Carro-bomba à francesa

Estava decidido: não compraria um carro. Por não conhecer bem as manias do trânsito, poderia me envolver num acidente. Além do mais, estava num país onde o sistema de transporte, ancorado no metrô e no trem, era dos mais eficientes.
Os primeiros dias, permaneci em Paris. Os trilhos e minhas pernas levaram-me aonde eu queria – Tour Eiffel, Louvre, Notre Dame, Les Invalides e outros lugares famosos. Recomendaram-me não ir ao subúrbio (la banlieu). Era perigoso. Não fora esse alerta, talvez eu tivesse conhecido os locais onde, no início deste mês, os primeiros de milhares de carros viraram “bomba”.
No décimo dia, segui para Nîmes para fazer um curso. No sul, região daquela aconchegante cidade, era forte a presença árabe, principalmente de argelinos e seus descendentes. Nos finais-de-semana transformava-me num “piéton”, verdadeiro andarilho a perambular pelas ruas da cidade e seus arredores. De vez em quando, viajava pela bela costa do Mediterrâneo.
Inúmeras vezes, nesses passeios, minha atenção voltou-se para a algazarra provocada por uma pequena multidão. Ao me aproximar, presenciava um árabe sendo agredido. A eficiente gendarmerie chegava logo depois e conduzia todos à delegacia. Franceses me confidenciavam que Miterrand havia sido eleito pelas minorias. Por isso, reclamavam, enquanto nós temos todas as obrigações (pagar impostos, água, luz), árabes gozam de todos os privilégios. Recebem tudo de graça, inclusive a casa onde moram e o alimento que comem.
Uma vez vivi o outro lado da moeda. Ao embarcar num trem encontrei uma família árabe – marido, mulher e quatro filhos. Como estava em dúvida, perguntei ao marido se o destino era Marselha. A resposta veio na forma de gritos: “se você sabe, por que está perguntando”? Por ter a pele branca e já estar dominando o idioma, ele tomou-me por francês. Daí tratar-me como tal – inimigo! Não o faria provavelmente se soubesse que eu era brasileiro.
Apesar de sentir-me um perfeito idiota, pude entender o lado francês da história – se a França lhe dá tudo que necessita, por que trata assim a um francês? Aquele homem e seus filhos nunca se tornaram franceses. Jamais apreciaram um bom vinho. O fato é que francês e árabe são de culturas diferentes. Não combinam. O pior – não se suportam. Apenas vivem no mesmo território.
O incrível não é o que está acontecendo hoje, mas no tempo que demorou para explodir um ódio que já em 1982 era latente. Pode-se imaginar que a crise seja somente econômica. Suas raízes são muito mais profundas. Um problema que se alastrou por todo o país e começa a ser notícia em outros pontos da Europa. Não se trata, para o governo francês, de simplesmente criar empregos. A questão é mais grave.
Os brasileiros têm muito a ensinar a árabes e franceses. Nós, e mais ninguém, somos os únicos a poder proclamar: “vive la différence”! Pena que eles, ambos, não nos queiram ouvir.
Torna-se óbvia a decisão de não comprar um carro na França de hoje. Ele pode virar cinzas. Quando lá vivi, nem tanto. Mas acertei. Afinal, graças à vida de “piéton” que levei, posso afirmar, inspirado na erudição dos nossos estádios: “eu já sabia”!

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