Maria da Luz e Luís Carlos. Você acha muito? Pois bem, ainda havia a Zoraide, a Maria, a Helena e o Jorge, todos filhos de criação (e de coração).
Os filhos foram casando, chegaram vinte e seis netos, trinta e cinco bisnetos e quatro tataranetos, atualmente espalhados Brasil afora. Todos gostariam de estar aqui, para vê-la apagar as noventa e cinco velinhas. Mas seria muita emoção. Por conselho médico, virão apenas os que moram em Curitiba. Não fora isso, a parentada toda viria e a Lapa seria invadida por gente de Curitiba, Brasília, Cuiabá, Caxias do Sul, Natal, São Paulo, Londrina e Campinas.
O interessante é que após a morte de Elpídio, reacendeu em dona Maria da Luz o espírito cigano que a fizera acompanhar o marido sertões afora. Apesar de que a idade já estivesse avançando, ela fazia questão de visitar todos os parentes. E ia de ônibus mesmo. Avião era caro. Brinca-se, em família, que ela chegava com suas economias no guichê da rodoviária e pedia: “me dá cem reais de passagem”. Com isso, conseguia passar, ao menos uma vez por ano, alguns dias na casa dos filhos e netos que moravam longe de São Paulo.
Noventa e cinco parabéns, Vó Maria, e noventa e cinco vezes obrigado pelo belo exemplo de vida.

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Controle de vôo – por que não militarizar?

04/11/2006 por bonat

Alberto ficou desesperado. Nunca vira nada igual nos aeroportos. Quis falar e não pôde. Estátuas não falam. Teve medo. Passageiros irados poderiam culpá-lo por aquele caos. Se não tivesse inventado o avião, nada daquilo teria acontecido. Além do mais, a antiga depressão voltara. A mesma que o levara ao suicídio no hotel La Plage, no Guarujá. As cento e cinqüenta e quatro vítimas do acidente da Gol reacenderam seu sentimento de culpa.
A balbúrdia que assistia fora causada por alguns controladores de vôo. Sabia que não eram militares Estes não fazem greve. O protesto soava como uma declaração de culpa. Pareciam proclamar: “fomos os responsáveis pelo choque do Legacy com o Boeing; estamos estressados; agora vamos socializar a desgraça que causamos a mais de cem famílias, estendendo-a para mais gente; ninguém voará no feriadão”.
Alberto se orgulhava quando o modelo dual de defesa e controle do espaço aéreo, concebido pelo extinto Ministério da Aeronáutica, era elogiado e até copiado por estrangeiros. As estatísticas mostravam – voar no Brasil ficara mais seguro.
Ele sabia que os controladores civis eram minoria. Porém, quem visitasse uma das confortáveis e climatizadas salas dos Cindactas, localizados em belas cidades (Brasília, Curitiba, Recife e Manaus), veria que ali os sargentos da Aeronáutica eram minoria. Maioria (ou totalidade) eles são onde a vida é difícil, inóspita e se vive quase isolado. Quem for ao sítio-radar do Morro da Igreja, lugar mais gelado do Brasil, possivelmente não encontrará controlador civil algum. Constatará que os militares que lá servem sabem que mais estressante do que seu trabalho foi o do pessoal do PARA-SAR, encarregado de recolher no meio da Amazônia o que restou do trágico acidente. E nem por isso um sargento-PARA-SAR ganha mais do que um sargento-controlador.
Alberto supôs que o problema nos aeroportos só foi solucionado após o Comandante da Aeronáutica ter ordenado: “faz funcionar essa birosca”. Mobilizaram-se os controladores militares, e a ”birosca” funcionou. Os aviões começaram a decolar.
Ele considera fácil aumentar o número de controladores. Apesar de justa, desconfia do que está por trás da reivindicação – a tal desmilitarização. Proposta pelo Presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo, se efetivada, ela tornará todos reféns do sindicato. Parece que se criou dificuldades para auferir vantagens. Ele aconselha ao brasileiro, que já reclama por pagar trinta e oito por cento de impostos, a preparar o bolso. E comprar um “kit de sobrevivência” em aeroporto.
Alberto já ficara frustrado com a recente desmilitarização no setor aeronáutico. A Lei que transformou o DAC em Agência Nacional de Aviação Civil criou trezentos e noventa e quatro cargos comissionados, aqueles que dispensam concurso público. Quem os assume recebe polpudos salários, mesmo que não saiba a diferença entre um avião e um helicóptero.
Santos Dumont sempre esteve à frente do seu tempo. Assim, se pudesse falar, mesmo sendo civil, perguntaria – por que mexer em time que está ganhando? Ou, se querem mexer, por que não “militarizam” todos os controladores? No mínimo, seria mais econômico.

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Líbano – os franceses estão de volta

20/09/2006 por bonat

Início dos anos oitenta. Ao meu lado, uma voz, baixa para só eu escutar, sussurra com forte acento árabe: “Não pense que os franceses gostam de você. Se lhe tratam bem, é porque você está sob proteção diplomática. Eles não gostam de ninguém, nem deles próprios”. Não respondi. Um bonjour, e fim. Até porque estávamos em plena corrida e meus pulmões de fumante impunham escolher entre respirar ou falar. Além do mais, quem seria aquele capitão? Sabia que era um dos alunos da escola de Draguignan que estavam passando uma semana em Nîmes conosco. Nada mais. E, ora bolas, os franceses me tratavam muito bem. Eram meus amigos.
Aproveitando-se do meu silêncio, ele prosseguiu. “Sabe o que eles fizeram no meu país? Obrigaram a extinguir as forças armadas. Só agora estamos nos reestruturando. Veja no que deu”! Continuei no meu silêncio. Não estava nem um pouco interessado no país dele. Preocupava-me apenas em aprimorar-me na complicada arte (?) de abater aviões. Minha alienação política fez com que se afastasse.
Decorridos vinte e cinco anos, a Legião Estrangeira desembarcou em Beirute. Foram os primeiros a se oferecer para integrar as forças da ONU. Os primeiros a chegar. Sinal de que não estão para brincadeiras. Há décadas aguardavam esse momento. Suas cabeças raspadas, estampadas na primeira página dos jornais, fizeram meu subconsciente recuar no tempo para, só agora, entender a incontida revolta daquele capitão que, depois soube, era libanês. Seu país já fora a “Suíça do Oriente”, exemplo de democracia, tolerância religiosa e harmonia étnica. Destino dos europeus em férias, até o dia em que, sob pressão, resolveu seguir o “conselho” francês. Acabou com suas Forças Armadas. Até porque, nem Hitler havia atacado a Suíça…
Quando se foram, os franceses deixaram uma nação desarmada. Nada havia para defendê-la, nem de ameaças externas nem de si mesma. A imaginada harmonia interna não resistiu às diferenças étnicas e religiosas. O resultado foi um banho de sangue. Com o pretexto de ajudar o vizinho, a Síria ocupou-o militarmente por quase duas décadas. Só saiu em 2005, sob forte suspeita de ter participado do assassinato de Rafik Hariri, ex-primeiro-ministro, contrário à sua presença. Saiu, mas deixou seu representante, o Hezbollah.
Em 2000, a retirada israelense deu ao Hezbollah o tempo que precisava para reorganizar-se. Com mísseis e o apoio de Síria e Irã, saturou comunidades do norte de Israel. Todos se surpreenderam com a intensidade e a violência da resposta. O mundo ficou chocado com as fotos de corpos infantis mutilados. Logo depois, manchetes anunciavam que, após trinta e oito anos, o Exército Libanês recuperara o controle do sul do país. Tarde demais. Mesmo assim, a notícia mereceu o aplauso da população.
Como gostaria de reencontrar aquele capitão para pedir desculpas por não ter-lhe dado atenção. Dizer que aprovo sua indignação, pois, indefeso, até o paraíso pode virar inferno. Foi o que aconteceu com o Líbano, que tem sofrido com uma guerra que não é sua.
Tomara que tenha mudado o que está dentro das legionárias cabeças raspadas. Que sua intenção seja somente humanitária. Não mais a de tentar impor sua vontade, sua língua, sua filosofia, sua arrogância. Nada de conselhos. O libanês pode até falar francês, mas o fará sempre com acento. Afinal, o Líbano não é a França. Muito menos a Suíça. É apenas o Líbano, cujo povo merece viver feliz. Porém, à sua maneira e em paz.

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Dia da Pátria

07/09/2006 por bonat

Ao abordar o tema patriotismo, vem-me a preocupação de não transmitir a idéia de que este seja um assunto exclusivo dos militares. Embora tenha vestido farda por mais de quarenta e um anos, o que, vamos convir, exerce enorme influência sobre meus pensamentos e ações, vou tentar falar como um cidadão brasileiro que vive, sofre, alegra-se e sente as conseqüências de tudo o que aqui se faz de certo ou errado.
O Brasil, como qualquer país, passa ora por bons ora por maus períodos. O problema é algumas pessoas acreditarem que dificuldades conjunturais possam fazer diminuir o sentimento patriótico do nosso povo, quando, na verdade, ele é uma chama interior que nos dá força nas horas de desesperança.
Pátria não é apenas o país onde nascemos, ao qual nosso ser está preso pelas mais profundas raízes. Representa muito mais – é continuidade histórica, patrimônio comum, emoção, é coração. Não é de ninguém, pois a todos pertence.
O Sete de Setembro oferece a oportunidade para demonstrarmos o orgulho de ser brasileiro. É o momento de nos questionarmos sobre o que podemos fazer para o engrandecimento da nossa Pátria. E a resposta me parece simples – basta que cada um de nós procure ser uma pessoa de bem, termo em desuso, mas que resume o compromisso que devemos ter com nossos compatriotas.
Um país nunca será maior do que o amor que lhe dedicam seus filhos. Nosso dever com as futuras gerações é o de lhes transmitir o valor das coisas que são somente nossas e que nos caracterizam como nação. Assim fazendo, a cada Sete de Setembro teremos uma Pátria mais forte e mais independente.
Quantos nos invejam por sermos um povo inteligente, criativo e desprovido de toda ordem de preconceito! Quantos gostariam de possuir imensas riquezas naturais como as nossas! Quantos admiram nossa história, rica de vultos que merecem ser reverenciados e imitados! Será que somente nós não conseguimos reconhecer o nosso valor? É hora de nos olharmos no espelho e enxergar, também, o que temos de bom. É hora de aumentar nossa auto-estima para podermos passar às novas gerações a maior herança que recebemos dos nossos pais: o orgulho de ser brasileiro!

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Minha utópica candidata

18/08/2006 por bonat

O combate à dengue de 2001 na Baixada Santista não alcançara os resultados esperados. Apesar da seriedade e dedicação dos agentes de saúde, os moradores, temerosos por sua segurança, não os autorizaram a entrar em suas residências, fossem humildes barracos ou casas luxuosas. Em 2002, a Brigada Antiaérea participou da campanha. Por confiarem nos soldados, as pessoas abriram para eles os seus portões de ferro. O “aedes aegypti” finalmente foi neutralizado.
Sempre que pude acompanhei algumas das minhas equipes. À medida que elas se deslocavam no sentido centro-periferia, observava o gradativo aumento do número de crianças. Nas favelas, vi soldados cercados por verdadeiros batalhões de brasileirinhos atraídos pela farda que, via de regra, faz parte do imaginário infantil. Ali pude constatar a dura realidade da nossa pirâmide social, cuja base se amplia de forma preocupante.
Militares, por formação (ou deformação), são exageradamente otimistas em relação ao seu país. Não sou exceção. No entanto, cada vez que entrava no único cômodo de um barraco onde se amontoavam seis, sete ou mais pessoas, meu lado pessimista resmungava: como pode uma família tão numerosa sobreviver com algo em torno do salário mínimo? Como se sustenta, educa, veste e cuida da saúde de tantas pessoas? Como poderá a nossa economia, por mais pujante que venha a ser, gerar emprego para tanta gente?
Os atuais presidenciáveis parecem ter resposta para as minhas aflições. Discursam horas expondo como resolver os problemas da educação, fome, saúde, do desemprego, da segurança, reforma agrária, distribuição de renda e da prostituição infantil. Brilhantes projetos, porém meros paliativos se for mantido o ritmo de crescimento daqueles batalhões mirins. Preocupa-me o fato de candidato algum abordar, de forma séria e responsável, o tema demografia. Acredito, não sem lamentar, que alguns daqueles meninos de 2002 já foram cooptados pelo crime organizado. Que, das meninas, algumas foram arrastadas para a prostituição infantil. O que mais falta para acionar o sinal de alerta? Que mais crianças sigam o caminho sem volta do tráfico e da prostituição?
Dias atrás, meu lado otimista, aquele que é deformado, teve novo alento. Ao ser questionada pelo repórter Pedro Bial, da Globo, sobre a razão de as coisas funcionarem em Nova Pádua, uma professora foi taxativa: “é porque aqui existe controle da natalidade”. O que ela quis dizer, e disse com outras palavras, é que naquela pequena cidade gaúcha pratica-se a paternidade responsável.
A lição da jovem professora parece bem clara: a de que todas as soluções para o Brasil não passarão de devaneios enquanto não for estendido à base da pirâmide social o direito já adquirido pelas classes média e alta – o de poder decidir quantos filhos se deseja ter. Se isso não ocorrer, a sina de muita criança da periferia será a de continuar a viver amontoada – no barraco, na febem e, depois, na casa de detenção.
Como, ao que parece, não entenderam a lição, nossos presidenciáveis continuam com seus utópicos discursos. Utopia por utopia, meu voto vai para a corajosa professorinha gaúcha, minha utópica candidata.

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O PCC e a herança da pobre viúva

18/07/2006 por bonat

Havia um casal com muitos filhos. Trabalhadora e honesta, a família vivia em perfeita harmonia. Genros e noras foram sendo agregados com carinho, independente de sua origem. Chegaram inúmeros netos, todos muito bem-vindos. Também havia cães. Eram bem tratados por serem extremamente leais e defenderem os membros da família e seu patrimônio, conseguido com sacrifício.
Ao morrer, o marido deixou imensa fortuna. A viúva sentiu necessidade de ajuda para administrar a herança que, segundo ela, pertencia a todos e devia ser gerenciada como um bem-comum. Rapidamente, alguns genros – Pólis, Filos, Síndis, Júris e Lúpus – formaram uma Comissão. Todos haviam estudado, uns mais outros menos, em escola pública de qualidade. Daí, a nora Professora, conhecida como Profe, sentir muito orgulho do seu nome. Como trabalhava em tempo integral, não pôde fazer parte da Comissão.
Era preciso escolher um chefe. Devido à sua má fama, Pólis foi logo descartado. Filos foi o eleito. Aos poucos, as pessoas foram se apercebendo que ele não tinha idéias próprias. Limitava-se, com seu ar de intelectual, a repetir os pensamentos de um amigo francês. Cheio de galicismos, preocupava-se mais com a família francesa do que com a sua. Para substituí-lo escolheram Síndis, em quem se depositava fundada esperança, pois trabalhara numa grande multinacional e administrara o vultoso orçamento de um sindicato.
Foi só Síndis iniciar sua gestão, para irem fofocar à viúva que ele teria repartido, entre quarenta amigos, alguns bilhões da herança. Nada foi comprovado. O que ficou claro, pelo alarde que se fez, é que o genro passaria a dar míseros cinqüenta dinheiros de mesada aos sobrinhos que não conseguiam emprego.
Numa das reuniões, Pólis propôs uma série de regras, todas confusas, mas que concediam à sua mulher e filhos vários direitos. Júris, que de bobo não tinha nada, endureceu. Tendo a difícil tarefa de julgar, com base em regras tão complicadas, sua mulher e filhos deveriam ter os mesmos privilégios. Todos concordaram.
Tão poucos receberam tantas benesses, que o dinheiro foi acabando. Quase nada sobrou para Profe. Ela teve que contentar-se em receber da viúva trinta vezes menos que Pólis e Júris. Pensou, até, em trocar de nome. Desistiu quando ouviu, da voz eloqüente de Pólis, que o futuro da família estava na educação.
Os cães, obviamente, não faziam parte da Comissão. Decidiu-se cortar a verba para sua ração. Lúpus, que tinha cara de cordeiro, sugeriu inclusive castrar os animais mais valentes a fim de amansá-los. Quase colou.
Não demorou muito para tudo virar briga de família, com direito a tapas e puxões de cabelo. E sabem quem pagou o pato? Os cães. Encarregados de apartar a briga, passaram a ser cassados pelos familiares excluídos pela Comissão. Lúpus chegou a consultar um representante dos direitos humanos. Este informou que nada poderia fazer, pois cães não eram humanos.Ofereceu então seus próprios cães. Desconfiados, ninguém topou.
Sentindo estar perto o seu fim, a viúva aconselhou Pólis – “Você pensa que, por não falarem, cães não sejam inteligentes. Saiba que, um dia, cansados de ser maltratados, eles podem se voltar contra o próprio dono”. Pobre e desiludida, a velha morreu na manhã seguinte. Os fiéis cães foram dos poucos a comparecer ao seu enterro.

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Triângulo mágico na seleção

26/05/2006 por bonat

Não sei quem a teve. Mas não foi feliz a idéia do quadrado mágico. Quadrado lembra uma figura rígida. Impõe lados todos iguais e ângulos inflexivelmente retos, imexíveis, no dizer de um ex-ministro. Quatro lados com o mesmo peso, idade e habilidade, o que certamente não ocorre quando eles são seres humanos, sabidamente diferentes.
Porém, a magia do quadrado foi a de ter-nos feito tirar a bandeira do armário e pendurá-la na janela, coisa inimaginável em outras ocasiões. Ele uniu os brasileiros. Pobres e ricos, gordos e magros, governo e oposição, bêbados e sóbrios, velhos e moços, sogras e genros, todos vestiram com orgulho o verde-amarelo.
Pudera, pertencemos ao G-7 do futebol. Somos potência. Todos nos invejam e, ao mesmo tempo, querem nos derrotar. Por isso nos enrolamos na mesma bandeira, símbolo que tem o poder de nos unir, pois nela estamos todos representados, os de Ipanema e os dos grotões. Não a desfraldamos em outros momentos, preocupados com o que iriam pensar os vizinhos, parentes e amigos. Tememos não estar agindo de forma politicamente correta. Afinal, expor nosso amor ao Brasil nos submete a essa nova forma de censura que impera nos dias de hoje.
O brasileiro é frustrado por não pertencer a um país de primeiro mundo. Frustram-no também os desmandos dos políticos que, salvo raras exceções, governam pensando em si próprios e no pequeno grupo que os cerca. Daí, termos nosso espírito patriótico adormecido. A Copa do Mundo representa a oportunidade para acordar esse sentimento.
Há porém outra frustração, que atinge sobretudo os homens brasileiros – a de não ser um jogador de futebol. Afinal, antes mesmo de nascermos nossos pais já decidiram para que time iremos torcer. Quando chegamos ao mundo, nosso primeiro presente é uma camisa de futebol. Em seguida ganhamos uma bola. E todos sonham em ver-nos fazendo lindas jogadas e belos gols. Primeiro no clube. Depois na seleção. Normalmente a decepção não tarda a chegar. Nas primeiras peladas, sentimos que a redonda não é tão fácil assim de ser dominada. Para nossa tristeza e de nossos pais, estes se vêem obrigados a nos convencer de que é melhor estudar do que continuar insistindo.
Na Copa, nos incorporamos nos Ronaldos e Robinhos. Enxergamo-nos recebendo vultosos salários, dirigindo carrões, vivendo em castelos, hospedando-nos em hotéis cinco estrelas, freqüentando finos restaurantes e sendo perseguidos por belas mulheres. Descobrimos que até mesmo alguns políticos, que sobrevivem dando gorjetas aos miseráveis, nos perdoam pelo crime de, pelos nossos méritos, termos ficado rico.
Depois do fracasso do quadrado e apesar de ainda não saber quem será o técnico da seleção em 2026, deixo-lhe a sugestão para escalar um triângulo mágico formado por João Gustavo, Guilherme e Rafael – meus netos. Embora de tenra idade, já ganharam a amarelinha, uma bola e estão treinando com afinco. Se der certo e viver até lá, este avô, que nas peladas foi um esforçado lateral direito, deixará de ser um boleiro frustrado.

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Dia da Vitória – até tu, Bolívia?

08/05/2006 por bonat

O passado certamente não é um bom lugar para se viver. Mas convém visitá-lo de vez em quando. Encontrar, nas comemorações do Dia da Vitória, os remanescentes dos vinte e cinco mil pracinhas que lutaram na Itália propiciou-nos retornar a um momento importante da nossa história.
A mistura explosiva de um fluente orador e de um país mergulhado no caos, causado pelas pesadas restrições impostas em Versalhes, havia levado à ditadura nazista. Com a ajuda de Joseph Goebbels, espécie de marqueteiro da época, tornou-se fácil a conversão do povo alemão. Hitler governou com poderes ilimitados. E deu no que deu: quarenta e cinco milhões de mortos.
O oito de maio de 1945 foi um dia de festa nas trincheiras. Hitler e seu Partido Nacional Socialista estavam derrotados. A serenidade dos octogenários pracinhas fundamenta-se no orgulho de terem ajudado a pôr fim na louca aventura nazista. Eles sabem o frio que passaram, a saudade que sentiram e o medo que venceram. Somente eles e mais ninguém, principalmente os que estavam nas trincheiras opostas, a quem era preciso mostrar, a qualquer custo, que não existe raça superior ou inferior. Só eles sabem o quanto custou a vitória. Só eles vivenciaram aquele momento único, triunfal, de pisar de novo o solo pátrio.
A participação brasileira pode ser considerada pequena. Mesmo assim, tivemos quatrocentos e cinqüenta e uma baixas, o que não é pouco. Num exercício de imaginação, vamos supor que eles ressuscitassem agora. Iriam surpreender-se, pois o mundo avançou séculos nos sessenta e um anos que ligam aqueles difíceis tempos aos atuais. Ficariam admirados de ver como industrializou-se o Brasil rural da Década de Quarenta. Dos inúmeros avanços tecnológicos, possivelmente a televisão lhes chamaria mais a atenção. Ficariam interessados nos noticiários. Ao ouvirem as novidades da política, pensariam estar no Saara, tamanho é o atual deserto de dignidade. Nos intervalos, veriam que os marqueteiros continuam em moda, tanto se esbanja o nosso suado dinheirinho para a autopromoção dos nossos dirigentes.
Ao assistirem a matéria sobre a reunião de Puerto Iguazú, reconheceriam logo o presidente da Argentina, com seu jeitão de Perón. Acreditariam, pela liderança que exerce sobre os demais, ser Hugo Chávez o presidente do Brasil. Após lhes informarmos que aquele era o mandatário da Venezuela, imaginariam que o brasileiro seria Evo Morales. Afinal, ele havia tomado conta de refinarias da Petrobrás. Explicaríamos que estavam enganados: aquele era boliviano. Por exclusão, concluiriam ser o sorridente senhor de barba o presidente do maior país da América Latina. Aí, nos perguntariam: ele ri de quê? Não saberíamos responder. Eles, que deram a vida pelo Brasil e pela liberdade, nos olhariam com desprezo e voltariam correndo ao seu altivo passado.
Após esse tremendo mico, nós continuaríamos aqui, com o complexo de “colonizados” que há algum tempo tomou conta das nossas mentes. Tal síndrome nos impede de assumir o papel de liderança que, de forma natural, deveríamos exercer na América do Sul. E todos se aproveitam disso para nos passar rasteira: Argentina, Venezuela, Paraguai e, agora também, a Bolívia. Até tu, Bolívia, a quem o Brasil sempre procurou ajudar! Quem diria!

Los Rusos también hacen pipi

02/02/2006 por bonat

O Muro de Berlim havia caído em 1989. Em 1993 o Exército buscava uma arma antiaérea barata e eficaz. Por ser especialista nessa área, fui enviado à Rússia, tendo sido o primeiro oficial brasileiro, depois de muitos anos, a visitá-la oficialmente.
Acompanhado por três russos e um uruguaio, viajei de Moscou para Vladimir. A meio-caminho, paramos no acostamento. Os russos nos convidaram para fazer xixi. Não aceitamos. Enquanto eles molhavam as árvores à beira da estrada, o uruguaio saiu-se com esta: “Mira, brasileño, los rusos también hacen pipi”. E arrematou: “Ellos son casi humanos”!
Apesar de cômica, sua observação refletia a imagem que anos de Guerra Fria haviam incutido em nosso subconsciente. Tínhamos, principalmente aos integrantes das forças armadas soviéticas, como seres sem coração, quase máquinas, capazes das maiores barbaridades. Exageros à parte, não se lhes pode eximir de culpa. De fato, quando invadiu a Alemanha na II Guerra, o Exército Vermelho cometeu inúmeras atrocidades. Tantas, que os alemães, já derrotados, preferiam render-se a qualquer soldado aliado. Exceto ao russo.
Tristemente famosos também ficaram os agentes do serviço secreto soviético, a temida KGB. Por certo, não por se comportarem como bons samaritanos. A FSB, sua sucessora, aparentemente usa métodos mais humanos. Mesmo assim tem-se mostrado eficaz. Pelo menos foi o que revelaram recentes notícias sobre o flagrante que seus agentes deram em diplomatas e funcionários da embaixada britânica em Moscou. Inspirados em 007, súditos de Sua Majestade usavam um transmissor embutido numa falsa pedra para se comunicarem com agentes secretos e representantes de ONGs russas a soldo de Londres.
A globalização fez multiplicar o número de ONGs. Os objetivos da imensa maioria delas são incontestáveis. Buscam humanizar governos, evitando seus excessos. Defendem minorias. Zelam pelo futuro do planeta. A questão levantada pela descoberta da pedra-transmissor é se uma ONG, que aceita apoio de diplomatas e é financiada por um governo, merece continuar a ser intitulada não-governamental. Até onde sei há poucas figuras mais governamentais do que um diplomata.
E tem mais. Algumas são sustentadas por membros da Coroa Britânica. É racional ficar desconfiado. Se existe algo de louvável na família real é sua visão estratégica. Por isso a Inglaterra continua, ainda, a ter tanta influência. Por isso apóia algumas ONGs. Se o faz na Rússia, por que deixaria de fazê-lo no Brasil? Espalhados pela imensidão amazônica estão representantes de ONGs e missionários de todos os credos. Fazendo exatamente o quê, ninguém sabe. Nem o Estado nem a sociedade brasileira. Historicamente, nossos governos não gostam de aborrecê-los. Consta que defendem os índios e as florestas. Bom seria se fosse só isso. Soltaríamos foguetes de alegria!
Chegará o dia em que nosso governo, nossas ONGs e nós todos como sociedade tomaremos consciência do valor estratégico e econômico da Amazônia. Aí, nós mesmos, do jeito que é só nosso, iremos zelar pelos nossos índios, nossas florestas e nossos rios. Estou sonhando, logicamente. Todos já perceberam. Em breve devo acordar. Quando isso acontecer, tornarei pública minha inquietação – ao financiar uma ONG que atua na Amazônia, um príncipe estrangeiro está pensando em nosso bem ou em nossos bens ?
E, antes que alguém pergunte: príncipes também fazem pipi.

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