Boas cercas, bons vizinhos
30/11/2005 por admin
O Presidente Bush encontrou um palanque para tentar frear sua queda nas pesquisas de opinião: o sucesso de sua política de combate à entrada ilegal de estrangeiros nos Estados Unidos. Só não precisava ter usado o Brasil como referência! Até parece que brasileiros representam a maioria dos milhares que passam mensalmente pelo vale do Rio Grande.
Está certo que nos últimos tempos nossa participação nessa legião de desesperados aumentou exponencialmente. Neste ano, segundo o consulado brasileiro em Houston, somente até 11 de novembro, 48.483 brasileiros haviam sido detidos pelos guardas fronteiriços. Isso representa 154 por dia. Sem contar os que conseguiram passar.
Mas, se há latino-americanos, pode haver também pessoas de outros cantos. Aí, a verdadeira razão da decantada política: evitar que a turma do Bin Laden resolva pegar uma carona (se já não pegou) numa das “caravanas do deserto” texano.
Porém, ninguém deve se iludir sobre o quanto são preocupantes as cifras reveladas pelo nosso consulado no Texas.
Antes nos ufanávamos quando orgulhosos repórteres tupiniquins entrevistavam brasileiros trabalhando em centros de renome mundial. Tratava-se de pessoas vivendo no exterior em situação regular, com bons salários e seguridade social. Compreendíamos ser difícil para um país em desenvolvimento segurar seus cérebros, tendo em vista as tentadoras vantagens oferecidas lá fora para pesquisadores. Além do mais, com honrosas exceções, não nos preocupamos em investir em pesquisa.
Ultimamente, vemos nossos repórteres, não tão orgulhosos, a entrevistar brasileiros em situação irregular em vários países, morando mal, competindo no mercado de trabalho informal com hispanos e afins, sujeitando-se a executar tarefas para as quais os nativos não estão nem aí. E, o que é pior, muitas vezes são pessoas com escolaridade superior, tendo que usar seus músculos, não o seu preparado cérebro.
Se antes exportávamos somente cérebros, agora exportamos cérebros e músculos. Os primeiros continuam a ir legalmente. Os segundos, coitados, têm que viver incógnitos, aceitam qualquer trabalho, qualquer salário. Não têm direito à seguridade social. Trabalham de sol a sol, praticamente sem lazer algum. Lazer custa caro e é preciso guardar os suados dólares para remeter para a família no Brasil.
Trazendo nossa lupa para a América do Sul, constatamos que há alguns vizinhos que enxergam o Brasil como os mexicanos vêem os Estados Unidos: a única chance de sobrevivência.
Aqui, vêm trabalhar por um prato de comida, a dormir amontoados, a tirar nossos empregos. E, além de vizinhos, há asiáticos, que entram no Brasil não se sabe como.
Em vários pontos da nossa extensa fronteira, é possível cruzá-la à pé. Se não houver controle, tudo pode passar: pessoas, produtos e boi, alguns de duvidosa origem. E, onde passa boi, passa boiada. Onde passa boiada, pode ter passado a aftosa. Tudo, não por coincidência, ameaçando nossos empregos.
Não é o caso de se pensar, como Israel, em levantar um muro. Afinal, nossas relações com os vizinhos são muito boas. Se isso é verdade, por que não fazê-los ver que boas cercas fazem bons vizinhos? Prudente seria o Brasil e seus limítrofes levantarem uma cerca representada por uma legislação e uma fiscalização mais rigorosas.
Americanos e mexicanos tiveram essa percepção. Nós, embora sem ser maioria, infelizmente, fomos citados. Mr Bush, diplomaticamente, omitiu os mexicanos. Pudera! Eles ajudaram a construir a cerca. São bons vizinhos!